Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Pedindo 'tolerância', Fifa diz que não tomará decisão sobre Del Nero por enquanto

Anúncio foi feito por Gianni Infantino, presidente da entidade

Jamil Chade, Estadão Conteúdo

01 de dezembro de 2017 | 09h22

"Impressionante". Foi com essa palavra que diferentes dirigentes do alto escalão da Fifa descreveram a situação de Marco Polo Del Nero, presidente da CBF, depois de ter sido citado de forma repetida por testemunhas em Nova York durante o julgamento dos cartolas acusados de corrupção.

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Mas, oficialmente, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, indicou nesta sexta-feira que vai aguardar o fim do julgamento nos Estados Unidos para tomar decisões sobre os casos ainda não solucionados. Del Nero passou a ser investigado pela Fifa em 2015. Mas, desde então, a entidade indicou que não avançou no processo.

Para a Fifa, só com uma decisão de condená-lo é que a entidade tomaria uma decisão de afastar o brasileiro do futebol. Sem sair do Brasil, porém, o dirigente evita um julgamento nos EUA e pode nunca ser condenado.

"Depois do processo, se condenados, vamos lidar com os casos. Temos mecanismos para isso e vão tratar dessa questão", disse Infantino, respondendo a uma pergunta do Estado especificamente sobre Del Nero. "Não é para o presidente lidar com o tema. Temos instituições para isso", disse.

Infantino, porém, insistiu que os cartolas sob exame tem o direito a um "processo justo e tolerância". "Vamos deixar o processo seguir. A Justiça tem mais mecanismos que nós. Seja qual for a decisão, teremos processos na Fifa para casos que não lidamos e não vamos hesitar em tomar medidas", disse.

O presidente deixou claro que o tribunal "reconheceu a Fifa como vítima" de alguns cartolas e que a entidade foi usada para "benefícios particulares".

Mas ele também insistiu que é necessário "fazer uma distinção entre o passado e o futuro". "No passado, houve um ecossistema especial sobre a gestão", admitiu. Segundo ele, as coisas que foram reveladas em Nova York "não podem mais ocorrer". "Mas elas ocorreram e temos de lidar com o passado", disse, agradecendo a Justiça americana pelo trabalho. "A corrupção não tem lugar no futebol", afirmou.

Infantino, porém, quis comentar as evidências apresentadas em Nova York sobre a compra de votos pelo Catar para a Copa de 2022, inclusive a Ricardo Teixeira. "Não vou participar de especulação", disse. "Temos que se cuidadosos com pré-julgamentos", insistiu e lembrando que o maior caso de corrupção até hoje foi nos EUA, em Salt Lake City. "Por agora, são suspeitas", disse.

Dando lições, porém, o presidente da Fifa alertou aos jornalistas que eram matérias de futebol que os leitores e ouvintes queriam ter acesso.

PRESENÇA

 O presidente da CBF, que foi o único chefe de uma entidade classificada para a Copa a não viajar até Moscou, foi apontado como uma das pessoas que pediu e recebeu propinas por parte de intermediários, em troca de direitos para torneios na América do Sul. A própria defesa de José Maria Marin, presidente da CBF quando Del Nero era o vice, também passou a usar a estratégia de acusar o sucessor para tentar livrar seu cliente.

Na quarta-feira, Eladio Rodríguez, uma das testemunhas, afirmou ter pago US$ 4,8 milhões (cerca de R$ 15 milhões) em propinas para Del Nero e Marin. Um dia depois, a defesa do ex-presidente da CBF, que cumpre prisão domiciliar em Nova York, voltou a dizer ao júri que era Del Nero, e não Marin, que recebia propinas.

Para isso, exibiu alguns documentos, entre eles um e-mail de 6 de junho de 2013, enviado por Rodríguez a ele mesmo como um lembrete de atividades que teria de fazer. Entre elas consta "telefonar para Marco Polo para transferência".

Se Del Nero não viajou, quem está em Moscou é Alexandre Silveira, um ex-funcionário de Ricardo Teixeira e que foi mantido nas seguintes administrações. Silveira foi citado na corte em Nova York como sendo a pessoa para qual eram feitas as ligações para falar com os dirigentes brasileiros para tratar de propina.

Segundo a testemunha Alejandro Burzaco, propinas foram pagas a Ricardo Teixeira, no valor de US$ 600 mil por ano entre 2006 e 2012, "em contas bancárias indicadas por ele ou seu secretário pessoal, Alexandre [Silveira]".

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