Passarella já está adaptado ao Brasil

Em 1998, a CBF escolheu a seleção da Argentina como última adversária do Brasil antes do embarque para a Copa da França. Daniel Passarella era o treinador argentino. Em pleno Maracanã, seu time conseguiu vencer por 1 a 0.Na ocasião, Passarella viu, assombrado, os torcedores cariocas xingarem Raí e Cafu e ainda acompanhou a campanha da imprensa para a demissão de Zagallo."Fiquei assustado e parei para pensar: deve ser muito difícil trabalhar como técnico no Brasil. Ninguém perdoa uma derrota. Iirônico que sete anos depois estou aqui trabalhando como treinador do Corinthians. Não tinha informação mais profunda sobre o futebol brasileiro. Cheguei virgem e estou gostando do que estou vendo", revelou o argentino.Agência Estado - A imprensa brasileira esperava que fosse impossível trabalhar com você por causa do seu autoritarismo. Informações da própria imprensa argentina.Daniel Passarella - Essa é a pergunta que mais estou tendo de responder. Trabalhei na Itália, no México, no Uruguai e no Brasil. Só tive problema com a imprensa argentina. Acho que está respondida a pergunta. Eu posso ter mudado, ter ficado mais calmo. Mas o fundamental é isso: vocês me respeitam, eu respeito vocês. Se não me respeitam, pode contar que não vou respeitar também.AE - Você ganhou fama mundial ao fechar os treinamentos e não dar entrevistas durante a Copa da França...Passarella - Fiz o que os meus jogadores queriam. Eles se sentiram desrespeitados e decidiram não dar mais entrevistas. Eu era o treinador deles. Fiquei do lado deles. Fiz o que achei certo, minha obrigação. Fiquei com o meu grupo. Sou assim.AE - Você já está se tornando um ídolo no Brasil. Não temos preconceitos com os argentinos...Passarella - Nem nós. O que acontece é que as pessoas têm uma idéia errada dos argentinos. Nós passamos uma imagem de arrogantes, mas não é nada disso. Somos muito sensíveis. Esse é o nosso ponto fraco. Só quem convive com um argentino pode avaliar. Estou adaptado e feliz no Corinthians.AE - E o que aconteceu com o jogador Desábato, do Quilmes?Passarella - Foi um exagero. Fizeram questão de mostrá-lo como se fosse um delinqüente, algemado. Mas vários traficantes são presos e vão tranqüilos para a cadeia sem serem humilhados. Ele poderia estar irritado com o Grafite, mas o peso na Argentina da palavra "negro" é outro. Eu não teria o menor problema em falar ao ver um gol sensacional do Ronaldo: ?Que gol marcou esse negro!? Sem o menor preconceito. Vamos parar com essa história. Não haverá guerra entre Brasil e Argentina.AE - Você vê riscos na partida entre Brasil e Argentina em Buenos Aires por causa desse incidente?Passarella - Absolutamente. Os brasileiros podem ir tranqüilos para jogar futebol. O que aconteceu foi um caso à parte. E quero falar mais. Podem perguntar para qualquer treinador argentino: se ele tivesse a chance de escolher cinco jogadores do mundo inteiro para ganhar um jogo, qualquer um escolheria três brasileiros. Sem essa idiotice de preconceito. O argentino é um admirador do futebol brasileiro. Silencioso, mas admirador.AE - Quem você escolheria para ganhar qualquer partida?Passarella - Sem pensar: os meus três brasileiros seriam o Ronaldo, o Ronaldinho Gaúcho e o Adriano. Com qualquer um deles eu venço uma partida.AE - Como está sendo sua vida no Brasil? O que faz para se distrair?Passarella - Gosto de cinema, mas não tenho tido tempo para ir. Estou conhecendo os restaurantes de São Paulo. Fui ontem (quinta-feira) ao Gigetto com a minha mulher. A noite paulista é impressionante. Não sou um homem da noite, nunca fui. Eu cumpro o horário europeu para jantar. Chego às 19h30, 20h no máximo. Tenho de dormir cedo.AE - Qual a reação das pessoas quando reconhecem você?Passarella - Todos são muito simpáticos, me tratam com respeito e muito bem. Não tenho do que reclamar sobre o que está acontecendo comigo no Brasil.AE - O que fez você confiar no Kia Joorabchian para trabalhar no Brasil? Sua imagem é de um homem sério...Passarella - Um grupo de amigos meus que já o conheciam. Eles me garantiram sua seriedade. Tive a convicção de que poderia trabalhar com ele. Agora ainda mais. Só não sei como ele pode ter tanta paciência com acusações vazias. São ataques, ataques, ataques - e ninguém prova nada. Se fosse eu, agiria de outra maneira. Acredito no projeto do Kia de fazer o Corinthians um time forte para conquistar os campeonatos que vai disputar. Ele é um rapaz honesto. E muito paciente.AE - Ele está cumprindo suas promessas?Passarella - Sim. Estamos trabalhando juntos para fazer o time cada vez mais fortes. Conversamos há dois dias e traçamos os rumos para o Brasileiro. O time terá reforços. Não vou falar nome e posição. Não seria inteligente. Mas tenho certeza de que o corintiano ficará contente com o time. Vamos trabalhar muito para ganhar o ?Brasileirao? (não fala "ão"). O grupo que estamos conseguindo formar é uma das razões que me fazem acreditar no sucesso. Já trabalhei em clubes em que não acreditava tanto no grupo de atletas e acabei não conquistando os títulos que poderia. Aqui no Corinthians, não. O grupo está sendo formado como eu queria.AE - A rivalidade entre brasileiros e argentinos é menor do que entre Boca e River Plate? Você seria técnico do Boca Juniors?Passarella - Nunca. Fui convidado duas vezes e não trabalharia naquele clube. Vou explicar o motivo. É uma história um pouco longa. Quando eu era pequeno, torcia pelo Boca. Fui fazer teste lá quando era menino e fui rejeitado. Não liguei e continuei a jogar em uma liga amadora. Fiz tanto sucesso que vários clubes me procuraram para fazer ser testado. Escolhi de novo o Boca. Não me deixaram nem fazer o teste. Disseram que não precisavam de zagueiro. Fiquei revoltado com essa segunda rejeição.AE - E daí? O que você fez?Passarella - Fui conversar com a minha avó e falei para ela que iria fazer teste no River Plate. Ela estranhou porque eu era Boca. Mas me apoiou. Fiz o teste, passei. Fiquei dez anos como jogador do River. Depois fui técnico por quatro anos. Minha família inteira passou a torcer pelo River por minha causa. Meus dois filhos sempre foram fanáticos pelo River. Desde que nasceram fiz questão de colocar uma camiseta do clube neles. E quando meu filho Sebastián morreu em um acidente de carro, fiz questão que fosse colocado no caixão com a camiseta do River Plate. Dá para trabalhar no Boca Juniors? Minha relação com o River não permitiria. De jeito nenhum.AE - Qual a sensação de ver várias camisetas da seleção argentina na torcida do Corinthians?Passarella - É ótima. Os torcedores estão percebendo que os argentinos do Corinthians estão fazendo o máximo pelo clube. E estamos mesmo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.