Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians
Cássio defendeu dois pênaltis neste Brasileiro pelo Corinthians Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians

Pênalti deixa de ser um tormento para os goleiros no Brasileirão

Índice de defesas nas cobranças de penalidades máximas vem aumentando, reflexo de treinamento melhor e de maiores informações sobre os batedores

Ciro Campos, Daniel Batista, Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2017 | 17h00

A tarefa de chutar a partir de uma marca a 11 metros de distância e fazer a bola acertar o alvo de aproximadamente 18 m² virou um desafio complicado para os cobradores de pênaltis. Neste Campeonato Brasileiro os jogadores têm sofrido com essa missão. Em 13 rodadas finalizadas até a última quinta-feira, o aproveitamento de cobranças despencou em comparação aos anos anteriores.

O Brasileiro tem decepcionado quem comemora antecipadamente quando um árbitro marca pênalti a favor do seu time. Sem contar os jogos deste fim de semana, o levantamento feito pelo Estado computou 42 cobranças, 15 delas desperdiçadas. Os batedores têm acertado somente 64% dos chutes, número inferior aos cerca de 77% de aproveitamento registrado nas duas últimas edições.

Apesar de os mais de sete metros de largura e os quase 2,5 metros de altura fazerem o gol parecer espaçoso a quem acompanha à distância, os goleiros têm conseguido dificultar bastante a tarefa de quem cobra. Somente na rodada do último fim de semana, as cinco cobranças foram perdidas. Quatro delas pararam em defesas.

“Isso é falta de treino dos batedores e maior capacidade dos goleiros, que estão se preparando melhor, com imagens e informações. Batedor de pênalti precisa treinar e ter calma. Não existe esse papo de loteria”, disse Evair, especialista em cobranças de penalidades quando jogava. “Uma das primeiras coisas que eu tentava saber era se o goleiro saia antes. Se saísse, ficava bem mais fácil”, contou. 

O goleiro Cássio, do Corinthians, parece concordar com Evair, por isso adota uma tática que poderia dificultar a vida do ex-atacante. “Eu espero até o último minuto e tento aproveitar o meu tamanho”, contou o corintiano de 1,96 m de altura. 

Só neste Brasileiro, ele já defendeu duas cobranças em momentos decisivos. A primeira foi a de Luan, do Grêmio, na vitória corintiana por 1 a 0. A outra foi a de Lucca, quando o alvinegro fez 2 a 0 na Ponte Preta. 

Quem está na frente de Cássio como herói é o santista Vanderlei. Foram três defesas no Brasileiro. Em outras três ocasiões os adversários chutaram ou na trave ou para fora. 

A verdade é que não existe um segredo para acertar ou defender cobranças de pênaltis. Se Cássio resolve esperar, Douglas, do Avaí, prefere arriscar. “Hoje todo mundo se conhece e fica difícil esconder uma cobrança, mas cada um tem um estilo peculiar para bater na bola. Prefiro arriscar um canto, mas, se conheço o batedor, tento pular no lado que eu acredito que ele vá chutar”, contou. Assim, ele pegou a cobrança de Edilson, do Grêmio, quando o Avaí surpreendeu e venceu por 2 a 0, em Porto Alegre.

Quem sofre com tudo isso são os batedores. Fred, especialista na jogada, admite que a dificuldade para continuar com bons retrospectos. “Eu acerto 70% ou 80% das cobranças, mas os goleiros estão melhores”, disse o atacante do Atlético-MG, que bateu um pênalti contra o Santos e parou nas mãos de Vanderlei. 

Menos mal para Fred que o Atlético também tem um pegador de pênaltis. No mesmo jogo, Victor defendeu a cobrança de Kayke. “A gente não pode tirar o mérito de uma defesa de pênalti, que é um lance extremamente difícil para o goleiro. Tive a felicidade de defender um pênalti, o Vanderlei também defendeu. Isso mostra que os goleiros estão cada vez mais preparados. Não pode só colocar a responsabilidade nos batedores.’’

