Parreira aponta os caminhos para País

Carlos Alberto Parreira pode ser definido com uma palavra em moda nos dias de hoje: globalizado. Em mais de 20 anos de carreira, o treinador tem um currículo invejável e diversificado. O feito mais conhecido é a conquista do tetracampeonato mundial de futebol com a seleção brasileira, em 1994, mas Parreira acumula experiência em outras equipes nacionais - Gana, Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos -, fora as passagens pelo futebol da Turquia e dos Estados Unidos. Na Copa da Coréia do Sul e Japão, Parreira teve uma missão diferente. A convite da Fifa, foi observador da competição. Com o fim do Mundial, começaram os rumores que o colocavam ora em uma seleção, ora em outra. Na semana passada, jornais portugueses publicaram que ele seria um dos preferidos para assumir a vaga de Antônio Oliveira. Esta semana, foi a vez de o secretário da Federação da Nigéria, Taiwo Ogunjobi, divulgar que o técnico teria mostrado interesse em trabalhar com a equipe do país. Tudo foi desmentido. De volta ao Brasil, Parreira reuniu-se ao Corinthians, no Pará, onde o time paulista disputa a Copa dos Campeões. Em Belém, o técnico fala do significado do pentacampeonato, da situação de penúria do futebol brasileiro, da busca de opções para sair da crise e do que significaria para o Corinthians a saída de Ricardinho. Agência Estado - Mais uma vez, seu nome é citado para assumir o comando de seleções que trocaram de técnico após a Copa. O pentacampeonato tem alguma influência nisso? Parreira - A conquista do pentacampeonato foi excelente para o futebol brasileiro, pois nos consolidamos como os melhores do mundo. Desde o título de 94, nos Estados Unidos, estamos sempre nas decisões. Fomos vice-campeões na França e campeões agora, na Ásia. Isso tudo abre um mercado excepcional para os jogadores e os técnicos brasileiros. Começam a aparecer convites, nomes, possibilidades, mas nada de concreto, só especulações. Nem eu estou preocupado. Já trabalhei com cinco seleções, já fiquei por muito tempo no exterior. Para sair de novo, teria de ser por alguma coisa excepcional em termos de trabalho. AE - E quanto aos jogadores? O próprio Ricardinho falou de uma série de situações que estão sendo avaliadas. Parreira - Desde o começo do ano me dizem que o Ricardinho está para sair. Sei que existe uma promessa do Corinthians no sentido de, quando houver de fato uma negociação, não pôr nenhum empecilho. O Ricardinho já disputou 250 jogos pelo Corinthians, já ajudou a dar ao clube muitos títulos. Se amanhã sair alguma coisa, que o Corinthians facilite a negociação. Seria uma espécie de prêmio. Mas eu quero que o Ricardinho continue no clube. Ele já provou que é importantíssimo para a equipe, não será fácil encontrar outro jogador com as mesmas características. Mas se ele sair, vamos ter de enfrentar a situação e encontrar uma solução. AE - Você disse que a expectativa para o segundo semestre é de progresso no desempenho do Corinthians em relação ao primeiro semestre, que já foi vitorioso com a conquista do Torneio Rio-São Paulo e da Copa do Brasil. O projeto fica comprometido com uma possível ausência de Ricardinho? Parreira - Fica. Ele é o maestro do meio-do-campo, é quem dá a cadência, o ritmo, quem organiza o time. Temos bons jogadores, como o Renato, e outros, como o Moreno, que estão começando e ainda não têm a experiência, a liderança do Ricardinho para dar uma encorpada no time. É evidente que o progresso passa pela presença dele e também do Vampeta, jogadores campeões do mundo, que, com certeza, dão grande dimensão à equipe. AE - Em termos de investimentos, o futebol brasileiro deve se beneficiar com a conquista da Copa, mas é difícil voltar a ter grandes patrocinadores, como a Parmalat e a própria Hicks Muse. Em termos de Corinthians, o que você acha que poderá acontecer? Com a desvalorização cada vez maior do real em relação do dólar ficará mais fácil para os clubes europeus levarem os jogadores brasileiros? Parreira - A saída de jogadores