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Almir Leite, Luiz Alexandre Souza Ventura, Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2015 | 07h00

Na Segunda Divisão do Campeonato Paulista, que apesar da nomenclatura é equivalente à 4ª Divisão, é praticamente um torneio de várzea com a chancela da Federação Paulista tamanha a precariedade dos estádios e o baixíssimo nível técnico das partidas. Na verdade, muitos dos quase 300 jogos da primeira fase da competição tiveram situações tão insólitas que dificilmente ocorreriam até mesmo em campinhos de terra de periferia.

Se na Série A-1 do Estadual organizado pela federação mais rica do País desfilam craques e as cifras pagas aos atletas e clubes são milionárias, na Segunda Divisão a história é bem diferente. A lista de bizarrices é intensa: estádio sem alvará, W.O. provocado por sequestro relâmpago de dirigente, torcedor que vira massagista, inscrição irregular de 13 jogadores do mesmo time numa única partida, aparecimento de um drone sobrevoando o campo no meio do jogo, desaparecimento de boletim financeiro... Eis alguns exemplos:

União Suzano 0 x 3 Jabaquara

O primeiro W.O. do campeonato veio logo na segunda rodada, no dia 24 de abril. Com o laudo emitido pelo Corpo de Bombeiros vencido desde março, o estádio Francisco Marques Figueira, em Suzano, não foi liberado para receber a partida. Em cima da hora, a diretoria do União Suzano ainda tentou alugar algum estádio para realizar o jogo, mas achou os preços cobrados na Rua Javari, do Juventus, e no Nicolau Alayon, do Nacional, caros demais e optou por perder por W.O. mesmo, com 3 a 0 no placar.

Portuguesa Santista 3 x 0 Ecus

No segundo W.O. do campeonato ocorreu no dia 2 de agosto porque, segundo o presidente do Ecus, Sérgio Chagas, um dos gestores do clube sofreu um sequestro relâmpago na madrugada anterior ao jogo e só foi libertado momentos antes da partida. Ele seria o responsável por levar a van com o motorista que transportaria o time até Santos. 

Osvaldo Cruz 1 x 6 Assisense. A partida do dia 12 de julho começou com 23 minutos de atraso devido ao não funcionamento das tomadas de energia da ambulância para ligar o desfibrilador. Pior: treze jogadores do Osvaldo Cruz estavam com "restrições" no registro de inscrição.

Noroeste 8 x 0 José Bonifácio

Não foi apenas a chuva de gols que chamou a atenção no Estádio Alfredo de Castilho, em Bauru. No primeiro tempo, um drone sobrevoou o campo a uma altura bem próxima ao gramado. A arbitragem relatou o fato na súmula, com a ressalva de que o aparelho não interferiu no desenvolvimento da partida.

Mauaense 14 x 2 Ecus

No último dia 16, o Estádio Pedro Benedetti, em Mauá, foi palco da maior goleada da Segunda Divisão. O placar elástico virou até motivo de piada. "Dobramos a meta de Brasil x Alemanha'', brincou o clube em sua conta no Twitter em referência ao 7 x 1 sofrido pela seleção na Copa de 2014. Um dado curioso: para não perder de W.O. novamente, o Ecus entrou em campo com apenas oito jogadores. No banco de reservas, o Mauaense contou com a ajuda de um torcedor/massagista. Luiz Gustavo Folego é frequentador das arquibancadas do estádio e, na falta de um massagista, foi chamado pelo presidente do clube para fazer parte da equipe de apoio do time.

Grêmio Prudente 10 x 0 Osvaldo Cruz

Com vários meses de salários atrasados, os jogadores do Osvaldo Cruz abandonaram o clube no meio do campeonato. A diretoria, então, resolveu levar a campo no último 16 o time Sub-17. Os garotos tiveram dupla jornada porque continuaram defendendo o clube no campeonato estadual de base. O resultado não poderia ser outro: levaram dez gols do Prudente. 

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Almir Leite; Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2015 | 07h00

A Associação Desportiva Manthiqueira pode ser considerada um ponto fora da curva na Segunda Divisão paulista. Clube-empresa de Guaratinguetá fundado por um filósofo, tem estrutura simples, mas dispõe até de CT próprio. O time é treinado desde 2012 por uma mulher, Nilmara Alves, e defende princípios poucos comuns no futebol brasileiro. Um exemplo é o fair play. Os jogadores têm de seguir uma cartilha que prega o jogo limpo e condena a malandragem. Simular faltas e ludibriar o juiz é proibido.

"Nosso lema é: não faça com os outros (times) o que não gostaria que fizessem com a gente'', diz o presidente Geraldo de Oliveira, o Dado. Suboficial da reserva da aeronáutica, ele criou o Manthiqueira em 2004, mas só seis anos depois conseguiu o dinheiro necessário para filiá-lo à Federação Paulista. Mas sempre adotou a filosofia do fair play - aliás, é filósofo formado por uma universidade de Lorena.

