Daniel Teixeira|Estadão
Ex-jogador conta que chegou a beber dez caixas de cerveja por dia Daniel Teixeira|Estadão

Ex-jogador conta que chegou a beber dez caixas de cerveja por dia Daniel Teixeira|Estadão

'Eu bebia mais ou menos dez caixas de cerveja por dia', revela Cicinho ao 'Estado'

Em depoimento exclusivo, ex-jogador do São Paulo admite seu problema com o alcoolismo na tentativa de ajudar quem passa pela mesma situação no futebol

Cicinho, especial para , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Ex-jogador conta que chegou a beber dez caixas de cerveja por dia Daniel Teixeira|Estadão

Percebi que estava exagerando quando perdi o prazer de realizar meu trabalho, de jogar futebol. Sempre fui apaixonado por futebol. Quando Deus dá um dom e a gente não sabe administrar, é porque tem algo errado. Não tinha mais prazer em entrar em campo, treinar e concentrar. Eu tinha 30 anos e estava jogando na Roma, em 2010.

Então conheci minha mulher por intermédio de amigos e vi algo diferente. Estava acostumado a viver no meio de pessoas oferecidas. Quando você é atleta profissional bem sucedido, as coisas se tornam mais fáceis. Quando tive o primeiro encontro com minha mulher, notei algo diferente em mim e nela. Ela não dava moral para o meu status, era mais reservada. Vi que era pelo que sou e não pelo que tenho. Ela viu algo que nem eu sabia que tinha. Me despertou conhecer os princípios que ela tinha que eram voltados para a palavra de Deus, e foi assim que tive minha transformação.

Comecei a beber com 13 para 14 anos, quando fui para o Botafogo de Ribeirão Preto. Falaram que cerveja era legal, e eu tomei. Tudo começou com o primeiro gole e fui parar com 30 anos. Quase 20 anos bebendo. Até ir para o Atlético-MG era só cerveja, porque não tinha dinheiro. Depois que comecei a ter dinheiro, passei a beber de tudo. E cigarro eu fumei por 11 anos, de 1999 a 2010. Eu só fumava quando bebia, mas bebia, hein?! Todo dia. É engraçado que quando parei de beber e fumar, abria a lareira, que na Europa tem muito por causa do frio, caía maço de cigarro que estava escondido. Era doideira.

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Comecei a beber com 13 para 14 anos, quando fui para o Botafogo de Ribeirão Preto. Falaram que cerveja era legal, e eu tomei. Tudo começou com o primeiro gole e fui parar com 30 anos
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Cicinho, ex-jogador

Hoje me sinto realizado. Recebi um projeto para voltar a jogar pelo Vila Nova, de Goías. Mas sou realizado no futebol, estou tranquilo. Não desperta mais esse interesse em mim. O futebol foi uma fase na minha vida. Agora minha fase é mostrar meu testemunho e ajudar as pessoas a não caírem no caminho que caí para não chorarem lá na frente. Dou palestras motivacionais. Não tenho mais condições de jogar, minha mente é de ex-atleta, meu corpo já está acostumado. Se o Vila Nova quiser contar comigo para outra coisa, tudo bem. Mas dentro de campo não consigo mais. Tenho olhado muito o lado extracampo, me vejo com perfil de auxiliar técnico, tenho um perfil apaziguador.

Eu nunca fui um cara baladeiro. Nas casas onde morei, tinha um espaço como se fosse uma boate. Adaptei porque não gostava de me expor muito na rua. A vida que tinha não era uma vida prazerosa. Eu olhei para mim mesmo e falei 'não é isso que gosto, não é isso que Deus quer de mim'. E optei por uma transformação. Esse processo foi quando conheci Jesus.

Eu bebia mais ou menos dez caixas de cerveja por dia, e no outro dia eu parei de beber completamente. Foi um prazer tão intenso que não tem como explicar. A melhor explicação é olhar o Cicinho de oito anos atrás e o Cicinho de hoje. Minha conduta fala mais do que palavras. Quando a gente tem um encontro com Deus, com a fé que tenho, não existe etapas. Foi da noite para o dia.

