Igor Emorim/ SPFC
Futebol pode ter que recomeçar após pandemia com portões fechados Igor Emorim/ SPFC

Por dinheiro da TV, times querem Brasileirão com 38 rodadas mesmo com fim em 2021

Clubes teriam que renegociar contratos caso haja mudança de formato do principal torneio nacional

Andreza Galdeano, Leandro Silveira, Wilson Baldini Jr. e Raul Vitor, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

20 de abril de 2020 | 04h30

Divulgada em fevereiro, a tabela do Brasileirão previa o início da competição no primeiro fim de semana de maio. Essa programação já não faz mais sentido em um cenário de paralisação do futebol nacional em função da pandemia do coronavírus, mas não há dúvidas de que o regulamento será mantido, com a disputa de 38 rodadas. E o fortalecimento dessa posição tem motivação especialmente financeira.

A reportagem do Estado consultou os 20 clubes participantes do Brasileirão e a postura deles é unânime para que o sistema de pontos corridos, implementado em 2003, seja mantido na próxima edição, ainda que a temporada seja encerrada no começo de 2021. É, inclusive, a mesma conduta adotada pela CBF. “A gente descarta completamente o mata-mata ou o modelo europeu”, avisa o secretário-geral Walter Feldman.

Essa possibilidade de fim tardio foi fator fundamental a levar os clubes a concederem férias aos elencos em abril, decisão ampliada na última semana, quando os 40 times das séries A e B deram mais dez dias de recesso aos jogadores - o período inicial era de 20 -, com a retomada das atividades previstas apenas para maio.

O apego dos clubes ao regulamento tem razão além da meramente esportiva. Afinal, em um cenário de perda de receitas com bilheterias, patrocinadores e programas de sócio-torcedor, cresce em importância o valor a ser auferido com o contrato pelos direitos de transmissão. Reduzir o Brasileirão a menos do que as 38 rodadas previstas significaria renegociação e diminuição dos ganhos com um acordo que sempre foi importante para as finanças dos clubes e agora se torna ainda mais fundamental.

“O campeonato tem de ser no formato original, até porque devemos ter uma queda de receita muito grande em relação a público, talvez com jogos com portões fechados no início do campeonato. É importantíssimo que tenhamos o dinheiro da televisão. E ela já sinalizou que pode fazer uma redução proporcional do valor a ser pago caso o campeonato não seja disputado em 38 rodadas”, afirma Sérgio Sette Câmara, presidente do Atlético-MG.

O problema é que para o Brasileirão ser reajustado ao calendário, outras mudanças serão necessárias. Quando o futebol nacional parou, os campeonatos estaduais e regionais, caso da Copa do Nordeste, ainda estavam em disputa, assim como a Copa do Brasil, a Copa Libertadores e a Sul-Americana.

Mudar o formato de disputa dos Estaduais seria a mais óbvia. E embora a ideia principal seja concluir as disputas, que deverão ser retomadas assim que houver condições seguras, até por demandar deslocamentos menores, alguns times defendem alterações caso esses torneios prejudiquem o Brasileirão em turno e returno.

"O Coritiba entende que os estaduais devem retornar apenas caso não prejudiquem o calendário de 38 datas para o Campeonato Brasileiro", afirma Samir Namur, presidente do Coritiba, em opinião que é replicada pelo Atlético-GO.  "O carro-chefe do futebol brasileiro são as competições nacionais. Devemos priorizar o começo e recomeço do Brasileirão e Copa do Brasil. Os Estaduais não precisam ser extintos, mas devem se adaptar ao calendário do futebol nacional", diz o clube que conseguiu o acesso à elite do futebol brasileiro no ano passado.

Mas a posição majoritária entre os clubes é de que os estaduais sejam finalizados dentro de campo, ainda que com alguns pequenos ajustes em seu regulamento. "Sou a favor de que os campeonatos estaduais concluam no formato atual, no caso da Copa do Nordeste, também. O máximo que poderia acontecer de mudança seria reduzir uma data e fazer final em jogo único em função de calendário", diz Marcelo Paz, presidente do Fortaleza.