No ano passado, Dado, inclusive, não renovou o contrato de Lázaro, então a estrela do time, pois o jogador, numa entrevista, disse que se tivesse que cair na área para cavar um pênalti, cairia. "Ele não assimilou o nosso jeito. Não vou dizer que não tenha (malandragem), pois o garoto aprende isso desde cedo. Mas a gente gosta de um futebol bem jogado, com arte, honestidade, evitando o antijogo. E, de modo geral, nossos atletas assimilam bem essa filosofia."

Fã do carrossel holandês de 1974 - laranja é a cor oficial do clube -, Dado nem pensa em trocar Nilmara Alves por outro treinador. "Ela é respeitada em todos os lugares. E trabalha do jeito que entendemos ser o melhor. É tranquila. Não gosto de treinador que fica cantando jogada, fica gritando."

O Manthiqueira tem gasto mensal de cerca de R$ 60 mil e os jogadores, em geral, ganham pouco mais de um salário mínimo. O clube sonha em subir para a Série A-3. "Hoje a gente é um time que joga bonito, usa o fair play, mas que ainda não ganhou nada. No futebol é preciso ganhar"’, reconhece Dado.

O time estreou na segunda fase na manhã do último domingo. Fora de casa, ficou no 0 a 0 com o Lemense.

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Luiz Alexandre Souza Ventura, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2015 | 07h00

Muitas histórias podem ser contadas em 90 minutos. Casos pitorescos fazem parte da trajetória de todos os times  de futebol, de qualquer tamanho, e alimentam a paixão em torno do esporte mais popular do País. Na Quarta Divisão do Campeonato Paulista, os "causos" que atravessam gerações e mantêm viva a memória das equipes, revelam um amor fiel, incondicional e inabalável pelo "time do coração". 

Na partida realizada às 10h do último domingo no Estádio Espanha, no bairro da Caneleira, em Santos, litoral sul de São Paulo, pela segunda fase da competição, aproximadamente 300 torcedores compareceram para ver o Jabaquara - dono da casa - empatar por 0 a 0 com o time de Taboão da Serra.

Antes do jogo, tudo corre conforme o figurino, praticamente igual a qualquer partida da série A. As equipes  fazem o reconhecimento do gramado, que está em bom estado, e partem para o aquecimento. A primeira diferença é notada na arquibancada, ainda vazia e silenciosa. Torcedores vão chegando aos poucos, com calma, encontrando  amigos, trocando abraços e perguntando sobre conhecidos ausentes. É quase um encontro familiar.

No campo, os jogadores voltam aos vestiários e, minutos depois, entram novamente, enfileirados e uniformizados,  enquanto as escalações são anunciadas no alto-falante, equipamento que também alerta o dono de um veículo  estacionado em frente ao estádio que o vidro do carro está aberto.

O Espanha tem capacidade para pouco mais de oito mil pessoas e, segundo funcionários, neste ano, com o bom  desempenho do Jabaquara no campeonato - o time está na segunda colocação -, chegou e receber dois mil torcedores  em um único dia. A quantidade de frequentadores é, certamente, uma grande fonte de histórias. "Nosso estádio é o  maior do mundo. Sabe por quê?", pergunta o barbeiro Hilário Garcia Carvalho, de 81 anos, considerado o  torcedor-símbolo do Jabuca. "É o maior do mundo porque nunca enche'', diz, sorrindo.

Após a execução do Hino Nacional, o juiz dá o apito inicial. Os torcedores mais empolgados gritam orientações,  xingam, chamam jogadores pelo nome e vibram a cada lance. Enquanto isso, na mesma arquibancada, uma  particularidade. Dois cachorros correm entre as pessoas e não prestam qualquer atenção a chamados e assovios. Em  determinado momento, deitam onde há sombra e ficam observando a movimentação, sem ninguém para incomodá-los.

A frequência de moradores do bairro da Caneleira é fundamental para apoiar o time, na opinião do vendedor Wellington Aparecido, o "Muriçoca", que aproveita o movimento na porta do Espanha para oferecer espetinhos de  churrasco, antes e após o jogo. "O bairro acolhe o clube. E isso faz a diferença, mesmo com o ingresso caro (R$  20,00). Mas tem dias que eu chego aqui e nem espero o primeiro tempo acabar, porque não tem quase ninguém. Cheguei e ver jogos só com cinco torcedores", afirma.

Dentro do estádio, Hilário Jabuca conta mais uma história. "Em uma partida contra o time de Guarujá, eu cheguei  aqui um pouco mais cedo e não havia ninguém. Chovia muito e, conforme o tempo passava, percebi que seria o único  torcedor presente. Um pouco antes do jogo começar, fui até a bilheteria e comprei outro ingresso. O bilheteiro  me perguntou: 'Para quem é esse ingresso'. E respondi que era para eu não ficar sozinho", sorri mais uma vez o  barbeiro.

Ele recorda outra história que viveu "graças'' ao Jabuca. "Houve uma vez que fui a Presidente Prudente (no interior de SP) e não havia nenhum torcedor do Jabaquara. Então, eu falei com uns rapazes que encontrei por lá, e perguntei se eles topariam entrar no estádio  para torcer pelo Jabuca. Em troca, eu compraria duas garrafas de cachaça. Os rapazes aceitaram e fizeram uma  baita festa", lembra.

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