Pela rebeldia

Nossos meninos da Copinha precisam ser mais inventivos em campo

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2018 | 04h00

Nossos moleques no futebol precisam ser mais ousados, menos obedientes e com boa dose de rebeldia. É lindo ver a bola correr de pé em pé, como aquela versão do Barcelona sob o comando de Pep Guardiola. Ocorre que nosso DNA sempre foi outro. Corre em nossas veias o sangue do “futebol moleque’’, da ginga e do drible, do enfrentamento dos marcadores mano a mano, do elástico, pedalada e trança-pernas.

Nem de longe, no entanto, é o que vemos nas partidas da tradicional Copa São Paulo de Futebol Júnior, antessala do profissionalismo do futebol brasileiro. Há, sem dúvida, alguns bons jogadores, mas nenhum deles capaz de destruir barreiras, enfileirar marcadores, “comer” o adversário em direção ao gol.

Com poucas exceções, são meninos bem treinados, alguns já marombados para a idade, cheios de disposição, mas travados do meio de campo para frente, pouco habilidosos e desprovidos de qualquer ousadia. De modo que estamos vendo partidas truncadas, algumas chatas, salvas unicamente quando se enfrentam rivais tecnicamente muito distantes um do outro, como Palmeiras e Taubaté ontem, com vitória do time alviverde por 7 a 0.

Onde estão nossos Edmundos, Denilsons, Rivellinos e tantos outros que nos faziam chegar mais cedo aos estádios para vê-los jogar antes de baterem à porta dos profissionais?

Precisamos salvar a próxima geração do futebol brasileiro. Precisamos preservar nosso DNA esportivo. Não podemos deixar de ser inventivos dentro de campo, principalmente nas bases, onde, teoricamente, tudo deveria ser permitido.

Outro dia fiquei sabendo que o novo técnico do Palmeiras, Roger Machado, deu a maior bronca em Borja porque ele tentou driblar seu marcador num dos treinos preparatórios do time para a temporada.

Imagina se Tite pedisse para Neymar evitar os dribles e as jogadas de efeito? O atacante do Paris Saint-Germain estaria morto, infeliz em campo e sem saída. Além de craque acima da média que é, Neymar embala em cada avançada com a bola nos pés o estereótipo do jogador brasileiro, do menino abusado e inconsequente positivamente, confiante por natureza, capaz de levantar torcida no estádio.

Poderia apresentar uma lista desses jogadores. Já tivemos muitos. Mas na Copinha deste ano, eles ainda não deram a cara. Estão oprimidos na estrutura de seus times.

Claro que isso tem a ver com a formação desses jovens, com a proibição do drible e do individualismo. Com a falta de incentivo. Esses meninos passaram a ser encaixotados dentro de padrões táticos e filosofias de trabalho, quase sempre defendidas por treinadores com medo de perder o emprego e fissurados pela necessidade de ganhar.

Vencer é importante no futebol, mas não nas categorias inferiores, não quando se está formando um profissional. Nessa etapa, por exemplo, os fundamentos são bem mais importantes. A graça e a magia são necessárias.

Então, esses técnicos dos tantos times inscritos na Copa São Paulo deveriam estar mais preocupados em usar a vitrine da competição para apresentar garotos acima da média, diferentes, ousados e habilidosos. O oposto do que vejo na disputa deste ano.

De qualquer forma, nossos garotos “CDFs’’ em campo poderiam se rebelar, abusar, inventar mais diante dos marcadores, sem perder o senso tático para não provocar melindres no chefe.

Não imagino outro caminho para desrobotizar nossos jogadores, aqueles que só tocam de lado, aqueles que se colocam reféns dos 300 passes em 90 minutos sem pegar um único atalho.

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