Pela memória do vovô Garrincha

Herick dos Santos Cardoso tem quinze anos e é muito tímido. Ontem, quase tremeu de vergonha ao participar de um evento publicitário da Nike e receber um troféu pelo lance mais bonito da Copa de 1962, representando Garrincha, o seu avô. Aproveitou para contar seu plano de voltar a jogar futebol e para deixar claro que não suporta comparações com o maior driblador da história. Foi justamente isso que o fez largar precocemente a carreira. Aos 12 anos, Herick chegou a fazer parte das categorias de base do Botafogo, clube onde seu pai fez história e do qual é torcedor fanático. Mas desistiu depois de ouvir vários treinadores, jornalistas e jogadores fazendo comparações com seu avô. ?Na época, todo mundo falava sobre meu avô. Eu ainda era novo e sentia menos. Agora eu entendo melhor essa responsabilidade que tentam me colocar?, diz o garoto, que completa 16 anos em setembro. Depois de dois anos no futebol, Herick parou de jogar. Continuou estudando e está na segunda série do Segundo Grau. Continua jogando peladas de rua em Inhaúma, subúrbio do Rio de Janeiro, e prepara uma volta aos campos. Deve recomeçar a jogar nas categorias de base do Madureira nos próximos dias, como atacante. ?Não quero que as pessoas me conheçam como o neto do Garrincha. Prefiro ser eu mesmo. Meu avô gostava de driblar, meu estilo é diferente, gosto mais de tentar chutar para o gol. Mas não dá para comparar?, diz o garoto. Herick é filho de Édson da Silva Cardoso e Maria Cecília dos Santos Cardoso, sexta filha de Garrincha ? no total foram quinze, dos quais onze ainda estão vivos, um deles morando na Suécia. O pai também trabalha com futebol, na Secretaria de Esportes do Rio de Janeiro, coordenando um projeto de escolinhas pela cidade. Os professores são ex-jogadores como Adílio, Júlio César ?Uri Geller? e Alfinete. Se não conseguir vingar como jogador, Herick diz que pretende seguir a tradição familiar e trabalhar no futebol. Edson é um que comprou a briga com Ruy Castro, escritor da biografia de Garrincha, ?Estrela Solitária?, que chegou a ter a circulação proibida, mas agora é encontrado nas livrarias. A família do ex-jogador pede uma indenização na Justiça e reclama do que foi publicado. ?Setenta por cento do que está no livro é derrota. Falam que ele é bêbado, que fumava. Uma pessoa que quer saber do Garrincha não quer ler esse tipo de coisa?, diz.

Agencia Estado,

30 de março de 2004 | 09h57

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.