Chales Platiau/Reuters
Chales Platiau/Reuters

Platini vai ser candidato à presidência da Fifa nas eleições de 2016

Francês, que votou pelo Catar, promete reformas na entidade

JAMIL CHADE / CORRESPONDENTE EM GENEBRA, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2015 | 08h59

Michel Platini concorrerá à presidência da Fifa, em eleições marcadas para o dia 26 de fevereiro de 2016. Fontes próximas ao francês confirmaram ao Estado que o ex-jogador realizou consultas em Zurique e em São Petersburgo para colher apoio, costurar uma aliança com algumas das principais regiões do mundo e, assim, decidir que seu momento chegou. Principal adversário de Joseph Blatter por anos, Platini não quer se apresentar apenas como um representante da Uefa e já deu indicações de que pode atender a pedidos dos cartolas da Conmebol em troca de votos.

Nesta quarta-feira, as federações nacionais já poderão receber uma carta sobre sua posição definitiva. Um anúncio deve ocorrer até quinta. Com 60 anos, Platini caminha para completar uma carreira inédita. Foi um dos jogadores mais premiados de sua geração, treinador, organizador do Mundial de 1998 na França e presidente da Uefa. Mas não são poucos os que duvidam de sua capacidade de promover uma reforma numa entidade em que ele mesmo foi o vice-presidente por quase uma década.

O francês ainda votou pelo Catar para sediar a Copa de 2022. Mas garante que não vê problemas com sua opção e rejeita qualquer insinuação de compra de votos. Ele também rejeitou boicote contra a Copa de 2018 na Rússia, depois que Vladimir Putin invadiu parte da Ucrânia. No ano passado, depois de receber um relógio de luxo de presente da CBF e ser ordenado a devolver o "agrado" pela Fifa, Platini indicou que não o faria. Dentro da Uefa, ele ainda evitou falar de assuntos como a publicação de salários e limite de mandatos para cartolas.

Mas insistirá que será a pessoa que fará a reforma que a Fifa precisa. Como o Estado revelou semana passada com exclusividade, ele considera que, diante da fragilidade da Conmebol inundada por escândalos de corrupção, cabe à Europa voltar a ocupar o poder no futebol mundial. Blatter, apesar de suíço, era visto como representante do "resto do mundo" e uma continuação do reinado de João Havelange. Uma vitória de Platini, portanto, representa a volta da Uefa ao poder do futebol mundial pela primeira vez em 40 anos.

Estado apurou que, até agora, a CBF não deu qualquer sinal à Platini de um eventual apoio do Brasil ao francês. Mas a Conmebol estaria interessada em ouvir dele uma garantia de que uma eventual reforma da Fifa não afetaria os interesses dos sul-americanos, como a publicação de salários dos cartolas e a adoção de ficha limpa. Platini ainda tem uma forte resistência na África, já que é visto como representante dos interesses europeus no futebol. Jerome Champagne, ex-alto funcionário da Fifa e que também se candidatou ao posto de presidente da entidade em maio, acredita que dar o poder do futebol mundial ao atual presidente da Uefa pode minar o futebol sul-americano e de outras regiões.

Platini, por esse motivo, mergulhou nos últimos dias em consultas com dirigentes de diferentes partes do mundo. Há uma semana, ele esteve reunido com o presidente da Conmebol, Juan Napout, em Zurique para acertar uma aliança.

REFORMA

Um dos pontos centrais da busca por votos será a retribuição de Platini a federações de fora da Uefa. A Conmebol, por exemplo, quer garantias de que uma futura reforma da Fifa não significará a perda de poder dos sul-americanos. Mas a entidade com sede no Paraguai também não quer se ver obrigada a ter de adotar medidas como a publicação de salários e implementar ficha limpa aos dirigentes, além de limites de mandatos.

Em maio, uma parte do continente já votou contra Blatter, entre eles o Uruguai. Mas Marco Polo Del Nero, presidente da CBF, manteve o apoio ao suíço. Apesar de estar disposto a negociar o que será a reforma da Fifa, Platini se apresenta como a pessoa que pode trazer "nova credibilidade" para a entidade. Na Uefa, porém, ele ampliou os torneios e tornou a Liga dos Campeões na maior competição de clubes do mundo. Mas manteve seu salário em sigilo e evitou colocar limites de mandatos aos dirigentes.

O francês já havia pedido a renúncia de Blatter antes mesmo das eleições de maio, alertando que a entidade não poderia continuar da mesma forma. “Estamos matando o futebol”, alertou. “Basta. Estou farto dessa situação”, disse. Entre os candidatos que terá de enfrentar, a lista promete ser longa. Ali bin Hussein, da Jordânia, e o magnata da Hyundai estão no páreo. Zico enviou ainda uma carta para a CBF para pedir que seja oficialmente apresentado ao cargo.

Platini, caso vença, assume uma entidade sem credibilidade e assolada por casos de corrupção. Pessoas próximas ao francês chegaram a alertá-lo de que seria mais adequado esperar mais quatro anos, tempo suficiente para que um novo presidente "limpasse" a entidade. "Platini terá de conviver com uma entidade que ainda pode sofrer muito nas mãos da Justiça", revelou um dos seus principais aliados, na condição de anonimato.

Ele também vai defender uma revisão do que é a Copa do Mundo. "Eu acho que um volume grande demais de dinheiro está sendo gasto na organização de torneios como a Copa e acho que isso precisa ser examinado no futuro", disse em entrevista exclusiva ao Estado em julho de 2014.

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