Por onde passa, Abel Braga conquista seus jogadores com respeito, cobrança e conhecimento

Campeão brasileiro pelo Fluminense neste domingo, após vitória sobre o Palmeiras, Abelão vira 'deus' em seu time de coração

Pedro Proença, especial para o Estadão, O Estado de S. Paulo

12 de novembro de 2012 | 18h37

SÃO PAULO - Abel Carlos Braga, o Abelão, não se via campeão brasileiro quando aceitou comandar o Inter, seu quinto clube como treinador. Era 1988. Com a boa campanha, Abel chegou ao Gre-Nal, que valia vaga para a final da competição, uma circunstância inédita para o clássico do Rio Grande do Sul. O jogo, que atraíra 78.083 torcedores ao Beira Rio, foi disputado com intensidade e, por vezes, violência. O Grêmio abriu o placar aos 25 minutos, com o atacante Marcos Vinicius, e viu a vaga ficar ainda mais perto quando o lateral Casemiro foi expulso, deixando o rival com dez jogadores.

No intervalo, Abel fez uma mudança tão corajosa quanto arriscada: sacou o volante Leomir e colocou o atacante uruguaio Diego Aguirre como ponta. "Quando eu vi aquilo, pensei: 'Esse cara é louco'", lembra Luiz Fernando Záchia, diretor de futebol do Inter à época e hoje secretário municipal do meio ambiente em Porto Alegre.

O ex-dirigente ainda menciona que Abel tratou de explicar aos jogadores como deveriam se postar taticamente em campo e pediu que confiassem nele e que fizessem o que mandava. E deu certo: o atacante Nilson marcou dois gols e virou a partida para a equipe vermelha, com um homem a menos.

O adversário da decisão seria o Bahia, a quem o Inter vencera por 3 a 0, em 6 de novembro, também no Beira Rio. O Bahia, em tese, era um time mais fraco. Confiante, a torcida colorada já via o elenco com a faixa de campeão. "Ainda as pessoas não têm noção do que foi aquele jogo. A cidade enlouqueceu, pelo menos a parte vermelha de Porto Alegre. Quem ganha do Grêmio com 10 jogadores, é capaz de ganhar de qualquer um. Chegamos em Salvador exaltados pela imprensa local", conta Záchia.

Abel tentou conter o clima de empolgação do Inter. Explicou aos jogadores que uma partida de fase classificatória era diferente de uma finalíssima e que o Bahia merecia respeito. "Nos dias que antecederam o primeiro jogo, o Abel só falava para a gente evitar salto alto e que nada estava definido", comenta Luiz Carlos Winck, lateral direito daquele elenco do Internacional.

De nada adiantou. Diante de um público de 90.058 torcedores na Fonte Nova, o Inter sucumbiu diante do Bahia. O Colorado chegou até a abrir o placar, com Leomir (que hoje é auxiliar técnico de Abel), aos 19 do primeiro tempo. O artilheiro Bobô, entretanto, empatou a partida 7 minutos depois e fez o gol da virada aos 5 minutos da etapa final. O resultado não era nenhuma catástrofe, afinal bastava uma vitória por um gol de diferença para a taça ficar em Porto Alegre.

Mas isso não aconteceu. Diante das 79.598 pessoas no Beira Rio, e de uma mandinga com sete galinhas pretas, velas e erva mate que o Inter espalhou no vestiário do Bahia, que comprovou-se furada, o Bahia foi campeão. A partida terminou 0 a 0. E Abelão, hoje campeão do Fluminense, sentia pela primeira vez o dissabor de uma final de Brasileirão.

O vice-campeonato, no entanto, não foi a única maior frustração de Abel Braga naquele Inter. O segundo dissabor ocorreu três meses depois, em 17 de maio de 1989, quando viu sua equipe ser eliminada em casa pelo Olimpia (Paraguai) nas semifinais da Libertadores. O fracasso fez com que Abel deixasse o cargo.

ADMINISTRADOR DE CRISE

Depois disso, Abelão rodou o Brasil. Em sua carreira, já dirigiu os três grandes do Paraná, os quatro grandes do Rio de Janeiro (Vasco, Botafogo e Fluminense em duas ocasiões), Santa Cruz, Goytacaz (RJ) Atlético Mineiro, Ponte Preta e ainda passou pelo futebol português, francês e dos Emirados Árabes. Em cada um deles, foi colecionando bons e maus resultados, mas indiscutivelmente o respeito de todos.

