Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

'Pensei em ter o Doriva como auxiliar do Osorio', conta Aidar

Ex-presidente do São Paulo conta planos que tinha para o clube

Entrevista com

Carlos Miguel Aidar

Ciro Campos, Fausto Macedo, Luiz Antônio Prósperi, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2015 | 07h00

Nesta segunda parte da entrevista exclusiva de Carlos Miguel Aidar ao Estado, o ex-presidente do São Paulo detalha planos para o futebol e detalhes de reforços para a próxima temporada, como a contratação de um zagueiro e a engenharia financeira para ficar com Alexandre Pato. Um das ideias ainda era trazer Doriva para compor a comissão técnica em outra função.

Qual momento foi determinante para a sua decisão de renunciar?

O estopim foi a existência de uma gravação que até agora eu não ouvi. E não lembro exatamente do que eu falei. Mas é muito frustrante ter um amigo que leva um gravador escondido. Acho isso bastante desagradável. Mas enfim, paciência.

Em e-mail, o Ataíde te acusou de irregularidades em outras negociações, como a do Wesley e do Denilson.

Welsey foi negociado pelo Gustavo Vieira. Não foi por mim. Não sei se o Ataíde participou. Eu não participei. Denilson foi negociado pelo futebol profissional com dois agentes, dois empresários no meio, eu só assinei o contrato. É muito fácil falar as coisas. Eu quero ver provas. Ponha na mesa a negociação, a comissão, a participação, gravação, faça o que quiser. Mas quero ver provas. A partir do momento da dissidência com o Juvenal, foi uma enxurrada de acusações em cima da minha filha, da minha namorada, família. Foi um horror. Foi um desgaste tremendo. Se eu tenho um arrependimento hoje, é de ter voltado à presidência do São Paulo. Eu me arrependo disso. Família triste, perdi o escritório, clientes, perdi um amigo chamado Ataíde, que eu quis ajudar. Só me meti nisso porque quis ajudá-lo, porque eu sei que ele precisava. Essa é a história. Mas cadê a prova? Não adianta ficar falando. A internet é o veículo dos imbecis, como disse Umberto Eco. Mas ia ficar guerreando, sangrando na presidência e fazendo o São Paulo sofrer? Sempre pensei no clube em primeiro lugar. Torci feito um louco nesses jogos, agoniado para estar no estádio e gritar na hora do gol do Pato. Para mim isso me dói, me machuca e muito. Nunca pensei em chegar aos quase 70 anos desse jeito. Ao contrário. Eu estava em um colchão de conforto no meu escritório que era fantástico. Eu fundei o escritório. Para que deixei isso para passar o que passei no São Paulo?

O senhor se sente traído?

Sem a menor dúvida. Eu me sinto traído, desgostoso, desapontado, triste.

A escolha pelo Doriva foi sua?

Quando Osorio foi contrato eu tinha duas outras opções. Uma era o José Peseiro, português, e outra era o Doriva, com quem já tinha falado. Como ex-atleta do São Paulo, falou que tinha o sonho de dirigir o clube. Quando o Osorio estava começando a claudicar, falei para tirar o Milton, mandá-lo para a base e o Ataíde concordou. O plano era trazer o Doriva e prepará-lo para ser o auxiliar técnico do São Paulo para no futuro ser o técnico do time. Eu estava pensando no futuro. Sempre planejei, a vida toda. Mas o que aconteceu? Fiquei com um certo receio de menosprezar o Doriva ao oferecer o trabalho de auxiliar, mas pior do que isso, o Osorio ficou dependente do Milton. Inteiramente.

Dependente no quê?

Para andar em São Paulo, para escolher imóvel, para ir ao shopping, com as mulheres, para visita, para comprar roupa, pegar taxi, para ir ao museu, para jogar bola, pegar o filho, para ouvir samba, assar carne...para tudo. Ataíde e eu tínhamos planejado para que o Milton saísse e fosse para a base em 2016. O Milton é bom observador, tem uma capacidade em avaliar o potencial futuro de um jogador. Tem um olho clínico bom. Mas resolvemos deixar. Quando o Osorio começou com essa frescura de sair, liguei para o Doriva de novo e o chamei para conversar. Ele estava em Curitiba, com a Ponte Preta, e no dia seguinte, um domingo, o Chimello foi encontrá-lo em Vinhedo. Os dois trabalharam juntos no Ituano. 

