Arte/Estadão
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Parreira: ‘O calendário do futebol brasileiro é o nosso calcanhar de Aquiles’

Para a série FUTEBOL EM DEBATE, o técnico tetracampeão do mundo diz que há muitos jogos e muitas competições no País para poucas datas

João Prata, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2019 | 04h30

Carlos Alberto Parreira foi técnico em Copas do Mundo por cinco seleções diferentes: Arábia Saudita, Brasil, Emirados Árabes, Kuwait e África do Sul. Comandou grandes clubes do futebol brasileiro como Corinthians, São Paulo, Santos, Internacional, Fluminense e Atlético-MG. Passou pelo futebol europeu ao dirigir o Valencia, na Espanha, e o Fenerbahce, na Turquia. E levantou troféus dos mais variados tipos: foi campeão brasileiro, da Copa do Brasil, estaduais, levantou taças na Ásia, e claro, conquistou a Copa América, Copa das Confederações e o tetra mundial em 1994 pela seleção brasileira. 

Com experiência de viver o futebol profissionalmente há mais de 50 anos, Parreira conversou com o Estado para a série Futebol em Debate e analisou a crise do futebol brasileiro. Ele acha que o País precisa “se preocupar mais com o jogo, deixar a bola correr” e parar com o ‘cai-cai’, a reclamação com o juiz, a malandragem de ganhar na conversa. Para ele, o Brasil não pode perder a essência de ter a posse de bola e de buscar a jogada individual, mas tem que dar mais fluidez às partidas. 

O País do Futebol, no entanto, não precisa se desesperar. Na opinião do técnico do tetra, para quase tudo há solução. Na seleção brasileira é preciso ter só mais um pouco de paciência com o processo de renovação do Tite, porque a safra é boa e a mescla com jogadores experientes é o mais importante. O único problema que para ele não tem solução é o calendário do nosso futebol: “É o nosso calcanhar de Aquiles o calendário. É muito jogo, muita competição para poucas datas”. 

A entrevista pode ser ouvida em podcast. Basta acessar os canais de distribuição, como a Deezer e Spotify, e baixar o aplicativo no seu computador ou celular. O conteúdo é publicado no canal Estadão Esporte Clube. O Estado se propõe a discutir a qualidade do futebol brasileiro ouvindo personalidades do País, como jogadores, ex-jogadores e técnicos. 

Como você vê o atual momento do futebol brasileiro?

Falar do futebol brasileiro, como vivemos em um país continental, é muito complicado. A qualidade do futebol brasileiro é concentrada sempre nos grandes centros: Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Minas... Essa é a essência. E mesmo nesse centro é reservado a poucos clubes, né? O Flamengo tem uma gestão profissional muito boa, teve poder de investimento montou um grande time. Os outros sofrem porque quando aparece jogador muito bom vende rapidamente. Há instabilidade, despesas muito grandes... Em São Paulo é um pouco mais sólido porque o Estado é o grande motor da economia. Isso se reflete nas equipes que são melhor montadas. O Cruzeiro também está com bom poder de investimento. Os times, de modo geral, apostam nos jogadores jovens, que ganham experiência e vão se formando dentro da competição.

Estamos em crise?

Talvez a crise seja no lado financeiro porque as despesas são grandes e as receitas diminuídas. Estava vendo Juventus e Ajax (pela Liga dos Campeões). A velocidade do jogo, a intensidade foram impressionantes até os últimos minutos, foi assim o jogo inteiro. Que velocidade, que intensidade, que qualidade. Nosso futebol é diferente. A gente fica mais com a bola, gosta mais do drible, não tem tanta velocidade. 

Você vê semelhanças entre o futebol europeu e o brasileiro?

A formação das equipes é praticamente a mesma. O Ajax (contra a Juventus) jogou no 4-4-2, depois mudou para o 4-3-3. Os times variam muito, mas de um modo geral é essa linha de quatro e outra no meio, que pode variar para três. Essa variação encontra no nosso futebol.

O que precisa ser melhorado no futebol brasileiro?

A gente podia ter o ritmo um pouquinho mais forte, sem perder a característica principal que é a individualidade, que é o poder de improvisação. Lógico que a gente nunca vai copiar, mas poderia jogar um pouco mais com fluidez. A gente tem ficado muito pouco com a bola, a tão chamada posse de bola. As equipes não tem ficado com a bola para se impor tecnicamente.

O Corinthians é o principal exemplo disso?

O Corinthians se defende muito bem, mas ainda não fica com a bola como a gente acha que poderia ficar. O Flamengo e o Palmeiras são um pouco mais diferenciados.

Como mudar isso?