A primeira vez que me expus fui muito criticado. 'Ah, o Cicinho está se fazendo de coitadinho'. Mas quando a pessoa fala abertamente, é porque ela superou todos os traumas. Quando tem trauma, não consegue se abrir completamente. Há oito anos não tenho problema com álcool e cigarro, não traio minha mulher, vivo os princípios que Deus me pede. Espero que as pessoas olhem pelo lado de um auxílio, porque é triste ver grandes atletas do futebol brasileiro e mundial com o poder de influenciar pelo lado bom, mas influenciando pelo lado ruim. Claro que não vou citar nomes. Mas é isso que pretendo: falar o nome de Deus por onde caminhar porque foi o que mudou minha vida e é o que muda a vida das pessoas.

Hoje eu ando e as pessoas falam que foram muito tocadas pelo meu testemunho, e isso é muito gratificante. As pessoas perguntam qual é meu maior gol, e eu costumo falar que foi conhecer Jesus como Senhor e Salvador da minha vida. Muitos acham que foi o gol contra o Palmeiras, mas não foi. Ali eu fiz o gol, mas tinha uma vida que estava caminhando para o buraco, bebendo, não era feliz. Hoje, não. Hoje sou completamente realizado. Parei de beber.

Essa vida é oferecida a todos, acho que é preciso colocar Deus acima de tudo. Tenho uma conduta de vida e faço o que Jesus faria. No momento em que é me oferecido algo, me pergunto o que Jesus faria com aquilo. É assim que vou vivendo, e isso se tornou um hábito. Sou um cara totalmente tranquilo, realizado e meu coração é aberto para falar porque superei todos os vícios que tinha e hoje meu prazer é contar meu testemunho.

O recado que dou é que Deus está acima de todas as coisas. O mundo pode parecer prazeroso, mas são prazeres momentâneos. O conselho que dou é: dê uma oportunidade para ouvir a voz de Jesus. Não tem como convidar um jovem se ele não der ouvido para Jesus falar quais são os planos. O conselho que dou é esse: ouça mais a voz de Deus do que o coração, porque o coração do homem é enganoso. Você pode construir uma história com qualquer profissão, mas, se não tiver um relacionamento com Deus, será mal sucedido internamente. 

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Um tabu no futebol brasileiro: alcoolismo

Corinthians e Palmeiras, que já perderam jogadores para a bebida, trabalham no sentido de "ensinar e conscientizar" seus atletas sobre os ricos do álcool na profissão. Tema ainda é difícil de ser abordado

Alessandro Lucchetti, especial para, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 04h30

Nesta reportagem, o Estado põe o dedo em um dos maiores tabus do futebol brasileiro, o alcoolismo. Carente de pesquisas e estudos estatísticos na área, muitos dos debates em torno do esporte giram em torno de percepções. Algumas válidas. Nos últimos anos, uma das impressões é a de que parcela considerável dos jogadores abusa do consumo de álcool. Garrincha é o mais famoso atleta a se dobrar para a bebida. Há casos como o do atacante Thalles, do Vasco, vítima de um acidente de moto aos 24 anos de idade. Lamenta-se também que outras promessas tenham sido tragadas pela escuridão das noitadas e do alcoolismo. Por fim, o ocaso lento de ex-jogadores como Mendonça entristece.

O assunto é tratado pelos clubes sempre com muita cautela. Ex-jogadores fazem palestras aos mais jovens e contam alguns de seus dramas com a bebida. No Palmeiras, Zé Roberto toma essa dianteira. Há cartilhas em clubes como Corinthians e Santos sobre o assunto, e outros mais. O passo mais difícil é identificar os casos. Famílias são avisadas quando isso acontece. Jô, ex-Corinthians, teve ajuda e se recuperou. Ele quase perdeu a Copa do Mundo de 2014 por causa da bebida.

O meia Mendonça debilitou a saúde, erguendo copos até morrer, em julho do ano passado, aos 63 anos. Comoveu sobretudo torcedores mais velhos do Botafogo, Santos e Palmeiras, que o alentaram nos anos 70 e 80. Infelizmente, desfechos similares a esse não são raros. Corinthians e Palmeiras são exemplos de clubes que se preocupam com o tema e apresentam regularmente aos jogadores profissionais e de base, em forma de palestras e discussõs, o perigo do consumo de álcool na carreira.