Evair dá um conselho. “É mais fácil olhar para a bola, escolher um canto e chutar forte, mas a chance de acerto é maior se você olhar para o goleiro. Não precisa ficar olhando para a bola. Ela ficará parada, quem se mexe é o goleiro”, ensina.

Ele sai em defesa dos cobradores da atualidade, lembrando que os goleiros hoje têm acesso às informações dos batedores. De fato, a tecnologia tem sido bastante utilizada para que os goleiros consigam ter mais chances de evitar ou diminuir a quantidade de gols de pênaltis.

Os principais clubes do Brasil contam com uma espécie de olheiros que buscam informações, alimentam a base de dados dos departamentos de análise de desempenho sobre os adversários e passam para a comissão técnica e jogadores. Com a globalização, raramente um goleiro de time grande irá a campo sem saber a forma com que os cobradores de pênaltis da equipe adversária chutam. 

Dados curiosos sobre as cobranças de pênaltis no Campeonato Brasileiro:

42 pênaltis foram batidos no Brasileiro deste ano até a última rodada.

15 erros foram cometidos pelos cobradores. Mais de 1/3 das chances.

13% menor é o aproveitamento em comparação a 2015 e 2016.

5 gols Henrique, do Fluminense, marcou neste Brasileiro em cobrança de pênaltis. 

3 defesas de pênaltis têm o goleiro Vanderlei, do Santos, e Victor do Atlético-MG.

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Tecnologia e reflexo fazem a diferença para goleiros nos pênaltis

Informações através de vídeos e treinamentos especiais dos goleiros obrigam atacantes a treinar mais

Ciro Campos, Daniel Batista e Márcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2017 | 17h00

Tecnologia, estatísticas e reflexo ajudam a explicar a boa fase de Cássio e Vanderlei nas metas de Corinthians e Santos, respectivamente. Ambos contam com muito estudo e treinamento forte para manterem a fama de serem pegadores de pênaltis.

O Estado conversou com os preparadores de ambos, que destacaram o trabalho para mantê-lo em boa forma e se tornarem um pesadelo para os cobradores de pênaltis. “Antes de cada jogo a gente pega pelo menos quatro cobradores do adversário e passa as informações de como eles batem para os goleiros, através de vídeos no celular”, contou Mauri Silva, responsável pelo trabalho com Cássio. 

“A internet ajuda a começar um processo de enumerar quantos pênaltis um jogador bateu do lado direito em uma situação importante. O Jadson, por exemplo, bateu seis pênaltis importantes e cinco deles foram do mesmo lado. A gente sabe que em uma final, por exemplo, ele deve bater na direita, porque é seu canto de segurança”, explicou Arzul, preparador de Vanderlei. 

As informações são passadas para os goleiros antes dos jogos, mas os preparadores precisam lembrá-los no momento da partida. “São muitas informações. Por isso, a gente tenta simplificar o máximo possível”, explica Mauri. Para evitar esquecimento, os preparadores avisam a outros jogadores ou fazem gestos para os goleiros lembrarem como o cobrador vai chutar. 

Mas tanta informação de nada valeria se os goleiros não treinassem intensamente para ter reflexo e saber esperar o momento certo para tomar a decisão. “Envolve capacidades físicas, potência, velocidade e agilidade. Isso fazemos diariamente”, disse Arzul. “O fato de os goleiros treinarem com os batedores de pênalti do time também ajuda”, ressaltou Mauri.

Junto com todo o suporte de treinos e informações, Vanderlei e Cássio conseguem brilhar graças à capacidade de raciocínio rápido e reflexo. Ambos esperam o chute do cobrador para saltar na bola.

“Muitos batedores esperam o goleiro decidir o canto e batem no outro. Se o goleiro fica parado, desestabiliza e o atacante tem mais chances de cobrar errado ou jogar para fora”, explicou Mauri. 

“Temos a intuição dos goleiros e isso não pode ser ignorada”, contou Arzul. 