Assim, com pretensão de não reduzir drasticamente os jogos, uma tendência pode ser espremê-los no calendário, diante do tempo perdido das últimas semanas. Há, porém, limitações para isso, como a determinação que exige um espaçamento de 66 horas entre uma partida e outra. Os clubes que aceitam a redução desse prazo ressaltam que isso só será possível com a anuência de autoridades médicas e dos próprios jogadores.

O presidente da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf), Felipe Augusto Leite, já sinalizou a possibilidade de diminuição desse intervalo entre jogos. A CBF vê a possibilidade como real, um “instrumento excepcional” para ser usado em um “momento excepcional”, como argumenta Feldman.

“Vamos usar todos os instrumentos para terminar em dezembro. Mas quando a gente estende as férias, significa que talvez tenhamos de jogar depois do réveillon, se for necessário, para acomodar as datas. Com aval, você pode reduzir o tempo porque os elencos não são só de 11 jogadores”, acrescenta.

Porém, muitos clubes veem essa possibilidade com reticência, especialmente pelo aspecto da logística. "Para o Sport, que é do Recife, isso é uma loucura. Somos uma das equipes mais distantes do Sul e do Sudeste. Seria extremamente prejudicial encurtar o tempo entre os jogos. Teríamos que fazer uma logística de deslocamento absurda, com tempo de descanso mínimo para os jogadores. Seríamos muito prejudicados, isso não seria bom", argumenta Lucas Drubscky, executivo de futebol do Sport.

Há também a preocupação que essa medida extrema aumente a disparidade entre os clubes, favorecendo os que possuem elencos mais numerosos e qualificados. "Acredito que culturalmente os nossos atletas não estão acostumados a isso e eu entendo como sendo uma atitude totalmente 'antifisiológica', por ser um intervalo muito curto para um desgaste muito grandes que os atletas têm durante os jogos. É uma atitude antidesportiva e alguns clubes de maior elenco poderiam ser beneficiados", avalia Marcelo Almeida, presidente do Goiás.

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Clubes avaliam formato de disputa de torneios e intervalo entre os jogos no País

Confira como os clubes se posicionaram diante dos debates para como será a retomada do futebol após coronavírus

Andreza Galdeano, Leandro Silveira, Wilson Baldini Jr. e Raul Vitor, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

20 de abril de 2020 | 04h30

Com a paralisação do calendário do futebol nacional em março, por causa da pandemia do coronavírus, ajustes precisarão ser feitos para que o calendário da temporada 2020 seja cumprido. A reportagem do Estado ouviu nos últimos dias os clubes participantes do Brasileirão e há uma grande unanimidade: a Série A deve ser disputada no formato de pontos corridos, com 38 rodadas, em modelo que vem sendo adotado desde 2003.

Há discordâncias, porém, sobre como e se devem ser concluídos os campeonatos estaduais, embora a opinião majoritária seja de que os torneios tenham um fim, desde que não atrapalhe a disputa do Brasileirão. Além disso, os clubes são reticentes sobre a possibilidade de redução do período de descanso de 66 horas entre uma partida e outra.

Confira abaixo:

ATLÉTICO-GO

O carro chefe do futebol brasileiro são as competições nacionais. Devemos priorizar o começo e recomeço do Brasileirão e Copa do Brasil. Os Estaduais não precisam ser extintos, mas devem se adaptar ao calendário do futebol nacional.

Não concordamos. 72 horas já é um período curto para recuperação. O Atlético apoia um tempo maior para os atletas poderem treinar visando o melhor futebol possível. Isso será discutido quando for confirmado a volta do futebol brasileiro.

O Atlético Goianiense apoia o campeonato com 38 rodadas e apenas essa fórmula para o campeonato mais importante do país.

ATLÉTICO-MG (Sérgio Sette Câmara, presidente)

O Atlético é a favor da conclusão do Estadual. Se eventualmente for necessário reduzir os jogos das semifinais e da final, de dois jogos para um, totalizando quatro, com os da fase de classificação, o Atlético está de acordo.

