Paulo Pinto/Estadão - 03/11/2004
Paulo Pinto/Estadão - 03/11/2004

Partida marcada pela morte de Serginho foi reiniciada 7 dias depois

Jogadores que assistiram à morte do zagueiro do São Caetano entraram em campo e disputaram os 31 minutos restantes do jogo

Ciro Campo e Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 07h00

Uma semana depois da tragédia com Serginho, os jogadores precisaram voltar ao Morumbi no mesmo horário da partida disputada no dia 27 de outubro. Os 21 atletas que viram de perto a morte do zagueiro do São Caetano entraram em campo e disputaram o restante do confronto válido pela 37.ª rodada do Campeonato Brasileiro, conforme determinou a CBF.

Muitos companheiros de Serginho, entretanto, não queriam entrar em campo naquela noite. "A maioria foi contra. Não tínhamos condições emocionais de jogar, não era um ambiente ideal. Teve jogador que pediu para não atuar. Fomos obrigados, pois poderíamos perder mais pontos na temporada", relembra Dininho, que jogou dois anos ao lado de Serginho na zaga do time paulista.

Segundo o técnico Péricles Chamusca, que estava à frente do São Caetano à época, a comissão técnica montou uma estratégia para tentar amenizar a situação em relação às lembranças da tragédia. "Trocamos o hotel da concentração, chegamos mais em cima para hora do jogo do que o normal e subimos mais cedo para aquecer no campo", disse.

Um fato, contudo, acabou prejudicando os jogadores: o São Paulo fez uma homenagem para o zagueiro, colocando uma música no momento em que os atletas subiram ao gramado. "Desmoronou todo o emocional do nosso time e tudo o que havia sido trabalhado", afirmou.


Dininho era um dos mais emocionados naquele dia. De acordo com o ex-jogador, a cena de Serginho caído na grande área o perseguiu durante os 31 minutos. "Via aquela imagem, aquele desespero. Foi uma atitude insensível. Poderia ter sido um pouco mais para frente", ressalta. Anderson Lima, um dos primeiros jogadores a pedir ajuda no dia da morte, também era contra a continuação da partida. O ex-lateral conta que o time do São Caetano honrou Serginho ao não desistir de jogar as outras partidas do ano. "Foi absurdo. Jogamos o restante do campeonato para honrá-lo."

O árbitro Cleber Wellington Abade, por sua vez, precisou recorrer à experiência para apitar os lances finais da partida. "Trouxe lembranças do fato, mas a função de árbitro exige que se tenha um preparo psicológico para tomada de decisões em ambientes anormais", explica. De acordo com ele, não havia embasamento jurídico para encerramento da partida, pois o regulamento da competição determinava que um jogo suspenso antes dos 75 minutos deveria ter sua continuidade para completar os 90 minutos.

O jogo foi reiniciado com um tiro de meta cobrado por Silvio Luiz, exatamente no ponto onde Serginho teve a parada cardíaca. Jonas, lateral-esquerdo que hoje defende o Atlético-GO, entrou no lugar de Serginho. Em 31 minutos, o São Paulo fez 4 a 2 no abatido São Caetano. Ninguém, no entanto, comemorou a vitória são-paulina naquele noite de quarta-feira marcada por lembranças ruins.

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