O primeiro desafio é descobrir os casos, envolver as famílias e convencer o atleta do problema. Joaquim Grava, médico do Corinthians de 1979 a 2003, hoje consultor do clube em ortopedia e traumatologia, tem a sensação de que o uso de álcool pelos jogadores brasileiros está se elevando.

"O consumo sempre foi grande. Quem não se lembra do caso do Sócrates? Mas está aumentando, acredito. O que mais me assusta são aqueles jogadores mais destacados das base no momento em que assinam o primeiro contrato polpudo, ganhando seus R$ 50 mil por mês. Muitos deles, se não tiverem estrutura familiar boa, já se acomodam e vão para o álcool como se não houvesse amanhã. Na minha forma de ver, essa supervalorização de promessas é uma das causas que melhor explicam a decadência do futebol brasileiro, e tem mais peso do que os problemas de calendário."

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Acho que o jogador em atividade faz parte de um grupo ao qual pertence também aquela juventude universitária que se embebeda diariamente. Qual é a diferença? Nenhuma
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Marco Aurélio Cunha, ex-médico do São Paulo e dirigente da CBF

Marco Aurélio Cunha, que foi médico e dirigente do São Paulo por anos, diverge do colega em alguns aspectos. Para ele, o tema é mais social do que esportivo. "O futebol é como qualquer outra profissão. Acho que o jogador em atividade faz parte de um grupo ao qual pertence também aquela juventude universitária que se embebeda diariamente. Qual é a diferença? Nenhuma. São jovens que querem aproveitar a pouca idade e se deslumbram com a descoberta daquilo que podem fazer sem o domínio dos pais. Isso não é alcoolismo, é um momento dos meninos e das meninas. Porém, parte daqueles que têm pais alcoólatras ou alguma predisposição para o vício acaba descambando para o alcoolismo".

O futebol está cheio de histórias de jogadores que se perderam no meio do caminho, ou reduziram esse caminho, por causa da bebida sem freio, sem consequênias. O ex-jogador Cicinho, do São Paulo e da seleção, fez um relato forte e firme sobre o problema ao Estado. Problema que ele teve durante quase 20 anos de sua vida. "Comecei a beber ao 13 anos. Não parei mais. Bebia até dez caixas de cerveja", conta. 

Marco Aurélio, hoje coordenador de futebol feminino da CBF, avalia que a impressão de que o consumo de álcool se elevou é consequência da infestação de posts em mídias sociais, obra de torcedores que patrulham a noite, munidos de seus celulares. "Temos hoje mais mecanismos fiscalizadores, vide o caso do Ralf. Fiquei com pena dele. Hoje as ruas estão cheias de testemunhas, que vão filmando a toda hora o que se passa", diz o dirigente, referindo-se ao acidente em que um veículo que conduzia o então volante do Corinthians atropelou um idoso que se encontrava em um ponto de ônibus na Água Rasa, zona leste. Segundo a defesa do atleta, um segurança é que estava ao volante.

EXTERIOR

Se faltam estatísticas brasileiras, talvez um trabalho internacional possa servir como referência. Um estudo divulgado em 2015 pelo FIFPro, sindicato internacional dos profissionais do futebol, proporciona uma noção sobre a extensão do quadro. Ouvido um universo formado por mais de 800 jogadores e ex-jogadores, retratou-se que 9% dos atletas em atividade e 25%

dos que já pararam de jogar reconhecem que consomem bebida alcoólica em excesso. A entidade elaborou um guia que contém sintomas de transtornos e oferece sugestões de encaminhamento para quem busca apoio.

