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Pax brasiliana

Por mais que falem, por mais que a população pareça indiferente, existe alguma coisa que só em tempo de Copa ocorre no Brasil

Ugo Giorgetti*, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2018 | 04h00

Estava quase a ponto de escrever sobre a inqualificável atitude do governo Trump, que não surpreende a mais ninguém, mas que, desta vez, atinge a Copa do Mundo de 2018.

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Trata-se do tratamento que está sendo dado ao jogador da seleção mexicana Rafael Marquez, que ao constar de uma lista negra do governo Trump é boicotado por todos os cidadãos e empresas que se poderiam ligar a ele, por exigência dos Estados Unidos o que, aliás, a Fifa endossa plenamente.

Ele não veste Adidas como os outros jogadores mexicanos, não bebe a água mineral da delegação por proibição dos fabricantes. Nas fotos da delegação em frente das marcas dos patrocinadores, ele é cuidadosamente afastado e eliminado da foto. Se em algum jogo for o melhor em campo, não poderá receber o prêmio concedido pela Budweiser. 

Me reservo o direito de não fazer nenhum comentário. Não vou falar mais sobre dirigentes seja de que tipo e nacionalidade forem. Chega.

Hoje é domingo e, respeitando o Dia do Senhor, vou falar de paz. Há de fato uma calma, quase uma pausa na vida de São Paulo que me faz pensar. Não é a crise, é a Copa.

Por mais que falem, por mais que a população pareça indiferente, existe alguma coisa que só em tempo de Copa ocorre no Brasil. Esteja a nossa seleção bem ou mal, esteja a nação bem ou mal, Copa é Copa. Sem loucuras, sem histerismo, que seria demais para os dias que correm, esta Copa está longe de ser ignorada. O aspecto da cidade e das pessoas, para quem tem olhos para ver, é um atestado disso.

Basta ver também que ela ocupa todo o noticiário, que está deixando num inacreditável segundo plano até o STF, até o Ministério Público, até os temíveis caminhoneiros. A nação está em paz e, por alguns dias, deve permanecer assim. 

 

Provavelmente você não pensa tanto no seu vizinho, de esquerda ou de direita, que tanto o irritava. E quando a porta do elevador se abre, você até esquece de rezar para não dar de cara com ele. A vida fica inegavelmente mais fácil e todos saem ganhando com isso.

Há, no entanto quem ganhe mais. Michel Temer, por exemplo. Tento encontrar mais alguém a quem a Copa tenha favorecido tanto e não encontro. De personagem principal dos jornais televisivos de todos os dias, ele finalmente teve um descanso. Todos os imbróglios em que está metido desapareceram – ou, pelo menos, não estão mais em primeiro plano.

O Planalto respira por uma vez. Grudados diante do aparelho de televisão, o governo não tira os olhos das partidas. Um mau resultado tira o Brasil mais cedo da Copa da Rússia e pode colocar de volta em seu lugar o noticiário político.

A Suíça deve ter feito Brasília estremecer, mas, no fundo, tudo acabou ainda em paz. Mirando-se talvez no ardor patriótico de Galvão Bueno, Michel Temer ainda sonha com a possibilidade de o Brasil acabar campeão.

O jogo contra a poderosa Costa Rica, no entanto, foi de amargar, visto especialmente de Brasília. Por pouco não houve vexame histórico. Com o perdão da mesóclise, dir-se-ia, então, que no Planalto, além de tudo, há pés frios à solta. 

*CINEASTA, ESCRITOR E COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’

 

 

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