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Ugo Giorgetti
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Pasárgada

Fortaleza, capital do Ceará, é o lugar mais fascinante do mapa do futebol brasileiro nos dias atuais

O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2018 | 04h00

No meio de dramas, crimes, incêndios e incertezas, futebol poderia ser uma região de escape, de fuga em direção de um pouco de diversão e alegria. De fato é, mas não em São Paulo, pelo menos para mim. Estou um pouco cansado das mesmas notícias sobre clubes locais, um pouco exausto de saber coisas sobre “os quatro grandes”, suas torcidas de telão que mostram sempre as mesmas emoções automatizadas e os mesmos cantos, repetidos a um ponto quase inaguentável.

Minha ideia de futebol feliz vem de Fortaleza. Tenho seguido o Ceará ultimamente talvez, em primeiro lugar, pelo fascínio que exercem sobre minha imaginação carreiras como a de seu treinador o famoso Lisca. A mim, quanto mais um homem é imprevisível, mais me interessa, isto é, quando não faz sempre o que se espera dele, quando não tem medo de mostrar quem é, mesmo que essa imagem não corresponda ao que a época espera dele.

Lisca é um desses personagens, esses andarilhos que não se fixam em clube algum, mas deixam sua marca em todos. Nesse momento ele procura tirar o Ceará das últimas colocações do Brasileiro. Ultimamente vi duas partidas que me fizeram acreditar ser bem possível que o Ceará caminhe em direção de uma situação muito mais confortável rapidamente. Suas últimas vitórias, uma delas inesperada, diante do Flamengo em pleno Maracanã lotado, outra previsível, diante do Corinthians numa Fortaleza já devidamente incendiada pela vitória anterior no Rio.

Vi em primeiro lugar um time organizado, seguro taticamente sem nada a dever a outros clubes com técnicos que não são considerados folclóricos ou loucos como o Lisca. Mesmo atuando com cautela no Rio, nunca abriu mão de jogar e mostrar ao adversário que não estava ali a passeio. Enfim, um time surpreendente para mim que me mostrou os benefícios do equilíbrio entre as equipes no futebol brasileiro. A mediocridade, a escassez de grandes craques que desequilibram, de fato introduziu no campeonato uma igualdade que faz de quase todos os jogos partidas parelhas e, nesse sentido, interessantes.

No jogo contra o Corinthians o que mais me encantou do Ceará foi a torcida. Alucinada, desorganizada, eufórica de uma euforia explosiva, de fato, uma comunhão de todos no estádio. E com a torcida vibrava Lisca, ele mesmo tomado de uma loucura de torcedor. É impressionante como as torcidas em certos locais do Brasil ainda mantém um jeito ao mesmo tempo ingênuo e enlouquecido de torcer.

Tinha já notado isso há alguns anos com a torcida pernambucana do Santa Cruz, agora encontro de novo no Ceará. Essas torcidas mostram, mais do que simples alegria ou orgulho pelos seus times, felicidade. Não tem medo nem vergonha de parecer felizes. Deve mesmo ter alguma coisa de especial nessa cidade de Fortaleza.

Outro dia vi uma entrevista com Rogério Ceni. Na minha vida já tinha visto pelo menos umas cem entrevistas com o antigo goleiro do São Paulo. E sempre senti que havia alguma coisa nele que não me agradava inteiramente. Parecia algo intolerante ou arrogante, sei lá. Mas nessa entrevista de menos de um mês atrás encontrei um Rogério inteiramente diferente. Relaxado, à vontade com antigos boleiros amigos num mesmo papo, sem distinção, sorridente e feliz.

Claro, deve-se em parte ao sucesso que está fazendo como treinador do Fortaleza, clube a ponto de subir para a Série A. Mas algo me diz também que ele intuiu que aquele lugar lhe faria bem. Hoje talvez seja possível entender como um astro como Rogério Ceni saiu do Sul para ser treinador em Fortaleza. Talvez estivesse à procura de alguma coisa que sabia estar lá. Enfim, para o futebol, Fortaleza é hoje o reino de Pasárgada, pra onde fugiu o poeta que queria ser feliz.

 

 

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