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Já passamos da fase de ir buscar aqueles que sofrem com esse problema. Hoje esperamos que venham até nós. Funciona melhor
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Rinaldo Martorelli, presidente do Sindicato dos Atletas de SP

Presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo, Rinaldo Martorelli disse ao Estado que já conversou com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) com a intenção de elaborar um perfil do jogador de futebol do Estado, que contemple dados como suas origens, hábitos e até vícios, como o alcoolismo. "Mesmo que a pesquisa saia, acho que os dados sobre alcoolismo serão sempre subnotificados, porque o jogador tem dificuldade para assumir a dependência". Ele sempre acha que isso vai atrapalhá-lo na carreira. Há casos ainda em que o atleta, como Sócrates, não reconhece que precisa de ajuda. Ele morreu em dezembro de 2011, aos 57 anos. 

Martorelli diz que o sindicato acolhe os atletas que buscam apoio. É um jeito de tratar a dependência. "Já passamos da fase de ir buscar aqueles que sofrem com esse problema nos clubes. Hoje esperamos que venham até nós. Funciona melhor. O sigilo é total. Lembro que arrumei até internação numa clínica para o Jorge Mendonça (meia-atacante que brilhou sobretudo no Palmeiras e Guarani), mas ele fugiu no primeiro dia. Os que nos procuram estão mais dispostos a se engajar no nosso trabalho", diz o sindicalista, que afirma oferecer cursos, convênios com psicólogos e até o trabalho de coaches.

"Damos as condições, mas quem faz o esforço para sair dessa é o atleta e seus familiares". Jorge Mendonça morreu em 2006, aos 51 anos. Depois de ter colocado ninguém menos do que Zico no banco de reservas durante a Copa do Mundo de 1978, foi derrotado pelo álcool. O futebol brasileiro conta sem preconceito os problemas do passado, mas ainda falta aos clubes admitirem os casos do presente, de modo a poder ajudar quem precisa de forma mais transparente. Servir de exemplo.

CLUBES

Times grandes do Brasil possuem em seus quadros profissionais especializados em temas espinhosos. O alcoolismo é um deles. Depressão também. Há um trabalho inicial de percepção de todos eles com os atletas, principalmente os da base. Os quatro de São Paulo trabalham dessa maneira, por exemplo. O primeiro passo é identificar o problema nesse ou naquele jogador. E depois chamá-lo para conversar. Pais e familiares são sempre informados. O garoto participa de palestras, conta sua história até entender a dependência. Ou a necessidade de mudar. O álcool não é droga proibida no esporte, de acordo com a Agência Mundial Antidoping (Wada, em inglês).

Os clubes também destacam profissionais para falar com esses garotos. Eles dão palestras sobre o tema. Contam causos de suas próprias carreiras, de momentos em que foram seduzidos pelas noitadas e depois conseguiram voltar aos trilhos. No Palmeiras, Zé Roberto já deu testemunhos dessa natureza quando estava no Real Madrid, por exemplo.

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O que leva um atleta ao alcoolismo e como se livrar dele sem estragar a carreira?

Depoimentos de jogadores e ex-jogadores revelam o drama vivenciado em diferentes momentos da vida e suas consequências

Alessandre Lucchetti. especial para, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 04h30

O que leva um atleta ao alcoolismo? O que impede que um jogador de futebol que consome álcool em excesso, sem ser ainda alcoólatra, desenvolva o vício? A julgar pelos históricos de personagens com certa milhagem em mesas de bar, as companhias podem detonar uma carreira, assim como bons conselhos e orientações têm o condão de devolvê-la aos trilhos. , um dos grandes responsáveis pela conquista do último título do Brasileirão pelo Corinthians, em 2017, chegou a ter a imagem chamuscada por ser bom de copo. 

A facilidade para marcar gols diminuiu, e ele correu o risco de ficar fora da Copa do Mundo de 2014, mesmo tendo feito boa figura na Copa das Confederações do ano anterior. "Não era considerado um alcoólatra, até porque não bebia todos os dias. A bebida prejudica o desempenho nos treinos. Não tinha o comprometimento máximo, e os treinadores sempre avaliam isso num jogador", disse o atacante, que hoje defende o Nagoya, do Japão.

Para superar aquele momento, Jô contou com ajuda, muita ajuda. "Sem minha família, não teria conseguido. Minha mulher esteve ao meu lado e não permitiu que eu me entregasse. Também tive força de vontade para largar", conta o goleador, que abraçou a fé evangélica.

