Werther Santana
Aos 16 anos, o neto de Pelé já se profissionalizou no Guarani, de Divinópolis, que disputa a primeira divisão mineira.  Werther Santana

Pelé sente orgulho dos herdeiros que deixou no futebol

Filhos no Santos, no sub-20 e comissão técnica, neto está em Minas

Gonçalo Junior e Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2015 | 17h00

Além do aspecto físico, não dá para compararPelé e seus herdeiros, a ideia não é essa. A única aproximaçãopossível é olhar o que os filhos Joshua e Edinho, além do netoOctávio, fazem com o legado do rei do futebol. Aí, dá jogo.

Octávio Felinto Neto acabou de seprofissionalizar no Guarani de Divinópolis, da primeira divisãomineira. Ele chegou a ficar no banco na terceira rodada, contra oCruzeiro, mas não jogou nenhuma vez. Sua carreira está no começo mesmo. Mora no alojamento doclube, no estádio Waldemar Teixeira de Faria, em uma vida solitáriae sem luxo. O nome do avô abre portas, mas não dá o colete detitular.

O atacante começou a chamar a atenção no sub-13no Paraná Clube ao fazer um gol que caiu na rede. Literalmente. PeloYou Tube, dá para ver o chapéu no goleiro e o toque de cabeça. Ogol abriu portas no futebol paulista. Passou pelo São Paulo, Osasco,Santos e Independente de Limeira sem se destacar na multidão. Pareceque se encontrou em Minas. “Não esperava ser profissional aos 16anos. É sensacional”.

Uma informação no parágrafo anterior éimportante: a mudança para Curitiba logo que sua mãe faleceu. Ele éfilho de Sandra Regina Arantes do Nascimento Felinto, reconhecidacomo filha de Pelé em 1996 depois de uma longa e dramática batalhana Justiça. Pelé só reconheceu a filha depois dos exames de DNA.Dez anos depois, em 2006, Sandra faleceu vítima de câncer de mama,aos 42 anos.

Octávio não guarda mágoas, mas, na prática, arelação com Pelé não existe. Ele traz na memória um encontro de2009, o único. “Durou uns cinco minutos, no hall do hotel”,conta.

Em 2011, outros cinco minutos de papo pelotelefone. Recebeu a bênção e ouviu que não deveria desistir deseus sonhos. Hoje seus principais contatos são a tia-avó Lúcia e adona Celeste, bisavó, mãe de Pelé. “Sei que ele tem os afazeresdele. Fico feliz com esse DNA. Mesmo não estando presente, eleajuda”, diz o Pelezinho.

Ops, Pelezinho, não. “Tenho de me destacar pormim e não pelo que meu avô fez. Minha mãe sempre dizia para mechamarem de Octávio”.

MENSAGENS DE TEXTO 

O relato de Joshua SeixasArantes do Nascimento, filho de Pelé, também é de ausência dopai. Mas com menos dramaticidade. Ele mora com a tia Maria Lúcia eos encontros são raros por causa da agenda do pai. “A gente nãose fala todo dia, meu pai viaja muito. Nosso contato principal épelo telefone”, lamenta o jogador do sub-20 do Santos. “Eleaprendeu a trocar mensagens SMS. Está bem mais fácil falar com ele.O próximo passo é a usar o WhatsApp”, diz o atacante de 18 anossobre o aplicativo para conversas instantâneas.

Joshua é filho de Pelé com Assíria, casamentoque durou 14 anos. Irmão gêmeo de Celeste, ele morou nos EstadosUnidos por três anos, mas decidiu voltar ao Brasil para ser jogador.Lamenta ter saído antes do crescimento recente do futebol, mas achaque fez a escolha certa.

Seu sonho é ser jogador profissional. Simplesassim, algo que parece estar na próxima esquina. Ou nem tanto. Atéhoje, fez três jogos no Santos, dois pelo sub-17 e um pelo sub-20,mas ainda não conseguiu ser titular. “Ele chegou em 2013 longe donível dos outros jogadores. Está melhorando bastante, mas ainda nãoestá no mesmo patamar do restante do grupo”, afirma EmersonBallio, auxiliar técnico da sub-20. “Ele é muito veloz. Aindaestamos procurando uma posição na qual ele se encaixe melhor”.

Outro fator que limitou seu desenvolvimento foramas seguidas contusões. Ele perdeu a Copa São Paulo de Juniores, porexemplo, por causa de uma lesão. Hoje, faz exercícios de pilatesque, segundo ele, estão corrigindo o problema. “Meu pai fala queatravessava o campo em 11 segundos. Eu herdei um pouquinho dessavelocidade”, sorri. “A principal diferença é a inteligência nahora de jogar. Ele lia a jogada, dois, três segundos antes e tinhamais habilidade, e a técnica dele era um pouquinho melhor”,completa.

A cada duas respostas, Joshua fala na importânciade concluir os estudos. Ele cursa o primeiro semestre de EducaçãoFísica em Santos e pretende se especializar em Fisiologia. Acha quea vida de jogador é curta. Não tem vergonha de usar os óculos dearos grossos e pretos fora dos treinos, remédio para corrigir miopiae astigmatismo. Essa é outra herança do Rei, que tinha entre 2 e2,5 graus. Humilde e educado, o filho do rei sai do CT a pé, dechinelo e sem carrão.

