Murad Sezer/Reuters
Murad Sezer/Reuters

Pandemia é a deixa para reformular o futebol brasileiro e seu calendário, dizem especialistas

'Estado' ouve dirigentes, treinadores e ex-jogadores para saber quais os caminhos possíveis para o esporte depois da covid-19

Ricardo Magatti, especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2020 | 07h52

Com as competições esportivas paralisadas em razão da pandemia do novo coronavírus e em meio a um cenário cheio de incertezas provocado pela covid-19, algumas mudanças têm sido especuladas no futebol, especialmente depois que o presidente da Fifa, Gianni Infantino, disse que o momento pode ser propício para uma reforma global da modalidade. O suíço-italiano que comanda a entidade comentou sobre a proposta de campeonatos mais curtos, com menos jogos e equipes, mas com maior interesse e equilíbrio.

O Estado ouviu dirigentes, treinadores e ex-jogadores para saber quais os caminhos para o futebol a curto prazo, assim que o disseminação do vírus for controlada e os torneios forem retomados, e também mais a longo prazo, nos próximos anos. Dentro de possíveis mudanças, personalidades divergem quanto à unificação do calendário brasileiro com o calendário europeu, mas todos concordam que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deve ajudar clubes e atletas para aliviar o impacto da crise. Também avaliam o momento como oportuno para melhorar o futebol brasileiro.

O diretor executivo de futebol do Grêmio, Klauss Câmara, entende que a adaptação do calendário brasileiro ao do que está em vigência na Europa, que começa em agosto e termina em maio, seria positiva para os clubes e jogadores por aqui já neste ano, assim que os torneios forem retomados. "Esse impacto do coronavírus no futebol significa uma oportunidade para todos nós de termos um calendário unificado, de debater sobre vários pontos importantes. A unificação, principalmente, seria um grande avanço, ainda mais diante desse cenário caótico causado pela pandemia. Poderíamos fazer, por exemplo, um calendário de junho deste ano a maio do próximo", avaliou o dirigente gremista.

Para Klauss, as principais vantagens de ter datas semelhantes às da Europa no Brasil são a redução do número de jogos, a ampliação do período de pré-temporada e a possibilidade de realizar vendas de jogadores em início de disputa, o que traria, na visão do dirigente, aumento considerável de receita com a permanência de atletas importantes até o fim da jornada.

Seu colega do Inter prefere a cautela. "É difícil opinar sobre algo que a gente não tem experiência. Temos de levar em conta as nossas peculiaridades, nosso clima, aspectos culturais, férias coletivas. Tem de fazer um estudo mais aprofundado. Prefiro não ficar opinando de forma superficial sobre algo não experimentado", disse o diretor executivo do Internacional, Rodrigo Caetano.

Ex-técnico de Botafogo, Santos e Corinthians, Jair Ventura endossa a análise de Klauss. "Não sei o pensamento dos clubes, mas se o modelo é a Europa, talvez seja melhor repensar e ter essa mudança agora. Na Argentina já é assim. Quando time brasileiro vai jogar a pré-Libertadores, está com 15 dias de pré-temporada enquanto um time chileno está no meio do ano", afirmou o técnico, atualmente sem clube.

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Muitas vezes, os jogadores não têm a menor condição de jogar, mas entram em campo porque são profissionais e têm caráter. Isso mudaria se houvesse menos jogos, não de quarta e domingo, sem tempo de preparação adequada, como é hoje
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Milton Cruz, treinador

Milton Cruz, ex-coordenador e ex-treinador do São Paulo, considera que é possível se acostumar sem problema a um novo calendário no Brasil. O técnico, desempregado no momento, destaca que o atual formato traz prejuízo financeiro aos clubes e atrapalha o desempenho dos jogadores. "Muitas vezes, os jogadores não têm a menor condição de jogar, mas entram em campo porque são profissionais e têm caráter, mesmo sabendo que não podem render bem. Isso mudaria se houvesse menos jogos, não de quarta e domingo, sem tempo de preparação adequada, como é hoje", salientou.

Pentacampeão mundial com a seleção brasileira, Luizão apontou para a necessidade de mudanças na estrutura do futebol nacional, mas alertou que elas devem acontecer de forma gradativa. "O coronavírus chegou e agora é que vão falar em mudanças? Tem de pensar bem antes para programar o futebol. Não é por causa da pandemia que tudo tem de ser mudado. O futebol tem de ser mudado gradativamente, aos poucos. Na Europa acho que é mais fácil de mudar, mas aqui no Brasil é complicado fazer isso de uma hora para outra", analisou o ex-jogador de Corinthians e Palmeiras.

No cenário de caos estimulado pelo coronavírus, os clubes mais afetados são os menores. Nessa realidade está inserido o Santo André, time de melhor campanha do Campeonato Paulista e que ficará sem 95% do elenco entre abril e maio, quando se encerram os contratos dos atletas, da comissão técnica e até do diretor executivo Edgard Montemor.

"Temos de mirar nossos esforços para sair dessa crise de saúde da melhor forma possível para depois a gente ver o que pode ser feito. Unir forças é fundamental e os atletas não só olharem para si. É hora de todo mundo se unir para fazer o futebol melhor", disse Montemor, que chamou a atenção para a necessidade de se criar um calendário capaz de abranger os times de menor expressão também. "Todo mundo cobra que os clubes sejam administrados como empresas, mas como se faz um planejamento para uma competição de três meses, sendo que depois no quarto mês do ano tem de mandar todo mundo embora para manter as contas em dia? Os clubes vão se planejando de quatro em quatro meses. Isso não existe. Não é saudável. Vejo que é hora de a gente pensar um calendário de que todos possam participar", ressaltou.

IMPACTO ECONÔMICO

A CBF demorou, mas decidiu oferecer um auxílio financeiro a seus filiados. Depois de receber documentos de clubes das Séries C e D solicitando ajuda em meio à pandemia, a entidade, que registrou receita de R$ 957 milhões em 2019, anunciou nesta segunda-feira o repasse de R$ 19 milhões, a fundo perdido, para socorrer 68 times da Série D e mais outros 20 da Série C do Campeonato Brasileiro, além de dar assistência a mais 52 clubes de futebol feminino e às 27 federações estaduais a superarem as perdas com a paralisação dos campeonatos.

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Está muito claro que a CBF colabora pouco com os clubes. Não tenho receio de falar. Eles colaboram zero ou quase nada
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Rodrigo Caetano, diretor do Grêmio

Mesmo assim, a entidade que rege o futebol brasileiro tem sofrido críticas por sua postura. "Está muito claro que a CBF colabora pouco com os clubes. Não tenho receio de falar. Eles colaboram zero ou quase nada. Você vê os clubes clamando por um auxílio, por uma ajuda e a CBF calada. Tem de se discutir a verdadeira função da CBF. As ligas estão ajudando os clubes nos outros países e aqui nada. Em que momento a confederação vai entrar para ajudar o futebol brasileiro?", questionou Rodrigo Caetano.

O executivo do Grêmio salientou a necessidade da criação de medidas que possam suavizar o impacto nas finanças dos clubes. "Acredito que todos os órgãos responsáveis por gerir o futebol como um todo têm de elaborar planos que sejam saudáveis para os clubes brasileiros, que possam contribuir para aliviar esse caos financeiro. Toda e qualquer medida para minimizar esse impacto econômico tem de ser apresentada e executada"./Colaborou Ciro Campos.

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