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Especialista em pênaltis, Henrique Dourado defende estudo e treino

Para atacante do Fluminense, autor de cinco gols em cobranças, preparo é fundamental para ter sucesso no lance

Ciro Campos, Daniel Batista e Marcio Dolzan, O Estado de S. Paulo

15 de julho de 2017 | 17h00

O atacante Henrique Dourado, do Fluminense, é o maior responsável pelo aproveitamento de pênaltis no Campeonato Brasileiro não estar ainda menor neste ano. O artilheiro da competição marcou cinco dos nove gols em cobranças de penalidade e contou que estuda os goleiros adversários para manter seu alto índice.

"Os clubes possuem um departamento de análise de desempenho, que faz as observações pontuais e fundamentais. Assim como eu recebo material dos goleiros, sei que eles também têm o meu. Então é sempre seguir treinando forte para poder executar bem na hora necessária", afirmou o jogador. O estilo dele ao cobrar é de partir lentamente para a bola, olhar para o goleiro e decidir o lado da batida no último instante. 

Henrique preferiu não falar sobre o segredo de seu alto aproveitamento em pênaltis, mas disse que treinar com bons goleiros é fundamental. "Sempre disse que pênalti não é loteria.Tanto o batedor que acerta tem os seus méritos, como o goleiro que defende também", disse. "Gol de pênalti vale igual a gol do meio de campo, de cabeça, driblando todo o time. Tem de ter preparo e treino", disse.

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Weverton diz: 'Sabendo as características do batedor, te ajuda a controlar a ansiedade

Goleiro do Atlético-PR fala como consegue ter bom desempenho em cobranças de pênaltis

Entrevista com

Weverton, goleiro do Atlético-PR

Ciro Campos, Daniel Batista e Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2017 | 17h00

Goleiro campeão olímpico pela seleção brasileira, brilhando na decisão por pênaltis contra a Alemanha, Weverton acredita que os goleiros estão mais preparados e por isso, o desempenho em cobranças de pênaltis têm sido melhor. Em entrevista ao Estado, o jogador do Atlético-PR também destaca a necessidade de estudar o adversário, para tentar surpreendê-lo no momento da cobrança.

O Brasileiro está com um elevado número de pênaltis perdidos. É mérito dos goleiros ou culpa dos atacantes?

Acredito que os goleiros estão mais bem preparados. Hoje, avançamos muito nessa área e é muito mais fácil estudar os principais batedores. Isso tem ajudado quem defende e complica um pouco mais para quem corre para bater o pênalti, né? Para se ter uma ideia, muitos goleiros estão pegando cobranças batidas no meio do gol. Isso não acontecia e é resultado de estudo. 

Como especialista em defender cobranças, que tipo de preparação você considera importante para o sucesso do goleiro nos pênaltis? 

Além de muito treino, é preciso se dedicar em estudar o adversário. Sabendo as características do batedor, facilita muito. Te ajuda, inclusive, a controlar a ansiedade. A responsabilidade é de quem bate. Se você joga toda essa carga para o jogador que fará a cobrança, vai muito mais calmo para o lance. Calma e frieza são características importantes para qualquer goleiro e ela aparece muito mais nessas horas.

Você, como goleiro, costuma conversar com os batedores do Atlético-PR para trocar experiência sobre a melhor forma de evitar o desperdício de pênaltis?

Sim, conversamos sempre, porque facilita para o atacante saber como funciona a cabeça de um goleiro e, para a gente que está no gol, ajuda a identificar as características de um batedor. Por isso, ajudamos uns aos outros. Todo esse preparo, aliado ao instinto do goleiro no momento da tomada de decisão, tem dificultado para o batedor. Quanto mais recursos tivermos para defender, pior será para os cobradores, que terão de variar as cobranças e, nessa tentativa, estão sujeitos a cometer algum erro. Do outro lado, temos de ajudar os companheiros a colocar a bola para dentro. 

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