Políticos "descobrem" o futebol

O Distrito Federal ainda não tem um time de futebol de grande tradição. Mas os políticos descobriram que ser cartola ou patrono de um deles pode render muitos votos e garantir mandatos. O Brasiliense, que hoje à noite disputa a final da Copa do Brasil com o Corinthians, pertence ao senador cassado Luiz Estevão (PMDB), que é também dono do estádio onde o time joga - o Cerejão, de Taguatina, segunda maior cidade-satélite da capital, com cerca de 350 mil habitantes. O Gama, até a final da Copa do Brasil o mais conhecido no País, sempre foi apadrinhado por políticos. Esteve sob o comando do PFL de Brasília, que patrocinou a ação na Justiça que garantiu o Gama na primeira divisão do futebol brasileiro no ano passado. Antes, foi presidido pelo deputado distrital Agrício Braga (PFL). No momento, está sob o manto protetor do deputado federal Paulo Octávio (PFL). Ele era amigo de Luiz Estevão. Mas brigaram em 1994, quando Estevão impediu que fizesse coligações com partidos importantes e, mesmo com mais de 30 mil votos, não conseguiu índice suficiente para conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados. São ricos empresários. Disputam todos os espaços possíveis: no futebol, na construção civil, na revenda de automóveis e na política. Brigaram até pela amizade do ex-presidente Fernando Collor, companheiro dos dois na adolescência, na fase adulta, nas corridas clandestinas de carros pelas ruas de Brasília. Foram eles, Luiz Estevão e Paulo Octávio, que em 1989 avalizaram o suspeito empréstimo de US$ 5 milhões de financeiras do Uruguai, para que Collor desse início à sua campanha, a chamada "Operação Uruguai", investigada pela CPI de Paulo Cesar Farias, o PC, e pelo Ministério Público. Paulo Octávio tem uma estação de TV, o canal 6, repetidor da Rede TV!, comprado recentemente dos Diários Associados. No sábado, o deputado abandonou o terno e a gravata, esqueceu os temas políticos e transformou-se em comentarista de futebol. Como a TV Globo abriu mão de transmitir a final da Copa Centro-Oeste entre o Goiás e o Gama, a televisão de Paulo Octávio pediu e conseguiu o direito de mostrar o jogo para Brasília. Segundo o deputado, a compra das imagens e o deslocamento de duas equipes para Goiânia custaram R$ 40 mil. De dentro do estúdio, os que assistiram a partida pela TV puderam ver um comentarista sem nenhum cacoete. No intervalo, Paulo Octávio repetia que o Gama viraria a partida (estava perdendo por 1 a zero), que acabou em 3 a 0 para o Goiás. Os anúncios foram todos concentrados nas empresas de Paulo Octávio: a construtora, o grupo empresarial, a revendedora de veículos. "Quando a equipe retornar, estarei no Gama esperando-a", disse o empresário e político, durante seus comentários. Como consolo pela derrota do Gama na final da Copa Centro-Oeste ficou a promessa de Paulo Octávio, dita no ar, de que o estádio do time de futebol - o Bezerrão - será totalmente refeito. Paulo Octávio encomendou ao arquiteto Rui Ohtake o projeto de reestruturação do estádio e já o entregou à direção do Gama. O Bezerrão terá lugar para 42 mil torcedores em cadeiras individuais. Ao mesmo tempo, o novo estádio terá shopping, escolas públicas, mini-hotel e espaço para cursos profissionalizantes. Será um dos mais modernos do País. O deputado disse que a reforma será feita pelo governador Joaquim Roriz, que na próxima semana dará início ao processo de licitação da obra. Custará entre cerca de R$ 20 milhões e R$ 30 milhões. "Não vou participar da concorrência", disse Paulo Octávio. Segundo ele, R$ 10 milhões já podem ser utilizados imediatamente, porque a bancada de deputados e senadores de Brasília destinou R$ 5 milhões do Orçamento da União para o estádio do Gama; Roriz deu outros R$ 5 milhões. Agora, o governo de Brasília complementará o restante.

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