Ivan Alvarado/Reuters
Ivan Alvarado/Reuters

Para psicólogos, levar as mãos à cabeça ao perder gol é inerente à psique humana

Gesto se tornou universal e conquistou os campos pelo mundo

David Gendelman, The New York Times

13 Julho 2018 | 05h00

Os gols nos jogos de futebol são poucos, o que ajuda a explicar o delírio nas comemorações. Alguns jogadores tiram a camisa ou se ajoelham e se arrastam no gramado em júbilo. E todos acabam sob uma pilha de colegas. Temos também aqueles que são presenteados com uma oportunidade de marcar um gol e falham. Quando isso ocorre, todos fazem a mesma coisa: colocam as mãos na cabeça – aparentemente um gesto universal que significa: como perdi isso?

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Se você tem acompanhado os jogos da Copa do Mundo, provavelmente viu a cena dezenas de vezes, com atletas de todas as posições e de todos os países.

Lionel Messi fez esse gesto, como também Cristiano Ronaldo. França, Bélgica, Inglaterra e Croácia avançaram para as semifinais, mas seus jogadores também tiveram esse comportamento. Não tem nada a ver com futebol e tudo com a psique humana, de acordo com psicólogos e outros estudiosos.

O gesto significa que “você sabe que fez uma besteira”, diz Jessica Tracy, professora de psicologia da Universidade da Colúmbia Britânica. “É como dizer: ‘Perdi a chance e sinto muito, e vocês não têm de me chutar para fora do grupo nem me matar’.”

E ele não se limita a quem finalizou. Em um dos mais reproduzido erros de todos os tempos, na Copa de 2010 Yakubu Aiyegbeni, da Nigéria, perdeu um gol diante de uma rede vazia a três metros de distância. Embora ele não tenha se mexido, todos os seus colegas fizeram aquele movimento, numa sincronização imediata e não ensaiada.

Em um estudo seminal de 1981, The Soccer Tribe (A Tribo do Futebol, em tradução livre), o zoólogo Desmond Morris incluiu o gesto em seu catálogo das 12 reações de atletas diante de uma derrota. Ele observou sua função de autoconforto, “uma reação quando o indivíduo sente a necessidade de um abraço tranquilizador mas não há ninguém para lhe dar um”. Isso é observado entre primatas não humanos também.

Em 2008, Jessica Tracy publicou estudo com seu colega David Matsumoto em que analisaram os gestos tanto de vitória como de derrota feitos por atletas olímpicos cegos e não cegos. E encontraram evidências sugerindo que os comportamentos exibidos de orgulho e vergonha eram inatos e universais.

 

“Você coloca a cabeça nas mãos – é vergonha”, afirma ela. “Você contrai o corpo, da maneira que o jogador coloca os braços em torno da cabeça, quase para torná-lo menor. São elementos clássicos mostrando a vergonha”, complementa.

Ninguém sabe melhor do que os jogadores quando eles cometem um erro. Cobi Jones, que teve uma longa carreira na equipe nacional masculina dos Estados Unidos e hoje trabalha como comentarista de TV, disse em uma entrevista que um erro flagrante desencadeia, junto com o gesto, uma sensação de descrença e vergonha. “Nós treinamos noite e dia para colocar a bola na rede. E é simples. É algo que não devemos falhar.”

GESTO NATURAL

​Em 1996, Dachner Keltner, professor de psicologia na Universidade da Califórnia em Berkeley, publicou um estudo das reações emocionais a explosões de ruído repentinas. Os objetos desse estudo tinham reação similar a dos jogadores depois de perder um gol. “Você ouve um som altíssimo e isso corresponde a alguma coisa que pode atingir seu crânio, então você defende a cabeça que é vulnerável e crucial. Qualquer tipo de ação como perder a chance de um gol, a fonte da dor psíquica produzirá esses movimentos de proteção.”

Esse gesto básico pode ser acompanhado de outros mais sutis. O jogador pode cobrir o rosto com as mãos ou a camisa. Ou levantar a cabeça para o céu, como pedindo para que perder um gol seja interpretado como falta de sorte, e não um erro seu.

O gesto de colocar as mãos na cabeça também é feito pelos torcedores. Como são mais observadores do que participantes os motivos podem ser diferentes. Philip Furley, que dá aulas sobre psicologia esportiva na Universidade de Esportes em Colônia, Alemanha, estudou o comportamento dos jogadores durante a marcação de pênaltis, quando o gesto é comum. “Entre os espectadores, o que se vê é uma espécie de contágio. Se é uma equipe pela qual você está torcendo, então o jogador que você está aplaudindo no momento assume um comportamento que pode contagiá-lo.”

Não importa a causa, o fato é que a quase absoluta previsibilidade do gesto se transformou no seu traço mais característico. “É como as piadas, as frases de efeito que os comediantes usam. As pessoas começam a rir antes de serem ditas. Tem muito de cômico nisso”, disse Goldblatt.

 

 

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