Prefiro que seja respeitado o prazo do descanso mínimo estipulado. Isso não foi feito ao deus-dará, foi com uma análise, com controle de médicos, fisioterapeutas e fisiologistas, colaborando para que se estipulasse um período mínimo de descanso. Entendo que os clubes que não tiverem como atender esse prazo, utilizem outros atletas. O elenco não é formado por apenas 11 jogadores. Ano passado, nós, independentemente do prazo mínimo de descanso, utilizamos em diversos jogos do Campeonato Brasileiro um time misto.

O Campeonato Brasileiro tem de ter o formato original de 38 rodadas, até porque devemos ter uma queda de receita muito grande em relação a público, talvez com jogos com portões fechados no início do campeonato. É importantíssimo que tenhamos o dinheiro da televisão. E ela já sinalizou que pode fazer uma redução proporcional do valor a ser pago caso o campeonato não seja disputado em 38 rodadas. O Atlético entende que o campeonato precisa ter 38 rodadas, ainda que avance por janeiro e até fevereiro.

CEARÁ (Robinson de Castro, presidente)

É a favor do retorno dos estaduais no formato original.

Não temos posição firmada sobre redução o período entre um jogo e outro.

O Brasileiro terá 38 rodadas

CORINTHIANS

O Corinthians junto aos demais clubes e as entidades responsáveis estão discutindo  alternativas para a volta do futebol sem colocar em risco a saúde e segurança de todos.

O clube vai cumprir as regras dos campeonatos, seguindo o calendário que for adequado diante do atual momento do mundo e não abre mão do campeonato brasileiro de pontos corridos com  38 rodadas.

CORITIBA (Samir Namur, presidente)

Não há outra hipótese de retorno que não seja com o mesmo regulamento, uma vez que os campeonatos estaduais já estavam na metade final e faltam apenas seis rodadas. Entretanto, o Coritiba entende que os estaduais devem retornar apenas caso não prejudiquem o calendário de 38 datas para o Campeonato Brasileiro.

Essa medida (redução do período de descanso) está longe de ser a ideal, pois o prejuízo físico e técnico para os atletas será grande. Nesse sentido, por exemplo, não jogar mais os estaduais é preferencial a reduzir o tempo de descanso.

Manter o regulamento de pontos corridos e as 38 rodadas é prioridade máxima, seja pelo lado desportivo, seja pelo lado financeiro (manutenção dos contratos de transmissão, que são a maior fonte de receita da maioria dos clubes).

FORTALEZA (Marcelo Paz, presidente)

Sou a favor de que os campeonatos estaduais concluam no formato atual, no caso da Copa do Nordeste também. O máximo que poderia acontecer de mudança seria reduzir uma data e fazer final em jogo único em função de calendário.

Sou contra a diminuição da quantidade de horas de um jogo para o outro. Isso é totalmente desumano e não indicam em lugar nenhum do mundo. Os clubes do Nordeste ficariam ainda mais prejudicados em função dos deslocamentos.

Totalmente a favor do Campeonato Brasileiro em 38 rodadas, devem fazer de tudo para preservar esse formato que é um sucesso e já está comercializado com emissoras de TV e patrocinadores.

GOIÁS (Marcelo Almeida, presidente)

Primeiro precisamos saber em que momento o campeonato vai voltar e se nós teremos esse campeonato estadual, porque tudo ainda é uma grande dúvida. Não sabemos se voltamos e quando voltamos. Ainda é muito precoce discutir se manteremos ou não o formato original do campeonato.

Não concordo, sou radicalmente contra essa diminuição de intervalo entre os jogos. Não acho que essa seja a melhor forma de nós tentarmos acelerar o término do campeonato. Eu penso muito mais em manter da forma como está e prolongar as datas, mesmo que seja tendo que virar a data de um ano para o outro. Acredito que culturalmente os nossos atletas não estão acostumados a isso e eu entendo como sendo uma atitude totalmente "antifisiológica", por ser um intervalo muito curto para um desgaste muito grandes que os atletas têm durante os jogos. É uma atitude antidesportiva e alguns clubes de maior elenco poderiam ser beneficiados.

