Sam Robles| CBF
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Pia Sundhage tem cargo ameaçado na seleção feminina após resultados ruins e convocações equivocadas

Brasil tem compromissos nesta semana, diante de Espanha e Hungria, em preparação para a Copa América; com novo presidente, CBF começa a rever sua gestão

Roberto Salim, especial para o Estadão

06 de abril de 2022 | 10h00

A técnica Pia Sundhage começa a ter questionado o seu trabalho na seleção brasileira feminina. Maus resultados e algumas convocações equivocadas minam a permanência da treinadora sueca no cargo até os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024. Pior. Ela não poderá contar com Marta, que machucou o joelho e terá até dez meses de recuperação após cirurgia. Sem sua camisa 10, as chances de o Brasil se dar bem são menores. Alguns resultados da seleção já são questionados. Há quem acredite que o técnico Arthur Elias, do Corinthians, Emily Lima, treinadora do Equador, ou ainda Lindsay Camilo, a técnica do Atlético Mineiro, poderiam substituir Pia com vantagens. Isso sem contar que o trabalho de Simone Jatobá no Sul-americano Sub-17 do Uruguai foi de um sucesso estrondoso e garantiu a presença das meninas no Campeonato Mundial de outubro, na Índia.

Será que chegou a hora de um técnico brasileiro voltar ao comando da seleção feminina? A maioria dos profissionais ouvidos pelo Estadão pensam que não. Defendem que Pia deve cumprir o ciclo olímpico. “Não creio que agora seja a hora da Pia deixar o cargo, embora ela não seja mais unanimidade, porque o time brasileiro tem tropeçado ultimamente", acredita o técnico Marcelo Frigério, de 28 anos dedicados ao futebol feminino. "Se fosse uma brasileira, já tinha caído. Mas ninguém discute o currículo dela. É que temos profissionais que poderiam, sim, estar à frente da nossa seleção".

Atualmente, Marcelo dirige a seleção do Paraguai e acredita que se fosse para mudar, o nome de Arthur Elias teria de ser o escolhido pela CBF. "Sem dúvida, pelos resultados que tem obtido nos últimos tempos, a indicação do Arthur é indiscutível". O técnico corintiano, através da assessoria de imprensa do clube, não quis dar entrevista. "É semana de clássico com o São Paulo", justificou o assessor antes do empate em 1 a 1, na partida disputada domingo, no Parque São Jorge.

Já a treinadora Emily Lima, um outro nome de destaque entre os treinadores nacionais, disse que não se sentia confortável para falar sobre seleção. Emily é responsável pela equipe nacional do Equador. Ela já esteve à frente do time brasileiro, mas foi substituída em 2017, após dez meses de trabalho – na época, Vadão foi reconduzido ao cargo e entrou em seu lugar. Muitos disseram que Emily deveria ter permanecido no cargo. Isso provocou mal-estar na CBF, que agora passa por reformulação em seu quadro diretivo, com a escolha de novo presidente após o afastamento de Rogério Caboclo por assédio moral e sexual.

Lindsay Camila também tem um currículo e tanto para mostrar. Ela dirige o Atlético Mineiro, mas passou boa parte da carreira de jogadora no futebol francês e tem a licença da Uefa em seu histórico. "Mas não acho que devam mexer com a Pia agora. Acho que ela deve cumprir o ciclo, mas todos nós sabemos que a paciência com o treinador é curta, é pequena".

O técnico Maurício Salgado treina o Inter de Porto Alegre. Ele tem 25 anos de dedicação ao futebol feminino e sabe que os resultados definem muita coisa no comando. Ele também não é favorável à interrupção do trabalho de Pia, independentemente do que acontecer nos amistosos contra Espanha e Hungria. "Eu confio no trabalho dela", disse Maurício, que acredita apenas que o futebol brasileiro não pode abdicar de sua identidade. "É sempre bom importar ideias novas e adaptar ao nosso modo de praticar o futebol".

Simone Jatobá, técnica da seleção sub-17, que mostrou um futebol empolgante no Campeonato Sul-americano realizado no Uruguai, não entra na discussão. Prefere se resguardar. Ela vê o futuro do futebol nacional em jovens atletas como Jonson, Dudinha, Carol, Júlia, Aline e até nas goleiras Leilane e Elu. "Já estamos pensando no Campeonato Mundial Sub-17 na Índia, que vai ser realizado em outubro".

Ocorre que, no fundo, todos concordam que esperavam mais do trabalho na técnica sueca, mas que ela ainda precisa de tempo para conseguir resultados e ajudar a consolidar o futebol feminino no Brasil. A categoria avançou muito, mas carece de melhores resultados. Não se sabe, no entanto, se Pia terá mais esse tempo. Pelos corredores da CBF existe muita frustração com os resultados alcançados pelo Brasil até o momento.

As reclamações contabilizam a falta de pulso com o elenco, lembrando do caso que envolveu a goleira Bárbara às vésperas do jogo que eliminou o Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio, contra o Canadá. Existe ainda a sequência de resultados negativos, como no torneio da França, no qual o Brasil empatou dois jogos, contra Finlândia e Holanda, e perdeu para a França, precipitando a queda no ranking na Fifa. "É uma das piores posições do futebol feminino do Brasil na história", assegura um dirigente que pede para não ser citado.

Pia também foi a primeira treinadora a perder um torneio amistoso para uma seleção sul-americana, em derrota para o Chile, nos pênaltis, em 2019, no Pacaembu. Outro episódio que não caiu bem na diretoria foi a manutenção de Formiga no banco de suplentes na festa de despedida da atleta, em Manaus. E, mais recentemente, um fato que muitos consideraram falta de tato no trato com as revelações do Brasil. "Ela excluiu Giovana Queiroz da seleção principal no momento em que a jovem promessa relatava os abusos psicológicos que sofreu no Barcelona por optar em defender o Brasil".

Muito se discute ainda a ausência de algumas jogadoras que se destacam no futebol nacional, como o veto à Gabi Zanotti, que continua brilhando no Corinthians. Aqui, a técnica Lindsay, do Atlético Mineiro, entra na conversa: "Eu concordo em 90% com a lista de convocadas da Pia, mas eu trocaria pelo menos duas jogadoras", comentou Lindsay, sem falar se seria o caso ou não da inclusão de Gabi Zanotti no grupo.

Em algumas entrevistas, Pia ainda criticou o nível do Campeonato Brasileiro Feminino. E isso também pesou contra ela, que comentou que as jogadoras que atuam no País não têm o mesmo rendimento físico das que jogam no exterior. E citou como exemplo a ala Tamíres, do Corinthians - Pia recebeu resposta do técnico corintiano Arthur Elias, que rebateu as afirmações da sueca e deixou claro não concordar com suas afirmações.

Enfim, o tempo vai responder se Pia Sundhage deve ou não prosseguir o seu trabalho. Os resultados dos dois amistosos na Europa podem ser fundamentais para a manutenção da técnica sueca no cargo. E agora com um agravante para os amistosos dos dias 7 e 11: Marta se machucou. Ela lesionou o joelho esquerdo em partida do seu time americano, o Orlando Pride, e vai passar por uma cirurgia comandada pelo doutor Craig Minzer, lá mesmo na Flórida - informação prestada em comunicado do Orlando Pride. Este é um tipo de lesão que leva em média de cinco a dez meses para a recuperação. Isso significa que muito provavelmente na Copa América da Colômbia, no mês de julho, Marta não estará em condições de vestir a camisa da seleção.

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