Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

'Perdi a motivação e parei. Voltei e posso jogar em time grande'

Destaque do Corinthians no início da década passada, atacante que costumava brilhar em jogos grandes quer resgatar carreira vitoriosa

Entrevista com

Gil

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2015 | 07h05

Ele já calou o Morumbi tomado de são-paulinos e palmeirenses. Foi bicampeão brasileiro e paulista, campeão mundial, dentre outros feitos com a camisa do Corinthians. Hoje, tenta retomar a carreira no Juventus, que disputa a terceira divisão do Paulista. Em entrevista exclusiva ao Estado, o atacante Gil, com 34 anos, revela o motivo de ter parado por quatro anos e o que fez ele voltar aos gramados.

Gil no Juventus é um recomeço ou uma aventura?

Eu vim jogar futebol, que é o que sei fazer. Cansei disso por um tempo. É cobrança em cima de mim desde os 12, 13 anos. Por isso resolvi parar. Vi que não estava mais dando o resultado e isso me desanimava. Conquistei muita coisa na minha vida, sempre me cobrando pelo meu diferencial técnico. Por isso, sei que posso contribuir ao Juventus.

Qual o motivo de sua carreira não deslanchar como todo mundo esperava?

Você precisa ter oportunidades no momento e no time certo. Foi assim no Corinthians. Cheguei até 2003 onde ganhei tudo que disputei e jogando em grandes times. Depois caímos de produção, porque a equipe não tinha qualidade. Mas não reclamo, não. Sou um privilegiado. Tem jogadores muito melhores que eu que ficaram pelo meio do caminho. Eu poderia chegar mais longe? Poderia, mas vários outros também poderiam e não conseguiram.

Os quatro anos parados foram por falta de oportunidade ou desistiu do futebol?

Eu tinha me aposentado, na verdade. Tinha 30 anos, sei da minha responsabilidade e da força do meu nome. Não dava para ficar me arrastando e jogando só com o nome. Resolvi voltar a jogar e escolhi ser em São Paulo por ser a minha casa. Fiz sucesso e cresci aqui. Entrei em campo e a torcida do Juventus me apoiou. Talvez se fosse em outro estado, seria xingado de gordo, aposentado e fariam alguma gracinha.

Nenhum clube grande te fez proposta? Sabe o motivo?

Não sei. Eu tive insucessos no Flamengo e no Inter, onde a concorrência era muito grande e quase não joguei lá. E nunca fui de ficar me oferecendo para clubes. Todos os lugares que joguei, fui convidado.

As baladas também atrapalharam sua carreira?

Eu conheço um monte de jogador que vai para a balada e dá conta do recado. Tem jogador que já foi eleito várias vezes o melhor do mundo, inclusive. Não estou me comparando a ninguém, mas acho hipocrisia ficar falando de bebida. Tem jogador que não gosta de balada e nunca ganhou nada. Pode atrapalhar, mas faz parte da vida de vários jogadores e fez parte da minha. Você escolhe a vida que quer levar e eu escolhi jogar futebol e nas horas vagas, saia para me divertir. Nunca me privei, porque diversão faz parte da vida, mas também nunca deixei de cumpri um dia de trabalho em todos os clubes que passei.

Em 2004, você saiu do Corinthians após a chegada da MSI. Isso atrapalhou sua carreira?

A MSI chegou com uma proposta e eu não fazia parte dela. Terceirizaram o futebol do Corinthians e quem estava no clube se prejudicou. Ganhei tudo que disputei desde a base e queria ter um respeito que a empresa não teve. Por isso achei que era o momento de sair e hoje sou bem visto pelo corintiano.

O Citadini (Antônio Roque Citadini, diretor de futebol na época) disse que você seria melhor do que o Kaká. Poderia ter sido?

Claro que não. O Kaká tinha um nível acima do meu. Tinha a comparação por causa da rivalidade, mas o Kaká tem uma qualidade única até hoje. Eu também era diferenciado, mas não chegava no nível dele, tanto que ele foi eleito o melhor do mundo. Fico feliz por ter um dia chegado a ser comparado com um cara que foi o melhor do mundo.

No ano passado você esteve no ABC e foi dispensado sem jogar. O que aconteceu?

Fiquei quatro anos parado. Eu precisa de um tempo para voltar a ter condições físicas. Treinei dois meses e resolveram me dispensar. Sei da minha capacidade e, independente de onde eu esteja, vou procurar dar o meu máximo.

Tem condições de voltar a jogar em um time grande?

Claro. A técnica eu não perdi. Com uns dois ou três meses de treino, tenho certeza que possa jogar em qualquer clube.

Chegou a passar necessidade no tempo que ficou parado?

Não. Parei porque eu tinha condições de me manter e resolvi esperar por coisas melhores. Chegou um momento que deixei de buscar só a condição financeira. Hoje, quero jogar e vivo de forma simples, sem ostentar nada. Eu estava feliz mesmo sem jogar. Eu poderia estar em algum clube por aí, recebendo e enganando como muitos fazem. Preferi parar do que ficar enganando.

Tem muita gente enganando?

Demais. Por isso o futebol brasileiro estão tão ruim. As pessoas só pensam no dinheiro e são poucos que entram em campo pensando em jogar futebol. Veja se alguém fala do salário do Messi. Ele entra em campo e joga futebol. Aqui no Brasil todo mundo só quer saber quando vai receber e quando vai para a Europa. Eu poderia estar enganando em algum clube por aí e ganhando meu 'dinheirinho' na reserva.

Você nunca foi jogar em um clube por dinheiro?

Fui para o Japão (em 2005 defendeu o Verdy Tokyo) atrás de dinheiro e não fui feliz. Se eu pudesse voltar no tempo, jamais teria deixado o Corinthians. Estaria lá até hoje e escreveria uma história como o Rogério Ceni tem com o São Paulo. Mas decidi sair e após rodar, cansei, me acomodei e parei.

Em 2006, você deu uma entrevista após o título do Mineiro pelo Cruzeiro onde, ao ser perguntado se valia tudo na comemoração, você respondeu: 'só não vale dar o c...'. Isso te persegue até hoje?

Todo mundo brinca comigo. Tinha torcedores do Cruzeiro tentando tirar meu meião e ele estava preso com fita crepe. Os caras ficaram puxando minha perna e aquilo que irritou um pouco. Aí queria xingar eles e acabei falando aquilo na rádio. Acontece.

Planos para o segundo semestre e carreira?

Não tenho planos. Sou novo e ainda posso jogar muito. Agora quero buscar condicionamento e torcer para não ter lesão. Difícil fazer planos de longa data. O plano, no momento, é fazer o melhor para o Juventus.

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