Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Parreira adota 'Fred' para fazer atacante evoluir dentro da seleção brasileira

Coordenador técnico vê jogador como peça fundamental taticamente e para o astral do grupo

Luiz Antônio Prósperi, enviado especial, O Estado de S. Paulo

30 de maio de 2014 | 07h00

TERESÓPOLIS - Carlos Alberto Parreira resolveu "adotar" Fred nesses dias de preparação da seleção na Granja Comary. Aos 71 anos, com vasta quilometragem em Copas do Mundo, o coordenador técnico tem se dedicado a dar conselhos ao atacante e ouvir dele as reações do grupo de jogadores. Parreira entende que para Neymar brilhar e, por tabela a seleção, Fred é vital.

Um exemplo de dedicação do coordenador ao atacante se viu na segunda-feira. Sentado no banco da comissão técnica, à beira do campo na Granja, Parreira esperou por Fred com a paciência de um monge até o jogador se sentar ao seu lado após o primeiro treino com bola da seleção em Teresópolis.

Conversaram por uns dez minutos, sempre com Parreira apontando a zona da grande área do campo, habitat natural de Fred. À distância não foi possível perceber o teor das observações do coordenador ao jogador. Mas, no dia anterior, Parreira já havia indicado qual a sua preocupação com o atacante.

"Conversei com o Fred e pedi para se movimentar mais, sair da área. Lá dentro, ele é presa fácil e prejudica o Neymar, não abre espaço", disse Parreira. "Nos últimos jogos do Fluminense, o Fred ficou muito preso na grande área. Aqui, na seleção, ele tem de se movimentar."

Na lógica do coordenador, o atacante tem de se coçar, distrair os defensores e abrir o território para Neymar transitar. É uma das armas da seleção. Fred, é claro, aceitou as ponderações de Parreira. Na Copa das Confederações no ano passado, o atacante já havia agradecido ao conselheiro.

"Para mim ele (Parreira) é fundamental. Ele conversou comigo antes do jogo contra a Itália (vitória do Brasil por 4 a 2). Como nosso time é rápido, tem muita movimentação, eu mudei um pouco jeito de jogar e caí pelos lados por causa da orientação dele. É um cara que ajuda muito a gente", diz Fred.

Difícil entender como um profissional da estirpe de Parreira, quase um lorde, pode se entender com um jogador adepto do mais puro figurino da 'malandragem carioca. Em nome do hexa, a comunhão parece perfeita até aqui.

A admiração por Fred vem desde a Copa do Mundo de 2006. Destaque do Cruzeiro, após ser revelado pelo América-MG, o atacante estava no Lyon quando foi convocado por Parreira para ser reserva de Ronaldo na Alemanha. Voltaram a se encontrar em 2009, no combalido Fluminense. Apesar da confiança no atacante, Parreira não conseguiu tirar o time carioca do buraco e pediu o boné.

A VOLTA

Cansado da rotina de técnico de clube, o treinador aposentou a prancheta em 2010 e ficou esquecido até ser chamado pela CBF, em novembro de 2012, para compor o comando da seleção ao lado de Felipão.

Na primeira convocação feita pela nova dupla de comandantes, para o amistoso contra Inglaterra, Fred apareceu na lista na reserva de Luis Fabiano. Ele entrou no segundo tempo e, aos 3 minutos, fez o gol de empate (o Brasil perdeu por 2 a 1). Dali para a frente virou figurinha carimbada nas convocações. Antes, era preterido por Mano Menezes, técnico da seleção entre 2010 e 2012.

Peça importante na conquista da Copa das Confederações, Fred ganhou status de um dos líderes do novo grupo da seleção. Não por acaso, passou a ser monitorado por Carlos Alberto Parreira. Ao acompanhar o atacante no seu dia a dia no Fluminense, o coordenador da seleção ficou preocupado com a série de lesões sofridas pelo jogador nos últimos meses de 2013 e os primeiros de 2014. E ainda mais quando o atacante comprou briga com as torcidas organizadas. Parreira só se tranquilizou quando teve a certeza de que Fred havia se recuperado das lesões e poderia jogar a Copa.

O coordenador tratou de dar importância ainda maior ao atacante ao mostrar que ele deveria se sacrificar um pouco mais para deixar o trânsito livre para Neymar passar. Incentivou os dois a formar uma parceria dentro e fora de campo. Na prática, Fred, além das obrigações táticas, vai ser um interlocutor de Parreira e Felipão durante os jogos. Fora, tem apoio para descontrair o ambiente com sua irreverência e picardia.

O papel de Fred, líder sem ser capitão, é o mesmo que jogadores até mais discretos do que ele tiveram em outras Copas. Em 2002, Roque Júnior assumiu essa missão no Mundial. Questionado pela crítica, Roque virou titular da seleção e ganhou status de conselheiro de Felipão, que confiava nos conhecimentos táticos do zagueiro. Não por acaso, Roque foi convocado agora para ser observador da comissão técnica para analisar os adversários do Brasil na Copa.

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