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A turma que leva ao divertimento hoje é maior. Com os salários que se pagam aos jogadores destacados, eles podem pagar a conta do bar de uns 20
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Marco Aurélio Cunha, ex-médico do São Paulo

A tendência ao alcoolismo pode se tornar mais forte quando o jogador não é acompanhado por uma mulher dedicada, como no caso de Jô, mas por figuras incapazes de oferecer conselhos úteis, como boa parte dos chamados "parças", um tipo de amigo mais comumente encontrável nos melhores momentos. "A turma que leva ao divertimento hoje é maior. Com os salários que se pagam aos jogadores destacados, eles podem pagar a conta do bar de uns 20. Imagine a quantidade de 'amigos' entrando em contato, chamando para a noite a todo momento", pontua Marco Aurélio Cunha, ex-médico do São Paulo.

Careca, campeão brasileiro pelo Guarani e pelo São Paulo e companheiro de Maradona no Napole, vê nas gerações mais recentes de atletas uma preferência por bebidas alcoólicas mais danosas. "A segunda-feira era o nosso domingo. No pós-jogo, já íamos para um boteco. Mas ficávamos mais na cerveja. Hoje não tenho contato com a molecada que está jogando, mas vejo nos bares muitos jovens bebendo destilados. É uma loucura essa coisa de tomar vodka com energético. Imagino que os jogadores atuais também tenham esse tipo de preferência. O destilado causa um efeito mais prejudicial, o corpo demora mais para se recuperar. Já a cerveja tem um grau alcoólico menor. Você vai urinando e eliminando aquilo."

Quanto aos requisitos físicos, o grande parceiro de Maradona reconhece que hoje é necessário ter um preparo atlético mais aprimorado. "O futebol atual é muito competitivo fisicamente. É força bruta ao longo de 90 minutos. Hoje, o cara talentoso dribla o marcador uma vez, mas o cara se recupera e volta. Esse cara que joga melhor tem de ter também um poder de arrancada para se desvencilhar do adversário."

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Às vezes saía à noite com os companheiros de equipe e só voltava ao amanhecer
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Zé Roberto, ex-jogador do Palmeiras

A adulação e os elogios fáceis que muitos pretensos craques recebem graças a um punhado de boas partidas criam autoimagens distorcidas. Essa é uma armadilha que compromete muitas carreiras, no olhar do médico Joaquim Grava. "Se o cara estiver no auge, ele acha que se garante sempre, bebendo ou não. Quando a vaidade supera a inteligência, o homem se perde", ensina.

Zé Roberto, lateral, volante e meia que defendeu Palmeiras, Santos, Portuguesa, Real Madrid e Bayern de Munique, entre outros, confessa que a atratividade da noite e do copo sempre cheio chegou a tirá-lo do prumo em duas ocasiões: bem no início da carreira, quando ainda jogava pela Lusa, e nos tempos em que viveu em Madri, Espanha. "Eu morava com a minha mãe em São Miguel Paulista, mas a Portuguesa passou a pagar o aluguel de um imóvel para mim no Cangaíba, um bairro por ali mesmo. Comprei nessa época meu primeiro carro, um Fusca 73 que equipei todinho. Às vezes saía à noite com os companheiros de equipe e só voltava ao amanhecer".

Uma bronca do treinador Cassiá fez o jogador refletir sobre as noitadas. "Ele me disse que, no treino, eu subia para apoiar e voltava de táxi. Como sempre tive grandes objetivos no futebol, percebi que poderia ficar no meio do caminho se não mudasse minha atitude", diz o jogador, que se aposentou e hoje exerce o cargo de embaixador, divulgando a marca Palmeiras em eventos e campanhas institucionais.