Uma coisa que vejo muito diferente quando vejo um jogo da Europa é que aqui é muito ‘cai cai’, toda hora o jogo é interrompido, reclamam do juiz. Tinha de ter mais fluidez para jogo render mais, correr mais. Se consome muito tempo do jogo em jogada de bola parada, jogador sendo atendido, jogador reclamando, cercam o juiz... essas coisas a gente não vê lá fora. Isso dava para melhorar mesmo. Se preocupar mais com o jogo, deixar a bola correr, e a nossa característica de ficar mais com a bola. Não como era a antiga posse do Barcelona com o Guardiola, que dava 800 passes em um jogo, mas ficar mais com ela. Você se impõe ficando com a bola. O Manchester City faz isso, fica com 75% da posse. O Ajax também vem fazendo isso de maneira técnica e tática, saindo para o jogo. Fluidez.

O calendário brasileiro também atrapalha?

O calendário também é muito complicado. Aqui acontecem três competições ao mesmo tempo: campeonatos regionais, Copa Sul-Americana ou Libertadores e Copa do Brasil. Não há quem resista. É muito jogo para pouca data. Não somos iguais na Europa. Já viajei muito por lá. Assisti Olimpíada, Copa do Mundo. Fui em 2012 acompanhar a Olimpíada. Fui ao País de Gales, Escócia e não precisa pegar avião. Ia de ônibus ou de trem, viagens confortabilíssimas, em duas três horas você atravessa o país. É muito fácil. Aqui fui fazer palestra em Porto Seguro a uma da tarde e tive de acordar as quatro da manhã, pegar avião às 7h, fazer transfer em São Paulo para chegar lá ao meio dia. É diferente. Aqui você joga na quarta, depois vai para o Chile, Uruguai, Argentina, Colômbia, é desgastante. Isso obriga os clubes terem elencos muito grandes, gastar fortuna muito grande. 

Você vê alguma solução para o problema do calendário?

Participei de uma comissão tempos atrás com o falecido Carlos Alberto Torres, o Ricardo Rocha e muitos outros dirigentes durante três meses. É impossível mudar o calendário. É o nosso calcanhar de Aquiles o calendário. É muito jogo, muita competição para poucas datas. Até citava nas reuniões, tem três fatores que são os pilares disso aí: técnico, financeiro e político. Conciliar os três é tarefa para gênio, quem conseguir conciliar isso resolve o problema. Quando você privilegia o técnico é evidente que vai perder o político e financeiro. Quando você privilegia o político, a mesma coisa. É complicadíssimo. Os clubes grandes que participam com mais intensidade é terrível. E os menores, em determinado momento do ano, ficam sem jogar.

A seleção brasileira perdeu sua identidade?

Não acho. Desde a minha época, nos anos 70 quando trabalhei pela primeira vez na seleção brasileira, a gente tinha só um jogador no exterior e nem era convocado. A partir de 74 começou mais. Depois, fui técnico em 83, 94 e 2006. A gente percebe. Eles vão para fora, crescem profissionalmente, aprendem a jogar em equipe, aprendem a marcar, ganham outra disciplina tática, mas quando eles voltam para jogar na seleção continuam sendo brasileiros, gostam do toque, gostam de ficar com a bola. É que a dificuldade é muito grande mesmo. O treinador da seleção, hoje é o Tite, pega os caras, tem dois dias para treinar e vai para o jogo. O adversário está sempre motivado com a seleção. E tem outro problema, ter de vir para a América do Sul é complicado. Pós Copa do Mundo é outra realidade. O Tite está testando jogadores. Alguns jogadores que estão aí possivelmente por causa da idade vão ter de encontrar substitutos. E os novos, para saber se serve ou se não serve, têm de colocar para jogar.

Como você vê a nova geração do futebol brasileiro?

É sempre boa. Não dá para negar o valor de um Rodrygo, um Vinicius Junior, um Paquetá. Tem David Neres, do Ajax, o Gabriel Jesus... é uma safra boa. Agora tem que ver até onde vão maturar o suficiente. A Copa está aí em cima. O período é curto. Eles não ficam dedicados somente à seleção. Essa fórmula... não estou descobrindo a pólvora, mas todo time campeão do mundo tem sempre uma mescla de jogadores experientes com jogadores jovens. Não podemos ir só para Copa com jogadores novos. Tem de fazer a mescla e o Tite vai conseguir chegar lá. O importante agora é concentrar para a Copa América e torcer para vencer em casa. Não tem obrigação, mas tem oportunidade enorme para vencer em casa.

Você foi muito criticado em 1994 pela postura tática da seleção. Como você vê hoje essas críticas?

