Picerni vive melhor momento da carreira

O grande reconhecimento do trabalho que Jair Picerni desenvolveu desde que chegou ao Palmeiras, em janeiro, veio de Marcos. Tão logo o árbitro Heber Roberto Lopes encerrou a partida contra o Sport, sábado à noite em Garanhuns, o goleiro correu em sua direção para agradecê-lo e apontá-lo como grande comandante da conquista da Série B. Minutos depois, refeito das cambalhotas que deu no gramado do Gigante do Agreste e da alegria incontida pela conquista do título mais importante de sua carreira, o treinador voltou a afirmar que está vivendo o melhor momento de sua carreira. E, ao mesmo tempo em que dividiu os méritos com todos os jogadores, lançou um desafio aos que ainda duvidam de sua capacidade."Pergunte ao Sérgio, que tem um currículo repleto de glórias, e ao Marcos, que já ganhou até Copa do Mundo, se eles viveram algum momento mais emocionante do que esse? Ganhar a Série B vale mais do que vencer Campeonato Paulista. Consegui colocar em prática o meu projeto de trabalho. E bom projeto é isso aí. Termina em título. O ano foi maravilhoso, vontade nunca faltou. Todos aqui estão realmente de bem com a vida", festejou o treinador. Picerni realmente conseguiu impor seu método. E, para isso, jamais abriu mão da simplicidade, que o caracteriza também fora de campo. Embora seu vocabulário não seja tão rico quanto o de Leão ou Vanderlei Luxemburgo, soube como ninguém comandar vários jovens que só agora estão descobrindo o gosto da fama."Aqui não houve espaço para a vaidade. Quem realmente estava a fim teve chance de crescer profissionalmente. Afinal, isso é Palmeiras.Junto com a grandeza do clube, conseguimos criar uma família de homens vencedores. Vou terminar o ano muito feliz e com a alma lavada. E podem ter certeza de que não vou mudar minha personalidade só por causa desse título. Minha ´vidinha´ vai continuar igual, ao lado da família na minha casinha em Vinhedo", afirmou Picerni.Contestado durante anos por ser um treinador de pavio curto, Picerni também aprendeu a controlar seus impulsos. Um trabalho que contou com o apoio da esposa Fernanda, com quem vive desde 1969, e que apresentou resultados efetivos. "Ela me mostrou a necessidade de se contar até dez sempre que me sentisse ofendido para não tomar atitudes que poderiam me complicar depois. E acho que aprendi a lição. Soube conviver com as críticas que fazem parte da rotina de quem fica exposto à mídia o ano todo."Mas é na análise fria dos números que Picerni se apóia para festejar o ano mais importante de sua vida como técnico. Afinal, foram 21 vitórias (sendo 10 fora do Palestra Itália) e apenas três derrotas em 34 jogos disputados na Série B. O time ficou em primeiro lugar nas três fases da competição e exibiu o melhor ataque entre os 24 participantes, com 76 gols marcados."O plano foi montado em cima de ousadia e do amor à camisa, afinal o Palmeiras é grande. E os torcedores souberam entendê-lo e apoiá-lo, sempre se manifestando com opiniões inteligentes. O mérito desse título é deles, que, sem dúvida, fizeram a diferença", elogiou o treinador.Picerni vai mais fundo ao explicar a metodologia do trabalho que colocou em prática. "Nunca cobrei qualidade, mas jamais deixei que a vontade fosse deixada de lado. Afinal, subir de divisão era o grande objetivo da vida de cada um que fez parte desse grupo. Agora, todos estão consagrados. Mas não fácil administrar as pressões que sofremos principalmente no começo do campeonato, quando o grupo ainda estava em formação." A lembrança da primeira partida contra o Brasiliense, disputada no dia 26 de abril e que terminou empatada em 1 a 1, também não sai de sua cabeça. "Aquele jogo foi como o pulo do gato, representou o início de uma campanha que entrou para a história. Depois, todos foram se unindo. E aos poucos, o título foi sendo conquistado, sempre com muita naturalidade. Fazendo uma reflexão de tudo o que aconteceu, hoje vejo que as coisas realmente aconteceram do jeito que eu queria?, contou.Mas a família Picerni pode sofrer uma grande baixa nos próximos dias. O treinador já foi assediado pelo Kashima Antlers, do Japão, e não descarta a possibilidade de respirar novos ares em 2004. Tanto que desconversou quando perguntado se não valeria a pena prosseguir no Palestra Itália para tentar conquistar a Série A do Brasileiro. "Sinceramente não sei quem arrumou essa proposta para mim. Aliás, se for verdadeira, acho que poderiam mandar pelo menos uns 30% a título de adiantamento para a minha conta. Hoje estou sendo reconhecido por tudo o que passei aqui, mas deixo o meu futuro nas mãos de Deus. Aliás, vou viajar para Fátima, em Portugal, para agradecer por tudo o que passei nesse ano inesquecível."

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