Em 97, o então lateral novamente tomou decisões que o prejudicaram. "Quando fui para o Real Madrid, eu me deslumbrei. Só queria sair e me divertir. Quando a gente passa a noite curtindo e bebendo, perde o foco. O descanso é importante para o atleta". Antes de assumir o cargo de embaixador do Palmeiras, Zé Roberto foi assessor técnico no mesmo clube, fazendo a ponte entre jogadores, comissão técnica e diretoria. Naquele período, pôde orientar garotos da base. "A pedagoga do clube chegou a me pedir para orientar um atleta da base que estava em situação difícil, abusando da bebida. E é claro que podemos ajudar. Os garotos sempre me perguntam como fiz para jogar por 14 anos na Europa, como pude atuar em alto nível até os 43 anos. Com uma resenha, uma palavra, fui capaz de mostrar ao rapaz que devemos colocar o profissionalismo em primeiro lugar." Cicinho tenta fazer o mesmo com seu depoimento.

Outro ex-atleta que se empenha para orientar jovens jogadores é Silas, que proferiu uma palestra no CT da base do São Paulo, em Cotia, bastante elogiada pelo psicólogo que lá atua, Gabriel Puopolo de Almeida. O tema foi pertinente. "A rapaziada de hoje idealiza muito o que é uma carreira no futebol, e acaba se frustrando. Nem todos vão virar um Kaká, um Ronaldinho Gaúcho, um Ronaldo Fenômeno. Quando se frustram, muitos acabam apelando para a bebida", diz o ex- jogador, que teve passagem marcante pelo São Paulo e foi convocado para duas Copas do Mundo (1986 e 1990).

Dono da Amplia Consulting, Silas tem conversado com a Federação Paulista de Futebol (FPF) para levar suas palestras a clubes do interior, nos quais os problemas com álcool, suspeita ele, são ainda mais recorrentes. "As frustrações desses atletas são maiores. Grande parte dos jogadores dessas equipes está sujeita a um calendário de jogos de apenas três meses. Ficam nove meses sem trabalhar. E a primeira coisa que fazem é filho. Com esses problemas, muitos deles acabam apelando para o álcool".

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Muricy revela falta de preparo para lidar com o tema e diz que clubes têm profissionais adequados

Categorias de base são monitoradas mais de perto nos clubes grandes, que têm estrutura e profissionais adequados para isso

Alessandro Lucchetti, especial para, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 04h30

O que os treinadores podem fazer para orientar os jogadores que acabam por incorrer no vício do alcoolismo? Na opinião de Muricy Ramalho, ex-treinador de São Paulo, o papel do técnico, nesses casos, é parecido com o de um volante limitado: tem de tocar a bola para alguém habilitado. "Os treinadores estão preparados para treinar o time e não para tratar de alcoolismo. Quando um problema desse tipo aparece, tem de ter um médico ou um psicólogo para intervir. Trabalhar em conjunto. Claro que o técnico pode conversar com o atleta, mas não tenho conhecimento para lidar com uma questão dessa natureza", admite Muricy. Ele questiona se outros treinadores têm.

"Acho que deve ser cada um na sua: o treinador não deve avaliar se a grama está alta ou baixa, isso é com o jardineiro. Também não posso falar sobre alimentação. Quem sabe disso é a nutricionista, e assim por diante", diz o hoje comentarista do SporTV.

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Já presenciei diversos casos de atletas com vício em álcool e drogas. Tentamos de absolutamente tudo para recuperar alguns deles
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João Paulo Sampaio, coordenador da base do Palmeiras

Felizmente, os grandes clubes têm estruturas para tratar o problema em sua base e no profissional. Desde 2011, a Lei Pelé prevê que, para que uma agremiação possa ter o Certificado de Clube Formador, é necessário que tenha em seu quadro alguns profissionais específicos, como psicólogos, assistentes sociais e pedagogos. Regiane Cristina Fernandes, assistente social do Corinthians, atua quando percebe mudanças de comportamento nos atletas da base. Seu trabalho é importantíssimo.

"Com o nosso olhar, conseguimos detectar um semblante mais triste, por exemplo. Nós conversamos com os atletas. Os técnicos ajudam. Além disso, o clube promove palestras. O Casagrande, ex-jogador, por exemplo, já falou para os atletas da base. O Sindicato dos Atletas de São Paulo também trabalha nesse sentido." Ocorre que o time ainda é tabu no mundo esportivo. E quem bebe nunca acha que bebe o suficiente para atrapalhar sua carreira, como contou ao Estado o ex-lateral Cicinho, do São Paulo e Roma.