não me preocupa muito. A grande vantagem do Brasil é que você não forma jogador em laboratório, mas de uma maneira bastante natural. Então, sempre vamos ter bons jogadores, para os clubes e para a seleção. Você perde ídolos, é verdade, e é importante ter ídolos aqui, pois servem de referência para o futebol brasileiro e para os jogadores jovens, que querem se espelhar em alguém de sucesso. Com relação ao futuro, não vejo soluções a curto prazo. O título mundial trouxe um grande otimismo e esperamos que muitas empresas voltem ou comecem a investir, mas nada vai ocorrer tão rápido. O Flamengo, por exemplo, deve R$ 200 milhões. É coisa que vai levar 20 ou 30 anos para resolver. Continuar exportando jogador será a maneira mais fácil de os clubes fazerem caixa. AE - Esse é o caminho da sobrevivência dos clubes brasileiros? Parreira - Acho que precisamos encontrar caminhos para obter receita. Existem os direitos de TV, mas não podemos contar só com isso. Temos de criar receitas, seja com ingresso, motivando o público a ir aos estádios, seja com contratos de publicidade, o marketing, a venda de produtos. O Manchester e o Barcelona faturam US$ 30 milhões por ano com a venda de produtos: camisas, chaveiros, bolas, chuteiras, canetas, escudos... Temos de criar esse marketing no Brasil, temos de fazer essa coisa que a gente não faz. Para não viver esperando só o dinheiro da TV e da venda de jogador. Temos de criar mecanismos para conseguir cobrir a despesa no fim do mês. AE - Por onde começar a mudança? Parreira - Ela passa pelo calendário racional, temos um excesso de competições no Brasil. De repente, você sai de uma Copa do Mundo e, três dias depois, junta as 16 melhores equipes do Brasil numa competição, sendo que, daqui a um mês, os times vão se encontrar de novo no Campeonato Brasileiro. Faz sentido isso? Não faz. Sem falar no horário dos jogos. Aqui em Belém, por exemplo, jogar às 16 horas, sob um calor de 35 graus, é um desgaste enorme. Mas aí entram os interesses da televisão e pronto: que se dane o espetáculo, que se danem os jogadores, que se dane tudo. É um crime pôr alguém para jogar às 16 horas, com esse calor, e querer um futebol de alto nível. AE - É possível o futebol sobreviver só com a receita que vem do torcedor, da bilheteria? Parreira - Não. Nosso futebol é muito pobre, o Brasil é pobre, e os ingressos não podem custar caro. Na Copa do Mundo, tínhamos bilhetes a US$ 750,00. Na Europa, custam US$ 50,00, US$ 100,00. Aqui, um ingresso de R$ 5,00, R$ 10,00 é caro. E tome jogo domingo, quarta, três vezes por semana, oito vezes por mês para acompanhar. E o torcedor não vai sozinho ao estádio. Vai com um amigo, com os filhos, compra um sanduíche, um refrigerante. O povo não tem condições de acompanhar o futebol e a gente não tem como esperar ter receita. Os custos dos jogos no Morumbi, no Maracanã, no Mineirão, no Beira Rio são altíssimos. O clube leva 33% da renda líquida, o restante fica com o gerenciamento do estádio. Não vamos poder sobreviver das receitas de torcedor. Teremos de buscar outras fontes e adaptar os salários à realidade. AE - E as empresas? Parreira - Temos de esperar que as empresas comecem a ver o futebol como algo que pode dar retorno. Elas estão investindo no futebol pentacampeão do mundo, isso é que é importante. AE - Recentemente, você disse que não é possível trabalhar num clube exigindo esse ou aquele jogador. É preciso trabalhar com o material que se tem... Parreira - Foi o que aconteceu no início da temporada, no Corinthians. Saiu o Marcelinho, saiu o Luizão, saiu o Luís Mário e continuamos trabalhando. O Corinthians tem um bom elenco, bons jogadores. O treinador não pode ficar preocupado com quem não vem ou se não tem reforços. Isso não preocupa. É evidente que eu quero contar com 11 jogadores de seleção. Mas se não me derem esses jogadores não vou ficar me lamentando, porque sei que os que estão ali, no Corinthians, são todos bons profissionais e querem um lugar ao sol.

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