Amanda Perobelli
Amanda Perobelli

Para torcida da Ponte Preta, trem decide jogos no Majestoso

Estádio da Ponte se prepara para a primeira partida da final do Campeonato Paulista

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2017 | 17h00

Boa parte dos torcedores da Ponte Preta no estádio Moisés Lucarelli vai dividir a atenção entre o gramado e a linha de trem, que pode ser vista das arquibancadas. Para muitos, os trens de carga influenciam nos jogos. Se o trem vai em direção a Jundiaí, as chances de vitória da Ponte aumentam. Se ele for na direção contrária, o time perde ou empata.

O palco da primeira final do Paulistão ajuda a explicar a história e a mística do time mais antigo do Estado. “A ferrovia faz parte da história da Ponte Preta”, explica o professor José Moraes dos Santos Neto, historiador do clube.

Quando foi construída, em 1872, a ferrovia fechou a passagem do Bairro Alto ao centro. Para resolver o problema, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro construiu uma ponte de madeira, que foi enegrecida com piche para durar mais. Uma ponte preta. A região virou o bairro da Ponte Preta, a manjedoura do futebol em Campinas. Posteriormente, ela foi substituída por um viaduto.

A função viária se perdeu e ficou apenas a dimensão afetiva para a torcida. Nos anos 1960, a linha do trem virou arquibancada. Quem não tinha dinheiro para o ingresso via as partidas dali, mas só dá para ver meio campo.

A Associação Atlética Ponte Preta surgiu em 1900 no bairro de negros, imigrantes, operários e ferroviários. A casa própria do time demorou a sair. Incomodado com as chacotas dos amigos, o comerciante e industrial Moysés Lucarelli (a grafia era com “y” e não com “i”, como o estádio) comprou a chácara Maranhão no início dos anos 1940. Dono da fábrica de fogões Dako, Moysés não investiu só.

O estádio não teve uma construtora. Não precisou. Ao longo de quatro anos, um mutirão de fãs colocou a mão na massa – e nos tijolos. “Aqueles que não tinham dinheiro contribuíam com o trabalho. Por isso, todo ponte-pretano se sente um pouco dono do Majestoso”, diz o jornalista Stephan Campineiro, especialista na história do clube.

A inauguração foi em 1948. Embora supervisionado, o acabamento não ficou perfeito, afinal, gente de todas as profissões trabalhou ali. Até hoje é possível encontrar tijolos desalinhados em uma das paredes do banheiro masculino, em uma das poucas áreas originais.

O apelido Majestoso se deve à capacidade de 30 mil, que só era menor que a do Pacaembu e a de São Januário (o Maracanã ainda não havia sido construído). Hoje, a arena deve receber cerca de 17 mil pessoas. “O estádio é nosso orgulho”, admite o torcedor Douglas da Silva, que armou uma barraca na frente do Moisés Lucarelli para garantir seu ingresso dois dias antes da abertura das bilheterias.

O cantor sertanejo Marcelo Perfeito acha que toda aquela energia dos mutirões da construção permaneceu ali dentro do estádio. “É um templo sagrado que dá força para o time”, diz o filho de Alfredo Perfeito, ponta da Ponte nos anos 1980.

No Majestoso, a Ponte venceu o Santos e o Palmeiras (duas vezes) neste Paulistão. Nesses dias, o trem não passou, mas Perfeito cita outras duas vitórias nas quais ele passou na direção certa.

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