João Paulo Sampaio, coordenador geral das categorias de base do Palmeiras, lamenta que nem sempre o clube consiga evitar que os garotos desenvolvam o vício e permaneçam nele. O primeiro passo, e talvez o mais difícil, é descobrir os casos. "Já presenciei diversos episódios de atletas com vício em álcool e drogas. Tentamos absolutamente de tudo para recuperar alguns deles, mas, quando não querem, infelizmente é bastante complicado reverter." 

Segundo Sampaio, engajam-se nesse esforço não apenas os funcionários do clube, mas profissionais de fora também. "Procuramos ajudá-los de todas as maneiras para que saíam dessa situação." Os pais são importantes e sempre chamados nesses casos.

Família

A parceria com os pais é uma das estratégias adotadas por Ricardo Barros, assistente social do Santos, para lidar com problemas como o consumo abusivo de álcool. "Antes de mais nada, os pais de jogadores jovens devem ser informados de que o futebol tem processos excludentes e altamente seletivos. 99% dos jogadores vão ficar pelo caminho. Se não sinalizarmos isso, pais e filhos acabam se frustrando, e isso pode ser perigoso", diz o profissional. "Procuramos oferecer o atendimento o mais individualizado possível."

O psicólogo Gabriel Puopolo de Almeida, que atua no CT da base do São Paulo, mune-se de informações passadas por treinadores, massagistas, roupeiros e fisioterapeutas, entre outros, para detectar quadros que possam requerer intervenção. "Precisamos investigar a vida do atleta para saber o contexto que envolve um quadro de consumo excessivo de álcool", pondera Almeida, que não adota uma linha repressiva. Ao ingressar no CT de Cotia, os jogadores recebem uma cartilha com diversas orientações de conduta, e o tema álcool é abordado.

"Procuramos desenvolver atletas que pensem, não que obedeçam. Formamos os atletas, aqueles que serão promovidos ao profissional e os que não serão, para serem livres. A ideia é tratá-los como adultos, mas entendê-los como garotos", completa Puopolo. Os clubes gostumam tratar desses casos em sigilo absoluto.

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O álcool não é mais substância proibida pela Agência Mundial Antidoping

O nível de teor alcoólico no organismo de um atleta não o pune mais em competições oficiais desde 2018

Alessandro Lucchetti, especial para, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 04h30

O álcool faz parte da lista de substâncias dopantes elaborada pela Wada (Agência Mundial Antidoping)? Não mais. Na atualização publicada em 2018, o álcool foi retirado da relação. "Depois de cuidadosa análise e de consultas extensas, o álcool foi excluído da lista. A intenção dessa alteração não é comprometer a integridade ou segurança das modalidades nas quais o uso de álcool é preocupante, mas endossar diferentes maneiras de reforçar o banimento do uso de álcool nesses esportes", diz o comunicado da agência.

Segundo o médico Fernando Solera, presidente da Organização Antidoping da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos e Coordenador da Comissão Médica e de Combate à Dopagem da CBF, são realizados exames para detecção de álcool em procedimentos de perfil de análise básico em modalidades em que o uso da substância possa acarretar riscos, como automobilismo, motovelocidade, motonáutica, tiro com arco, tiro esportivo e pentatlo moderno.

Curiosamente, o primeiro atleta flagrado num controle antidoping realizado durante uma Olimpíada foi o pentatleta sueco Hans-Gunnar Liljenvall. Ele foi desclassificado da prova durante os Jogos da Cidade do México, em 1968, justamente porque seu organismo continha níveis de álcool acima do limite permitido. Obviamente, o álcool não oferece qualquer tipo de vantagem para o competidor que faça uso dele. "No processo de absorção do álcool pelo estômago, é promovido o aparecimento de ácido lático, que desencadeia a fadiga. Essa é a explicação biológica para a queda de rendimento esportivo do atleta que bebe", explica Solera.

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