Gilvan de Souza/Flamengo
Vinícius Júnior foi alvo de revolta após comemorar gol com provocação ao Botafogo. Gilvan de Souza/Flamengo

'Patrulha da celebração' entra em campo no futebol brasileiro

Comemorações irreverentes e provocações ‘sadias’, que marcaram época, ficaram no passado

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2018 | 07h00

Na década de 1970, o artilheiro Dario anuncia que vai fazer dois gols pelo Atlético-MG contra o Corinthians. Nos anos 1980, Chicão aposta que corta o bigode se o Santos perder o jogo para o São Paulo, de Serginho Chulapa. O Botafogo é campeão brasileiro com o atacante Túlio apelidando cada um de seus gols. Todos esses lances marcaram época no futebol, promoveram grandes jogos e motivaram os torcedores a lotar os estádios pelo Brasil.

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Mas, hoje, estão proibidos no dia a dia do esporte mais popular do mundo. “Uma característica da sociedade contemporânea é a total liberdade de opinião. Vivemos em um imenso Big Brother, onde uma pessoa que jamais leu a Constituição se acha no direito de discutir com um juiz, que há 50 anos trabalha no STF. Temos de saber conviver com isso”, diz o historiador Leandro Karnal.

Serginho, maior artilheiro da história do São Paulo (242 gols), considera uma “frescura” quando torcedores e críticos opinam contra, por exemplo, a atitude do flamenguista Vinicius Jr., que imitou o chororô, ao fazer um gol contra o rival Botafogo, pela Taça Guanabara – ou a comemoração de Vinicius, do Bahia, que desencadeou um conflito entre jogadores no clássico entre o seu clube e o Vitória, pelo Campeonato Baiano. “É por isso que o futebol ‘tá’ chato. Qualquer coisa é motivo para reclamar. É esse tipo de coisa que chama o torcedor para ir ao jogo”, afirmou o atacante, que também atuou pelo Santos e Corinthians. “Eu não daria a mínima para as redes sociais. Faria tudo de novo. E iria também em boates depois dos jogos”, disse o ex-jogador, que teve a carreira marcada pela irreverência.

Karnal destaca o importante papel das redes sociais para a relação social problemática atualmente. “Essa relação sempre foi complicada, mas agora está pior. É a vingança do recalcado. Não basta ter uma opinião. É preciso que o outro tenha a mesma opinião que você. Os psicanalistas dizem que o narcisismo está enfraquecido, pois não se contenta apenas em ser o correto. É preciso que os outros também o considerem correto.”

Dario, o Dadá Maravilha, autor de 926 gols por mais de duas dezenas de clubes, gostava de se autopromover antes dos jogos. Dava apelido para os gols e anunciava quantos iria fazer numa partida. “Fui o inventor do marketing no futebol. Sabia me comunicar com o povo. As pessoas me respeitavam, pois sempre respeitei meus adversários”, disse o artilheiro dos Brasileirões de 1971, 1972 e 1976.

Segundo Dario, na sua época os torcedores adversários também chiavam. “Se eles reclamavam de mim, eu dizia para eles que iria parar de fazer gol. Aí eles iriam no estádio fazer o quê? Os rivais ficavam mais bravos com os zagueiros dos seus clubes, que sempre levavam meus gols”, diverte-se o campeão mundial com a seleção na Copa de 1970. “Me chamavam de perna de pau. Eu era perna de pau, mas fazia muitos gols. Então, ganhava a confiança do povo.”

O meia Lucas Lima teve problemas nas redes sociais. Quando atuava pelo Santos, fez comentários sobre as várias decisões que teve diante do Palmeiras, seu time atual, e acabou sofrendo fortes críticas. “Hoje em dia as pessoas não têm noção para diferenciar provocação e rivalidade”, afirmou.

Por isso, estádios lotados, com duas torcidas, comemorações divertidas e provocações ficaram no passado. O momento atual é o do futebol frio, com a cara fechada, cada vez mais longe do coração dos torcedores.

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Viola imitou um porco na final em 1993 e depois fez o gavião

No Corinthians, atacante provocou palmeirenses em decisão do Paulistão; depois, pelo Palmeiras, deu o troco no ex-clube

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2018 | 07h00

Corinthians e Palmeiras colecionam uma série de fatos marcantes em seus 101 anos de história. E se respeitam. Esses acontecimentos fizeram com que o encontro se tornasse o maior do futebol paulista e um dos mais importantes do País. Um dos fatos mais notáveis envolvendo as duas agremiações foi a adoção de um segundo mascote pelo time alviverde, que além do Periquito ganharia o Porco, que teve grande influência das duas torcidas.

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Até o fim da década de 1960, os palmeirenses utilizavam a figura do periquito para celebrar as conquistas do time, que tinha em suas fileiras astros como Ademir da Guia, Julinho Botelho e Djalma Santos, entre tantos outros. O Palmeiras era um dos poucos times no Brasil a fazer frente ao Santos de Pelé.

Mas em 1969 um acidente de carro matou Lidu e Eduardo, dois jogadores do Corinthians. Para inscrever novos atletas em seu elenco, o time de Parque São Jorge precisava da autorização de todos os demais clubes inscritos no Estadual. O único a negar foi o Palmeiras.

Isso bastou para que os alvinegros passassem a chamar os alviverdes de “sujos” e, mais para a frente, de “porcos”. Era normal nos duelos ouvir os gritos de “porco” nas arquibancadas do lado corintiano, o que irritava profundamente os torcedores palmeirenses.

Em 1986, após jogada de marketing do clube de Palestra Itália, o meia Jorginho posou com um porco na capa da revista Placar, da editora Abril. A partir daí, o suíno passou a ganhar força para ser novo mascote dos seguidores do Palmeiras.

Em 1988, a torcida do Corinthians gritou pela primeira vez “dá-lhe, porco”, no Pacaembu, durante o triunfo sobre o Santos, por 2 a 0, pois o Palmeiras vencia o São Paulo, no Morumbi, por 1 a 0, no mesmo horário, o que garantia o time corintiano na decisão do Paulista – e ele foi campeão contra o Guarani

Em 1993, no primeiro jogo da decisão do Estadual, Viola fez o gol da vitória corintiana e festejou de joelhos, imitando um porco. Nenhum jogador do Palmeiras reclamou do ato, mas o técnico Vanderlei Luxemburgo usou as fotos dos jornais para motivar o time, que acabou campeão com 4 a 0 na partida da volta.

Em 1997, Viola foi jogar no Palmeiras e ao fazer um gol no Corinthians saiu imitando um gavião, símbolo da maior torcida organizada corintiana. Eram outros tempos. O futebol permitia esse tipo de comemoração, de gozações e brincadeiras. Havia mais tolerância e muito mais humor.

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