Esse detalhe (mudança do regulamento do Brasileirão) eu também não concordo. Particularmente acho que as datas devem ser mantidas e não concordo em tentarmos encurtar o campeonato para solucionar o problema. Acho que as 38 datas devem existir e contratualmente nós temos isso firmado com a Globo e a redução poderia implicar em menores faturamentos.

GRÊMIO

Respeitando as decisões e protocolos estabelecidos pelas autoridades públicas e principalmente sanitárias, somos a favor que os estaduais sejam decididos no campo, adaptando o regulamento à necessidade do cenário que estamos vivenciando.

O tempo de descanso deve ser mantido, 72h. Para que seja menos, deve haver um protocolo médico e a concordância dos atletas.

O formato deve ser mantido  com as 38 rodadas, até às vésperas do Natal, já que o período de férias está sendo concedido por motivo de força maior nesse mês de abril.

INTERNACIONAL (Alessandro Barcellos, vice-presidente de futebol)

Sou a favor da conclusão dos estaduais.

Somos contra o intervalo de 48 horas entre as partidas porque vai dificultar muito a recuperação dos jogadores.

O Inter é a favor do campeonato com 38 rodadas.

PALMEIRAS

O Palmeiras irá disputar todas as competições, honrar com os seus compromissos esportivos e espera poder entrar em campo o mais rapidamente possível. Entretanto, isso apenas ocorrerá quando existir liberação das autoridades de saúde competentes e um ambiente totalmente seguro para os atletas, comissão técnica e demais colaboradores. Qualquer outra hipótese que for discutida nesse momento não passará de mera especulação

SANTOS

O Santos Futebol Clube está atento às movimentações relacionadas não somente ao formato do Campeonato Brasileiro de 2020, mas também ao prosseguimento do Campeonato Paulista. O Clube pretende analisar propostas e possíveis alterações, ocorridas em virtude da pandemia do novo Coronavírus, em conjunto com todas as agremiações envolvidas nas respectivas competições. Em todas as hipóteses o Clube manterá a postura de que, em qualquer movimentação no sentido de retorno às competições, terá que seguir as orientações de preservação a vida

SÃO PAULO

O São Paulo quer voltar a competir o quanto antes, porém, sempre de acordo com as orientações dos órgãos de saúde.

Obviamente o Brasileiro de 38 rodadas já foi discutido, acordado e vendido, é o modelo ideal.

SPORT (Lucas Drubscky, executivo de futebol)

Mudar forma de disputa de competição (o estadual) já iniciada não cabe. Ou se encerra sem vencedor ou se termina. Caso precise mudar regulamento, defendo que aconteça com competições que não se iniciaram. Isso quebraria o planejamento.

Estadual de portão fechado não serve. Vamos deixar de ganhar o dinheiro da renda, que é importante, e ainda colocando em risco a saúde dos profissionais do futebol, protegendo apenas a população.

Para o Sport, que é do Recife, isso (redução do período entre os jogos) é uma loucura. Somos uma das equipes mais distantes do Sul e do Sudeste. Seria extremamente prejudicial encurtar o tempo entre os jogos. Teríamos que fazer uma logística de deslocamento absurda, com tempo de descanso mínimo para os jogadores. Seríamos muito prejudicados, isso não seria bom.

Tem de ser mantida a fórmula (do Brasileirão), ainda que entre em janeiro e fevereiro. É assim nas principais ligas do mundo, as mais ricas.

VASCO

O Estadual deve terminar no mesmo formato. Restam poucas datas para o fim do campeonato.

Como se trata de um caso de excepcionalidade, talvez isso (a redução do período entre jogos) tenha que ocorrer eventualmente.

No momento, a discussão não passa por uma mudança no formato do Brasileirão, até porque a televisão paga por 38 datas.

Athletico-PR, Bahia, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Red Bull Bragantino optaram por não se manifestar.

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