Já sabia que estava de saída quando foi procurar o Doriva?

De jeito nenhum. Fui depor na CPI do futebol em uma quarta, em Brasília, depois me reuni com ele e a comissão técnica, quando acertamos os detalhes. Uma semana depois renunciei. Contei ao Doriva que o clima político estava pesado, ruim e que queriam a minha cabeça. Disse ao Doriva que ele era o treinador da preferência do Ataíde. Lembro que o Ataíde concordou com isso. O Doriva era um nome de consenso. Mas como a iniciativa partiu de mim, já ouvi dizer que estão querendo colocar o Paulo Autuori lá. Isso é especulação.

Antes de sair, estava negociando com algum jogador?

Eu pedi para o (José Eduardo) Chimello (gerente de futebol) sondar o Edcarlos, porque tem contrato vencendo no fim do ano e está em condições de assinar um pré-contrato. Mas quando eu vi que ia renunciar, pedi para o Chimello parar tudo.

E o Pato, será que tem chance de ficar?

O que estava estruturando é o seguinte. O Pato é detentor de 40% dos direitos dele. Na verdade, então, ele custa 60% de 10 milhões de euros. Então, para o São Paulo, custaria 6 milhões de euros. Eu acho que vale isso. O problema é que o clube não tem esse dinheiro. Mas se você consegue estrutura o fundo de investimento, faz uma captação, acho que vale o investimento para vender o Pato na janela de 2017. O prazo agora é 31 de dezembro, até essa data o São Paulo pode pagar 10 milhões de euros. Eu já tinha conversado com o Pato, aliás junto com o Ataíde, para ele baixar o salário dele, que está fora dos padrões. Ele teria que reduzir bastante para o clube fazer esse esforço de contratação.

Ele se manifestou favorável?

Bastante. Mas agora, pelo que eu li, parece que já não está mais entusiasmado. Soube que o presidente do Corinthians, Roberto de Andrade, falou que tinha que preservar o que era do clube. Estou achando que ele volta ao Corinthians. Esse negócio de perder jogador é desculpa. Quando se ganha um jogo tudo está bom. Se perde, a desculpa vira a bola, o árbitro e ninguém assume. Até foi bom desfazer de oito jogadores, porque assim o rodízio diminuía.

Ficou frustrado pelo Leco ter promovido o retorno de alguns desafetos seus?

O regime é presidencialista. Não posso ficar decepcionado ou feliz. Tenho que aceitar. Não me cabe julgar se foi bom ou ruim. Não está em mim essa faculdade. O Leco vai se cercar das pessoas que ele considera mais adequadas. O vice financeiro certamente será alguém indicado pelo Abílio Diniz. Eles tentaram me desestabilizar e se uniram em torno desse projeto. Agora que alcançaram o poder, vão ter que se organizar. Agora que estou fora, já não existe a razão comum.

Agora que passou tudo, pensa em reatar com Juvenal?

Não. O São Paulo para mim é uma página virada, deixou de existir. Tenho 14 cadeiras cativas, pago minha garagem no estádio, vou continuar vendo jogo do lugar que eu via. O São Paulo como direção é uma página virada, mas como amor continua palpitando.

Como fica o time para 2016?

É por isso que o São Paulo está investindo na base. Não tem caixa para fazer grandes contratações. O futebol brasileiro não comporta mais. Todos os times vão ter equipes mais modestas. Mesmo o futebol dos Estados Unidos, que cresce exponencialmente, paga muito mal. A grande tarefa do Leco é organizar financeiramente o São Paulo. Com o apoio do Abílio, isso será mais fácil, porque ele traz credibilidade ao mercado. Ele vai querer mandar na área financeira. Comigo ele queria ser, mas sem realmente ser, o presidente do São Paulo.

O São Paulo enfrentou um problema de vazar muitas informações. Isso te preocupou?

Muito. O São Paulo virou um BBB. Vai ser difícil achar quem era o maior fofoqueiro. Posso até cometer injustiça.

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