Pela quarta vez, Messi é favorito ao prêmio de melhor jogador do mundo

Conheça um pouco da incrível história desse talentoso jogador argentino e do Barcelona

Mateus Silva Alves e Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2012 | 12h25

SÃO PAULO - A cena aconteceu há mais de dez anos e já entrou para a galeria das grandes histórias do futebol: Carles Rexach, então diretor das divisões de base do Barcelona, viu em um jogo de garotos um menino que de tão pequeno parecia ter entrado de penetra na peleja.  O veterano Rexach, ex-jogador do Barça, acostumado a lidar com as maiores estrelas do mundo da bola, ficou boquiaberto com o que observou, tanto que ali mesmo, num guardanapo, fez um contrato simbólico para a miniatura de craque. Seu nome era Lionel Messi.

Uma década depois, o baixote virou o melhor jogador de futebol do planeta. Seu talento de arrancadas supersônicas e dribles desmoralizantes é exaltado em qualquer canto de qualquer continente. Mas o genial atacante, chamado de novo Maradona, entre outros elogios ainda mais grandiosos, sofreu para chegar ao topo. E muito. O sofrimento de Messi não foi do tipo que acomete tantos brasileiros, aquele que resulta da luta contra a fome, entre tantas carências. O problema do argentino era físico.

No dia 24 de junho de 1987, em Rosário, ele nasceu com 3,6 kg, peso considerado ideal pelo médico responsável. Nove anos depois, no entanto, Jorge e Celia, os pais da criança, foram ao desespero quando descobriram que o menino não crescia como os outros. Padecia de um distúrbio que atrasava seu desenvolvimento.

O tempo foi passando e, ao contrário do que imaginavam os médicos que cuidavam do caso, o problema não se resolveu espontaneamente. Aos 13 anos, o pequeno Lionel tinha o corpo de um menino de 11. Foi-lhe receitado, então, um tratamento à base do Hormônio do Crescimento, que tinha um contra-indicativo: era caríssimo. Mesmo não sendo pobres, Jorge e Celia não tinham como pagá-lo. Foi àquela altura que apareceu Rexach oferecendo ao menino um lugar no Barcelona. E ofereceu mais: o custeio do tratamento tão desejado pela família. Não havia como dizer não.

Os primeiros anos de Messi na Espanha foram o ápice de seu sofrimento. Apenas o pai o acompanhou na aventura europeia e a saudade da família era angustiante. Mas o pior eram os efeitos colaterais do tratamento para crescer. O escritor e jornalista italiano Roberto Saviano, autor do polêmico livro Gomorra, escreveu um artigo sobre Messi e nele descreveu o calvário do craque na adolescência: toda noite, por três anos, ele se aplicava uma injeção com o hormônio. "Ele sentia enjoos e vomitava muito", contou Saviano. "Quando o tratamento começou a fazer efeito, sentia dores por causa do crescimento em ritmo acelerado." Ainda assim, Messi jamais se queixava. Sentia que seria uma ingratidão com o clube que lhe deu uma chance no futebol e que, ainda por cima, ofereceu-lhe a solução para um problema físico grave.

Com tanto sofrimento, era de se esperar que Messi se tornasse um adulto amargo. Com a fama e o dinheiro que já acumulou, não seria surpresa se virasse uma megaestrela deslumbrada e arrogante. Mas quem o conhece na intimidade jura de pés juntos que Messi não é assim. Chamado de extraterrestre pela qualidade de seu futebol, ele parece mesmo ser de outro planeta, mas por uma razão diferente: não se deixou seduzir pelas delícias do mundo das celebridades. "O que ele adora é jogar futebol. O resto não lhe interessa muito", comentou a jornalista espanhola Cristina Cubero, que há anos cobre o Barcelona para o jornal Mundo Deportivo, da cidade catalã, e acompanha a carreira de Messi desde o princípio. "As outras estrelas do futebol se comportam como showmen, como grandes celebridades. Ele, não. Messi é muito tímido e vive para a sua família."

Para as revistas de fofocas, Messi é um desastre. Ele namora uma moça chamada Antonella, também nascida em Rosário, que conhece desde a infância. Não é visto em boates, não se diverte com modelos famosas nem dá chiliques quando não é feita sua vontade. E, ao contrário de astros egocêntricos como Cristiano Ronaldo, não faz questão de alardear suas virtudes. "Messi sempre foi um cara simples, humilde, de poucas palavras", disse Belletti, então jogador do Chelsea, ex-parceiro do argentino no Barcelona. 

Por conhecer bem o melhor jogador do mundo, o lateral brasileiro tem certeza de que ele nunca permitirá ser apanhado pelas armadilhas da fama. "O Barcelona prepara muito bem seus jogadores para a pressão. E sua família vive com ele em Barcelona, e isso ajuda."

Messi é absolutamente avesso a escândalos. O mais perto que ele chegou de algo do gênero foi a briga entre seu pai e Rodolfo Héctor Schinocca, seu ex-empresário. Em 2006, Jorge Messi acusou Schinocca de se apropriar indevidamente de ganhos do jogador, e vice-versa. A disputa foi parar na Justiça e Jorge, depois disso, decidiu passar o controle da carreira do filho para Claudio Bianccuchi, tio de Messi e pai do ex-jogador do Flamengo Maxi Bianccuchi, esforçado atacante que tem como principal credencial o fato de ser primo do astro do Barcelona.

Então vamos recapitular: Messi é rico, famoso e muito admirado por milhões de fãs do futebol e também por seus colegas de trabalho. "É difícil ver alguém fazer o que o Messi faz. A maneira como ele consegue mudar de velocidade, com uma rapidez incrível, sem perder o contato com a bola, é coisa que, eu acho, só o Maradona fazia", testemunhou o meia Deco, outro jogador que conviveu com o argentino no Barcelona. Além disso, o craque tem uma vida familiar estável e goza de plena saúde. Falta algo para a felicidade ser completa? Por incrível que pareça, falta. Assim como Aquiles, o herói da mitologia grega que tinha no calcanhar sua única vulnerabilidade, Messi também tem um ponto fraco: a seleção argentina.

Messi participou da conquista da medalha de ouro nos Jogos de Pequim, e só. Com ele, a Argentina não conseguiu sequer o título da Copa América de 2011, jogando em casa. Campeão de tudo no Barcelona, Messi sente uma dor profunda na alma por não ter ainda convencido os argentinos de que também pode ser genial com a seleção.

Além de demonstrar talento, técnica e eficiência inigualáveis, Lionel Messi ainda enche os olhos dos analistas e torcedores porque parece não ter alcançado seu apogeu ainda. Em termos de números, sua melhor temporada foi justamente a que se encerrou neste ano. O craque marcou 82 gols na temporada, deixando para trás uma marca estabelecida por Pelé em 1958 (75 gols). O que faz em campo já o coloca na mesma galeria de craques lendários, como Pelé, Maradona, Platini, Zico e Zidane.

Messi acaba de ser indicado pela Fifa para mais um prêmio de melhor jogador do mundo. Já ganhou o título três vezes e novamente leva vantagem diante de seus concorrentes, Cristiano Ronaldo e Iniesta, por tudo o que fez na temporada de 2012. A escolha do vencedor será anunciada dia 7 de janeiro.

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