SILÊNCIO

No dia 12 de março, Edson Cholbi doNascimento, o Edinho, filho mais velho de Pelé, foi efetivado nocargo de auxiliar técnico do Santos, ao lado de Serginho Chulapa. Osdois estão juntos com o técnico Marcelo Fernandes. Ao saber daefetivação, durante um evento no Museu Pelé, o pai ficou surpreso.“Ah, colocaram o Edinho, grava essa aí, pra depois não dizer quenão é verdade.  Ele foi jogador do Santos e agora é umaresponsabilidade muito grande”, afirmou Pelé.

O cargo é uma grande notícia para o ex-goleiroque suportou a pressão de ser comparado ao pai e teve boa passagempelo Santos, sobretudo entre 1994 e 1998. Mas Edinho não quiscomentar a efetivação. Desde maio do ano passado, quando foicondenado a 33 anos de reclusão, em regime fechado, pelo crime delavagem de dinheiro procedente do tráfico de entorpecentes, oex-jogador evita a imprensa.

O advogado Eugenio Malavasi, que passou a defendero ex-atleta depois da segunda prisão, no ano passado, entrou com umpedido de habeas corpus pedindo a “reforma da sentençacondenatória”, ou seja, a revisão total da condenação. Naprática, para o advogado, Edinho não praticou nenhum dos crimes.Ele aguarda a análise do recurso e, enquanto isso, Edinho podetrabalhar normalmente. Por questões judiciais, não pode acompanhara equipe nos jogos fora de São Paulo. Não foi a Londrina, porexemplo, no jogo da ida da Copa do Brasil. “O recurso é totalmentelícito”, diz o advogado.

Familiares afirmam que Edinho só foi preso porser filho de Pelé. Não existe um prazo definido para o julgamentodo recurso de reforma da sentença.

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Pelé pede para que seus filhos não sejam comparados com ele

Joshua e Octávio tentam seguir os passos de Pelé em campo

Gonçalo Junior e Robson Morelli, O Estado de S. Paulo

04 de abril de 2015 | 21h46

Pelé se orgulha da família que teve e tem no futebol, começando por seu pai, Dondinho, de quem ressalta o recorde de ter feito certa vez cinco gols de cabeça numa mesma partida. Lembra que Zoca, seu irmão, também jogou no Santos, onde ele foi rei. E agora destaca a linhagem com seu DNA com o mesmo sonho. Joshua e Octávio tentam seguir os passos de Pelé em campo. Seu único pedido é para que não comparem os meninos a ele. Pelé só existe um.

O que você acha de seus herdeiros no futebol, seguindo seus passos? Qual é o tamanho do seu orgulho com eles? Refiro-me ao Joshua, no sub-20 do Santos, Edinho, agora na comissão técnico do time profissional, como auxiliar, e do filho da Sandra, Octávio, que joga no Guarani de Divinópolis.

Acho que tudo isso é genético. Só Deus pode explicar. Meu pai, Dondinho, por exemplo, foi um grande centroavante (Joshua é atacante, mas prefere atuar pelos lados do campo). Meu pai tem o recorde de cinco gols de cabeça em um único jogo. O Zoca, meu irmão, também foi jogador profissional do Santos Futebol Clube. Então, é genético. Tenho orgulho de todos eles e para meu filho Joshua, e meu neto Octávio, espero que tenham a mesma sorte que eu tive e que continuem a representar a família.

De alguma forma, eles vão levar adiante o que Pelé fez no futebol por anos, tanto no Santos quanto na seleção brasileira.

Espero que tenham a mesma sorte que tive na minha carreira. E tenho mesmo orgulho de todos eles.

Como você recebeu a notícia, lá atrás, de que Edinho queria ser goleiro? E como lida agora com a opção de Joshua, que quer ser atacante e jogar no seu Santos? É fácil para o Pelé ver seus filhos e neto no futebol? Eles serão cobrados...

O Edinho foi muito cobrado por ser meu filho, mas ele, como goleiro e eu, como atacante, conseguimos dar alegrias ao torcedor brasileiro em tempos diferentes. Tenho certeza disso. (Edinho jogou no Santos nas temporadas de 1990 e 91, mas nunca teve a mesma desenvoltura do pai com a bola nas mãos. Ele voltou a defender o gol do Santos no período entre 1994 e 1998. Pelé, como se sabe, gostava também de jogar no gol). Isso deve ser genético também.

Você tem vontade de ver o Joshua em ação, de assistir às partidas do menino? Qual seria seu maior conselho aos santistas que esperam ver o filho de Pelé no time profissional um dia?

Já vi algumas vezes o Joshua jogar e treinar com os meninos de sua idade, no sub-17 do Santos, quando ele começou. Meu conselho é que não queiram que o Joshua seja um novo Pelé. O Dondinho e a dona Celeste fizeram o Pelé e jogaram a receita fora.

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