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Pergunte ao futebol

Esporte revela que a situação da pandemia no Brasil segue grave

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

22 de novembro de 2020 | 05h00

Se você tem alguma coisa que suspeita não vá bem, algo sobre o qual há indícios pouco claros e informações às vezes um pouco desencontradas e que você tem dificuldade em seguir, pergunte ao futebol. Em geral ele resolve todas as suas dúvidas. Nele as coisas acontecem na superfície.

De algum tempo para cá, comecei a notar, por várias vagas suspeitas, que a pandemia do coronavírus estava ganhando corpo outra vez. Não se tratava de algo muito claro, ao contrário, chegava aos poucos. Ouvia-se um comentário aqui, outro engrossando ali. Do Ministério da Saúde (sic) vinha o silêncio habitual, que só fazia aumentar as conjecturas. Essa é a hora de consultar o futebol, porque o que os ministros não podem ou não querem divulgar, o futebol revela.

Está, já há várias semanas, claro como água o estado da pandemia no Brasil nesse momento. Na verdade vou me referir mais a São Paulo, mais próximo e familiar. Subitamente equipes inteiras voltaram a se infectar. Jogadores de Santos e Palmeiras, principalmente, foram caindo um a um até a proporção atingir estágio alarmante. No último jogo o Palmeiras tinha mais de dez ausências pelo coronavírus. Foram chamados jogadores do sub-20 às pressas para compor a equipe.

É isso que quero dizer quando digo que o futebol revela o que as meias-verdades teimam em encobrir. Em vez dos variados boletins diários com dados sobre vítimas, é melhor procurar saber a escalação das equipes que vão jogar à noite. Aliás, o futebol revela também a verdade sobre o confinamento e o senso de responsabilidade de jogadores bem pagos e conhecidos. Pois, se as regras e os “protocolos” dos clubes funcionam, se os cuidados são tomados, como explicar essas infecções num mesmo time, senão por contaminação dentro do próprio grupo?

Brasileiros, desaconselhados até pelo presidente da República, em geral não levaram muito a sério essa coisa de confinamento e distanciamento social. Isso está claro desde o inicio. E jogadores de futebol são legítimos exemplares da média dos brasileiros. Logo podem ter saído em festas, encontros e baladas. O resultado pode ser esse. Não sei o que vai acontecer. Há quem diga que a pandemia vai voltar a explodir com números alarmantes. Se isso se verificar, não acho que o futebol deva ser fechado. E preciso levar em conta o tamanho dessa atividade para pensar em fechá-la.

Temo que o número de pessoas, famílias e grupos sociais que dependem do futebol seja imenso, muito maior do que supomos, porque foi crescendo em silêncio ano a ano. É tanta gente envolvida nisso que a paralisação seria uma catástrofe social de grandes proporções. Ele sustenta espiritualmente larga quantidade de pessoas, pois os jogos não se prejudicaram em qualidade com a pandemia, alguns ficaram até melhores e são como uma ressurreição momentânea, uma volta por 90 minutos de um mundo seguro, que já parece distante como uma lembrança. 

A falta do jogo da quarta- feira à noite nas casas faria desabar o ânimo e moral de muita gente. Seria uma perda a mais. E muitos já perderam muito. Reaver o quotidiano é quase impossível. O momento é delicado porque há razões de todos os lados. Até a loucura da multidão de torcedores do São Paulo se aglomerando às portas do Morumbi, desafiando a doença, pode invocar suas razões. É um momento que qualquer ato tem e não tem sentido.

Nessa quadra difícil me chama atenção o silêncio da CBF. Olímpico, recuado, como se nada tivesse a ver com isso, limita-se a elaborar um calendário insano e vigiar para que todos o cumpram. A CBF, como as demais federações regionais, parece não ter absolutamente nada a dizer sobre a pandemia. Nem uma ideia, nem uma sugestão, além, talvez, de “protocolos” frios e neutros com regras que mal se cumprem.

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