Pelé estará torcendo de Nova York

Pelé estará hoje, às 20h40 (horário de verão em Nova York, 21h40 em Brasília), na frente da televisão, torcendo pelo Santos contra o Boca Juniors. Quarenta anos depois de conduzir o Santos ao título da Libertadores, Pelé só espera que o time marque um gol nos primeiros 15 minutos para desequilibrar o adversário. "Se o Santos fizer isso, o título vai ser nosso. Do contrário, vai ser difícil. Se há uma coisa que eu entendo é de como enfrentar os argentinos dentro de campo."Da diretoria do Santos, Pelé não recebeu nenhum convite para assistir ao jogo desta noite. Mas ele poderia aparecer no Morumbi pelas mãos de Nicolas Leóz, presidente da Confederação Sul-Americana, que o convidou para receber uma homenagem pelos 40 anos do seu título sul-americano interclubes. "Só não aceitei porque tenho compromissos inadiáveis aqui nos Estados Unidos. Tenho, pela frente, uma nova campanha publicitária para o Café Pelé, que está vendendo muito na Rússia. Mas meu espírito estará com os meninos, dentro do campo."Pelé se considera meio pai da geração de Robinho e Diego. Para ele, sua maior desavença com a atual diretoria do Santos acabou no momento em que os jogadores mais novos tornaram-se titulares. "Sempre defendi que o Santos tinha de renovar o elenco. A diretoria contratava Carlos Germano, Rincón, Valdo, Valdir, Edmundo, jogadores mais velhos, sem o mesmo ritmo, e eu queria os moleques em campo. Aí, quando acabou o dinheiro, a diretoria não teve outro jeito e efetivou os meninos. Eu tinha feito avaliação com eles no CT. Sabia do potencial de cada um."Segundo Pelé, qualquer time argentino marca bem, tem bons fundamentos e muita garra. "É isso que vamos enfrentar no Morumbi. Mas eu estou otimista. Acho que vai dar certo. E amanhã passaremos o dia comemorando."Pelé diz que o atual time do Santos tem um elo muito forte com a máquina de fazer gols da década de 60. "Eles vibram, choram nas vitórias, têm vergonha na cara. Quando um grupo de bons jogadores tem amor pela camisa, torna-se um time forte e combativo. É assim que eu vejo o Santos de Diego, Robinho, Paulo Almeida, Léo, Renatinho e outros", diz. E lembra que ele, o Rei Pelé, Coutinho, Del Vecchio ("que era dali mesmo, de São Vicente"), Pepe ("que sempre viveu em Santos") reagiam do mesmo jeito, sempre fazendo tudo com muita emoção. Para Pelé, o talento da ?jovem guarda? do time do Santos encontrou em Leão o ponto exato de equilíbrio. "A disciplina técnica e pessoal que Leão impôs foi decisiva. Aí começou a nascer o Santos vencedor."Virar o jogo, segundo Pelé, depois de uma derrota de 2 a 0 no La Bombonera, não é impossível. Ele mesmo acompanhou a semifinal do Campeonato Brasileiro de 1995, quando o Santos teve de golear o Fluminense por 5 a 2 para garantir vaga na final. "O Edinho, meu filho, era o goleiro e estava arrasado depois da derrota no Maracanã por 4 a 1. Eu tive uma conversa séria com ele. Procurei motivá-lo. Disse assim: ?Seu pai já enfrentou situações tão difíceis quanto esta mas nunca se deixou abater.? Ele acabou entendendo e o Santos virou o jogo. Pena que, na finalíssima, fomos roubados contra o Botafogo."Pelé faz ainda uma observação curiosa. "Eu preferia que o Santos tivesse perdido de 3 a 1 do que de 2 a 0. É uma coisa psicológica. Se a derrota tivesse sido por 3 a 1, isso significaria que nosso time tinha feito um gol neles. E, portanto, poderia fazer outros. Mesmo assim, acho que dá para virar."A presença do Santos na final, pelo menos, está compensando a mais recente decepção de Pelé com o futebol brasileiro. Organizador da Copa da Paz, um torneio com clubes de todo o mundo na Coréia do Sul, ele ficou sabendo há uma semana que o representante brasileiro, o São Paulo, não conseguiu a liberação da CBF. "Isso é triste. O clube tinha se comprometido. Eu sempre convidaria um time brasileiro, porque desejo que o produto ?futebol brasileiro? tenha mercado. Isso vai pegar mal. Qual o organizador europeu que vai convidar um time brasileiro para um torneio sabendo que, na última hora, poderá desistir?" Pelé disse que ele preferia não entrar na briga entre o São Paulo e a CBF. "Acho apenas que eles deveriam se entender, chegar a um acordo sobre a viagem do São Paulo. Era uma chance para o Kaká aparecer bem para os empresários."MERCADO - Segundo Pelé, os craques argentinos continuarão com um mercado melhor que o dos brasileiros no Exterior enquanto os clubes continuarem com dificuldades para excursionar. "Os argentinos estão sempre sendo mostrados na Europa. Essa é uma vantagem que o futebol deles tem sobre o nosso."A princípio, o substituto do São Paulo será o Nacional de Montevidéu. Pelé diz que a multa original pela desistência era de US$ 3 milhões. "Não sei se foi mantida no contrato, mas isso não é o mais importante. O evento vai ser excelente e é uma pena não termos um representante."A exposição de fotos de Pelé que já foi exibida com sucesso em Londres e Manchester, na Inglaterra, irá agora para Seul, coincidindo com a abertura da Copa da Paz. Depois seguirá para o Japão e, provavelmente, virá ao Brasil. "As minhas coisas eu estou cumprindo e fazendo o que prometi. Essa é a norma como procuro conduzir as coisas. Infelizmente não é assim com todo mundo", conclui.

Agencia Estado,

02 de julho de 2003 | 09h36

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