Em julho vai fazer 25 anos da conquista. A gente sente nas pessoas, viajo muito pelo Brasil, não estão preocupados se foi isso ou aquilo, estão felizes por ter ganhado. Outro dia fui cumprimentado por uma pessoa que disse: 'Muito obrigado, foi o meu primeiro grito de campeão com o Brasil. Houve um erro de avaliação muito grande. Seus colegas de imprensa dizem que foi defensiva. Essa palavra não existe. Defender e atacar são dois termos do futebol que quem quer ser campeão tem de dominar. Isso foi desde o início da criação do futebol, é atualmente e vai continuar sendo daqui a cem anos. Futebol se resume a duas ações: defender e atacar. Se não tem a bola defende. A seleção de 94 não foi defensiva, muito pelo contrário. Ela foi organizada. Quando é organizado se defende melhor. A gente ocupava bem os espaços. Tinha dois atacantes e duas linhas de quatro marcando por zona, característica do futebol brasileiro, e quando tinha a bola tocava, quando dava para jogar em velocidade jogava. Os laterais avançavam, eram ofensivos. Tinha equilíbrio muito grande. Mas criticaram tanto que depois que ganhou teve gente que não sabia o que falar: "ganhou mas jogou feio". Não sabiam nem como explicar. O time tomou três gols em sete jogos. Não foi nunca defensivo. Tem muita gente que ainda não entendeu a diferença entre ser organizado e ser defensivo. Por ser bem organizado se defendia bem. Estou dizendo o que sinto até hoje. 

O Tite sofre críticas semelhantes?

Nunca um treinador chegou a uma Copa do Mundo com tanto apoio da imprensa e de torcedores. E nunca um treinador foi pedido pós Copa do Mundo para que continuasse. Foi quase uma imposição de que o trabalho tinha sido bom e deveria continuar. As críticas nessa fase de renovação é evidente que não vai jogar no melhor nível agora. A camisa pesa. Não tem jeito, é muita pressão. Ainda mais depois de derrota na Copa do Mundo. O jogador precisa de tempo para maturar. Comentei com o Tite em outra ocasião que esses jogadores que estão chegando agora a gente não sabe se estará pronto para a Copa de 2022. É um tiro no escuro. Todos são ótimos e têm potencial, mas quem estará pronto a gente não sabe. Dou exemplo do time de 94. O Bebeto, Taffarel, Dunga e Jorginho foram campeões sub 20 em 84. Dez anos depois foram campeões do mundo. Olha só o processo. Jogadores de 17 e 18 anos tão tendo oportunidade mas não dá para dizer quem vai chegar lá. Vai depender de muitos fatores. O ideal é essa mescla de jovens e veteranos.

O Tite é o técnico ideal para o momento?

Tem de ter continuidade. Não pode ficar trocando em função de resultado. Aí vem um cara com ideias totalmente diferentes. Já foram dois anos, tem de continuar. A Copa acontece de jogar bem, jogar mal, ser eliminado. O Brasil perdeu nas quartas para a Bélgica, que jogou muito bem no primeiro tempo. O Brasil reagiu no segundo tempo e podia ter virado, mas fica o resultado. Isso tem peso muito grande. O bacana é que houve quase unanimidade pedindo para ele ficar. Acho que foi muito bem equacionado.

Como lidar com o Neymar?

O Neymar tem muita personalidade e tudo o que ele faz cresce em progressão geométrica. Impressionante. Quando trabalhei com ele na seleção, na primeira copa do mundo dele, ele se comportou muito bem. Fez dois ou três gols. Foi uma pena sair daquela maneira, sem dúvida alguma fez falta. Ele tem muita personalidade. O Tite e o Edu estão felizes com Neymar, não reclamam do comportamento dele. Ninguém tem dúvida que ele tem a liderança técnica. Mas para comandar o time, como era o Gerson e o Carlos Alberto, já é outro tipo de liderança. Ele é o nosso grande nome e vai ser muito importante.

Na sua opinião então ele não deveria ser o capitão do time?

Não sei. A liderança técnica é dele, mas a de comandar o time... o Tite concentrou no Neymar, mas é definição do Tite. O Pelé nunca foi capitão, mas todo mundo respeitava ele como se fosse. Ele abria boca e todo mundo dizia amém. O Neymar para liderar a seleção não precisa ser capitão. Ele é muito ouvido.

Como imagina a seleção para Copa de 2022?

Não sei. A gente tem de se concentrar na Copa América e projetar a eliminatória. o time começa a ser formado na eliminatória. A eliminatória é muito boa para isso. jogar com a Argentina fora, o Uruguai são verdadeiras batalhas. Já participei de duas e sei como é difícil. E isso ajuda para você conhecer o jogador que tem: quem corresponde e quem não. Quem tira de letra a pressão, quem sente. O time de 2022 é difícil de fazer previsão. Está tudo em aberto. O Tite está dando as oportunidades e cabe a cada um aproveitá-las.

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