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Para presidente da Chapecoense, jogador caro não é solução

Dirigente aponta diferenças na gestão entre clubes paulistas e catarinenses, além de explicar a ascensão meteórica da equipe

Entrevista com

Sandro Pallaoro

Diego Salgado, Renan Fernandes, O Estado de S. Paulo

17 Setembro 2014 | 07h00

A Chapecoense, clube fundado em 1973, é dono da maior ascensão dos últimos anos no futebol brasileiro. Em cinco temporadas, o time catarinense conseguiu três acessos, deixando a Série D em 2009 rumo à elite do Brasileirão na edição deste ano. Com a equipe de Chapecó, o futebol catarinense soma três times entre os 20 clubes da Série A.

Em entrevista exclusiva ao Estado, o presidente da Chapecoense, Sandro Pallaoro, aponta a diferença na gestão entre clubes paulistas e catarinenses. Além disso, explica como se deu a evolução do time. Para ele, é preciso ter os pés no chão, com salários adequados à realidade do futebol do País. No clube, por exemplo, o teto salarial é de R$ 70 mil, com total de R$ 1,3 milhão mensal na folha de pagamento.

A Chapecoense conseguiu deixar a Série D e chegar à elite do Brasileirão em cinco anos. Qual o segredo?

Planejamento, comprometimento, responsabilidade e transparência. Tudo isso foi decisivo nesses últimos cinco anos. Tivemos pés no chão, sem cometer loucuras na folha de pagamento. Gastamos só o que temos, com as peças certas, sem jogadores renomados. Tentamos formar um grupo, passando para ele o que queríamos. Aos poucos, conseguimos chegar ao objetivo.

O futebol paulista passa por uma crise, ao contrário do catarinense. Há diferença na gestão do futebol?

O principal é o trabalho com os pés no chão. É preciso ter equilíbrio nas contas. Nossa administração é voltada aos clubes. Não existe interesse político na  Chapecoense, por exemplo. Além disso, a cobrança por títulos nos clubes grandes é maior. O dirigente quer contratar grandes jogadores. Isso vira uma bola de  neve, que hoje está insustentável. Os clubes só pagam dívidas. Os jogadores de R$ 50 mil são considerados ruins. Esses clubes inflacionam o mercado. Se me derem jogadores de R$ 200 mil de graça, eu não aceito. Para eles chegarem  no patamar de gestão da Chapecoense, vai demorar alguns anos para se adaptar à nova estrutura, de pagar as contas em dia.

É possível ter um time competitivo com salários dentro da realidade?

Sim, nós conseguimos. Dentro da nossa realidade, do nosso orçamento, é claro que não vamos brigar por título e Libertadores. A briga é para permanecer. Temos alguns jogadores com salários bons e salários razoáveis. Muitas vezes optamos por trazer jogadores reservas com salários mais baixos. O nosso teto hoje é de  R$ 70 mil. É muita loucura pagar R$ 400 mil, R$ 500 mil por mês para um atleta. É fora da realidade, não tem como pagar um valor desse. O exemplo está aí: há muitos clubes com dívidas.

O clube está no azul?

Sim, não temos dívida nenhuma. Nem trabalhista nem com governo Federal, estadual ou municipal.

Como se dá o trabalho de gestão do clube?

Nós temos ex-jogadores no departamento de futebol. Todos sabem analisar futebol e montar um grupo. O Financeiro é feito por uma consultoria, habituada à área  financeira. A diretoria do conselho e a diretoria executiva trabalham juntas. O conselho não fiscaliza apenas. Isso ajuda muito. A maioria do conselho é composto por empresários da cidade. Eles trazem a experiência para o clube, na administração do clube. Isso também ajuda bastante.

A Chapecoense aposta na base?

Nos últimos três anos fizemos um investimento maior. Temos uma escolinha com 300 alunos. Quem se destaca consegue entrar para as categorias (Sub-11, 13, 15,  17 e 20). Temos em torno de 170 atletas, 20 já com contrato com o clube. Estamos investindo bastante. No time hoje temos dois jogadores do time de base: o Fabiano (lateral de 22 anos) e o Grolli (zagueiro de 24 anos). Eles tiveram destaque nesses últimos anos. Daqui a três anos, teremos mais nomes no time principal. É um trabalho a longo prazo.

O time tem a segunda maior ocupação de estádios no Brasileirão. Como é possível fazer isso?

A região abraçou o time. A cidade tem 200 mil habitantes e o clube tem 11 mil sócios. É um número expressivo. Todos eles têm acesso ao estádio, direito ao  ingresso e assistem a todos os jogos. Eles garantem a receita. Por isso conseguimos ingressos mais baratos. Com os sócios, há uma garantia. Na venda de ingresso, não. Pois muita coisa influi. Cada sócio paga, em média, R$ 65 por mês. Isso dá uma arrecadação de R$ 700 mil por mês para o clube. É uma garantia.

Como manter esse bom momento numa eventual queda?

A verba da tevê vai cair bastante, de R$ 18 milhões para R$ 3 milhões. Vamos ter de nos adequar. Mas se conseguirmos ficar, daremos um salto ainda maior. O número de sócios vai aumentar, podendo chegar a 15 mil sócios. Todo mundo imagina que a Chapecoense não vai durar, que teve sorte em chegar à primeira  divisão. A grande maioria tem essa visão. Mas vamos provar e consolidar o trabalho desses últimos anos.

Mas há um plano B?

Estamos preparados para isso. Teremos de montar um time bem inferior para o ano que vem. O teto vai voltar para a faixa de R$ 10, 15 mil. E a folha de pagamento vai cair bastante, vai voltar para R$ 400, 500 mil por mês (hoje a folha de pagamento é de R$ 1,3 milhão). Os contratos vencem no fim do ano. Mas  vamos permanecer, senão todo o entusiasmo será perdido também. Estamos fora da zona de rebaixamento.

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