Pergunta sobre violência irrita delegação brasileira em Zurique

Jornalista que indagou presidente da CBF sobre o tema foi vaiada por brasileiros.

Thomas Pappon, BBC

30 de outubro de 2007 | 19h15

O tema violência no Brasil causou polêmica e um grande mal-estar nesta terça-feira no auditório da Fifa, pouco após o anúncio de que o país será sede da Copa do Mundo de 2014.O imbróglio foi causado por uma pergunta dirigida ao presidente da CBF, Ricardo Teixiera, por uma jornalista canadense, logo no início da entrevista coletiva realizada depois do anúncio."Gostaria de saber o que o país fará em relação à violência, tendo em vista que o país está entre os que tem o maior numero de homicídios do mundo", perguntou a jornalista, que foi alvo de uma onda de apupos e vaias.Antes de responder, Teixeira quis saber a nacionalidade e o órgão para o qual a jornalista trabalhava. Ao saber que era canadense e que trabalhava para a agência Associated Press, Teixeira partiu para a reação."Não tivemos nenhum problema no Pan, graças ao policiamento intenso", afirmou. "Agora, problemas como nos Estados Unidos, onde matam adolescentes em escolas, pelo menos isso não tem no Brasil."A resposta arrancou aplausos da delegação brasileira, formada por governadores, ministros e membros da CBF, e de jornalistas brasileiros."Brasileiros são assassinados em vários países", disse Teixeira, que também alfinetou a jornalista ao dizer que "jogadores foram agredidos no Canadá", em uma referência ao choque entre policiais e jogadores chilenos durante o Mundial Sub-20 realizado no Canadá, em julho.O próprio presidente da Fifa, Joseph Blatter, visivelmente incomodado com a pergunta da repórter, pediu a palavra para falar sobre o assunto."Quando atribuímos a Copa a África do Sul, a primeira pergunta que veio foi sobre a criminalidade no país", disse Blatter. "Agora, depois de concedermos a Copa ao Brasil, a primeira pergunta é a mesma. Isso é uma falta de respeito à Fifa e aos nossos convidados."Ao deixar a sede da Fifa, o presidente Lula defendeu a resposta de Teixeira e disse que "tem gente que acha que nos outros países não pode acontecer nada". "Tem pessoas que acham que as coisas (como a Copa) só podem ser feitas nos Estados Unidos e na Europa", afirmou. "Em se tratando de evento de futebol, o Brasil não deve nada a ninguém. Vamos dar um exemplo como demos na segurança do Pan". O governador de São Paulo, José Serra, lembrou à BBC Brasil que "a queda na taxa de homicídios no Brasil tem sido acentuada".Serra disse que São Paulo, assim como as outras eventuais cidades sedes da Copa, adotarão esquemas especiais para garantir a segurança do evento, similares aos esquemas adotados pelas autoridades durante a realização dos Jogos Pan-Americanos, em julho passado."Sempre se dá uma atenção especial em matéria de segurança. Em caso de Copa, as coisas são reforçadas, haverá um policiamento especial", disse o governador. "Tenho plena convicção de que não haverá nenhum problema."Para o governador paulista, a pergunta da jornalista canadense "foi grosseira, do jeito que foi formulada"."Até porque o Brasil não é um país que tenha um monopólio especial da violência. E não há, no Brasil, experiências de natureza terrorista", acrescentou Serra.A autora da pergunta, a jornalista Erica Bulman, disse à BBC Brasil que não considerou a pergunta "inapropriada"."Se fosse para ter apenas perguntas brandas, não deveriam chamar o evento de entrevista coletiva", disse Bulman.A canadense, de 40 anos, disse que a afirmação de que o Brasil estaria entre os países com o maior número de homicídios do mundo foi baseada em dados do próprio Ministério da Justiça que apontam que mais de 55 mil pessoas morreram em homicídios no país em 2006.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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