Para vizinhos de Messi, Copa não sobe o morro

Moradores do Jardim da Glória, que fica ao lado do CT, mudam a rotina do bairro humilde para ver os treinos argentinos

Gonçalo Junior - enviado especial a Belo Horizonte, O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2014 | 05h00

A dona de casa Glória Oliveira Dias ouviu um "tec" quando estava em pé em cima da cadeira. A perna bambeou, mas foi só um susto. A cadeira ficou encostada, como um dos prejuízos da Copa. Pudera: quase todos os dias, dona Glória repetia o ritual de ficar na pontinha do pé para superar seu 1,50m e conseguir alcançar lá em cima, um pouquinho mais, e acompanhar a visão da janela, que fica em cima da pia da cozinha. Da janela ela vê o treino da Argentina.

A cadeira não quebrou por causa de dona Glória, não é justo, tadinha. Seu filho Daniel também ocupava a arquibancada fora do comum, ele mais do que ela. Pronto, ficou melhor assim. A culpa é dos dois. E do Messi

Dona Glória e Daniel são alguns dos moradores do jardim da Glória, bairro em frente ao Centro de Treinamento do Atlético Mineiro, local de preparação da Argentina. Subir na cadeira é apenas um dos novos hábitos que os moradores adquiriram para ver os treinos, realizados do outro lado da rodovia MG-424, que faz ligação entre Belo Horizonte e Sete Lagoas. 

Do morro dá para ver tudo o que acontece lá. O campo de treinamento, os alojamentos e, principalmente, a muvuca na entrada principal. A aposentada Antonia Gomes se sente privilegiada. "Eu sempre vejo os treinos do Galo, vejo o Ronaldinho Gaúcho. Mas é muito bom também poder ver o Messi. Mesmo o bairro sendo muito humilde, tenho craques treinando no fundo da minha casa, coisa que madame da zona sul não tem", brincou.

Emissoras de tevê descobriram o local para revelar os segredos que o técnico Alejandro Sabella insiste em querer guardar com seus infindáveis treinos fechados. Por isso, vários moradores tentaram alugar suas lajes, mas pediram alto - até R$ 20 mil por um mês - e os gringos desistiram. 

Foi no bairro que dona Glória, aquela que quase caiu da cadeira, comprou sua casa própria. "Acho que minha casa valorizou por causa da boa reforma que fizemos. A localização é boa", sorri, orgulhosa. "Comprei por R$ 10 mil, mas hoje não vendo por menos de R$ 40 mil". 

Dificuldades
Para os moradores, a Copa não vai atravessar a rodovia. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade de Vespasiano, onde está o bairro da Glória, é de 0,688. Não é nenhuma Brastemp. É um número que a coloca no meio da tabela de classificação dos municípios. A campeã é a paulista de São Caetano do Sul, no ABC, com 0,862.

No bairro da Glória, o IDH é um pouco mais baixo. Os moradores reclamam que têm de andar 20 minutos para comprar pão porque o centro comercial fica lá no cocuruto do morro. Algumas ruas são de terra e sabe-se lá quando o asfalto vai chegar. Se é que vai chegar. Poucas casas têm TV a cabo e internet. A prefeitura construiu um centro esportivo recentemente, que se tornou a única opção de lazer das crianças, mas faltam as traves na quadra. As crianças jogam assim mesmo. 

Jogam menos agora, por causa de Messi. Algumas passam um tempão no campinho na beirada do barranco olhando sem entender direito aquela montoeira de gente. Robert tem 13 anos e fala que queria estar lá. Fica no muro de sua casa olhando os jogadores minúsculos. Está na 7.ª série, mas a escola deu férias por causa da Copa. 

Ele queria mesmo era um binóculo para ver o Messi na sua mão. Um binóculo parecido com aquele que o pessoal da rua de cima usa. Mas a tia dele, Railane Lima Costa, disse que eles usam o binóculo para fazer coisa errada. Então, não. 

Da janelinha da cozinha, Railane olha o treino, mas não quer tirar fotos. Acha que a casa é muito simples para sair no jornal. Tristonho, Robert diz que é melhor não tirar foto. Então, não. 
O autônomo Fabiano Tomás aproveita o dia de folga para arear panelas. Olha um pouco o treino e volta a atacar o Bombril. Trabalho chato, que precisa de força e paciência para tirar as manchas escuras das panelas cansadas de tanto ir ao fogo.

Nessa vida miúda que engatinha à margem da Copa, a dona de casa atleticana Ana Paula Coelho dos Santos olha neste dia, sem esquecer o que virá depois, a sua Copa particular da rivalidade regional. Ela torce o nariz para os tons argentinos de azul que agora cobrem o CT do seu clube alvinegro. Azul é a cor do rival Cruzeiro. "Pelo menos, o azul da Argentina é azul-bebê e não azul-celeste", conforma-se.

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