Até 2006, o treinador ostentava em seu currículo cinco títulos estaduais (um Pernambucano, dois Parananenses e dois Cariocas). Nesse período, Abel adquiriu fama de ser um treinador querido pelos jogadores, com bom trânsito com a direção dos clubes nos quais trabalhava e que sabia contornar situações difícies. "O Abel sempre foi paizão, amigo, companheiro e muito justo, mas que também sabia cobrar", analisa Winck. No começo da carreira, ele assumia equipes limitadas tecnicamente e, por vezes, em crise. "Em 1995, liguei para o Abel e falei que precisava urgentemente de um treinador. Ele veio no dia seguinte. Começou a treinar o Inter sem contrato mesmo, fomos acertar os salários 15 dias depois", diz Záchia.

Em 2001, Abel também agiu como bombeiro no Atlético-MG, quando a equipe estava com salários atrasados e ele se deparou com um grupo completamente abatido e desgastado. "O Abel conquistou aquele grupo. Nós corríamos por ele. Ele era carismático, conversava diariamente com o time e nos motivava. Depois que ele saiu, a coisa desandou de novo", conta o ex-goleiro Velloso, ídolo do Palmeiras. Em 2003, dois anos depois, Abelão salvou a Ponte Preta do rebaixamento no Brasileirão. O time também convivia com problemas de salários atrasados.

NA GÁVEA

Em 2004, Abel foi contratado pelo Flamengo, o quarto grande do Rio em sua carreira. O time não era um primor de técnica como os esquadrões da década de 1980, mas tinha bons valores, como o goleiro Julio Cesar, o zagueiro Fabiano Eller, voltante Ibson em início de carreira, o meia Felipe em ótima fase e o atacante Jean, que fazia seus golzinhos. Com esse elenco, Abel se sagrou campeão carioca pela primeira vez, diante do Vasco, com uma vitória por 3 a 1, na qual Jean marcou dois gols e Felipe fez misérias na zaga cruzmaltina. Mas não ficou no cargo por muito tempo, derrubado por maus resultados no Brasileirão.

No fim de 2004, sem trabalhar, Abel acertou com o Fluminense (clube que o revelou como zagueiro) para a temporada de 2005. Na bagagem, levou o zagueiro Fabiano Eller e o meia Felipe. Além deles, a equipe contava com o zagueiro Antônio Carlos (que hoje joga pelo Botafogo), com os laterais Juan e Gabriel (ambos bons no apoio) e com o centroavante Tuta. O Flu foi campeã estadual, desta vez em cima do Volta Redonda. Porém, na Copa do Brasil, o filme também se repetiu e Abelão viu seu time perder para outra equipe pequena de São Paulo: o Paulista de Jundiaí. 

Esse, porém, não foi o único dissabor da temporada. O Fluminense conseguiu deixar escapar a outra chance da temporada de ir à Libertadores de modo ainda mais dramático: perdeu os últimos cinco jogos do Brasileiro de 2005 e ficou estacionado nos 68 pontos. O Palmeiras emendou uma boa sequência de resultados e chegou à última rodada com 67 pontos, um a menos que o Flu. As equipes se enfrentaram no dia 4 de dezembro no Palestra Itália. Abel viu seu time liderar o marcador em duas ocasiões, mas o Palmeiras virou para 3 a 2 e tirou os cariocas da Libertadores de 2006. Ao término da partida, Abel defendeu seus jogadores. "Pelo que se lutou, pelo que se correu e jogou, foi um resultado (a derrota) que não merecíamos. A pressão foi grande, mas os garotos não se intimidaram."

CAMPEÃO DO MUNDO

Em 2006, depois de duas temporadas ruins no Rio, Abel Braga voltou à casamata colorada e teve a chance de disputar a Libertadores novamente. O treinador era uma aposta do presidente Fernando Carvalho para substituir Muricy Ramalho, que, após o vice brasileiro do ano anterior, deixou o Inter para dirigir o São Paulo. "Parte da torcida via o Abel com certa desconfiança ainda. Era visto com um cara identificado com o clube, um cara bom,  mas que não ganhava nada."

O Internacional tinha boa base: o goleiro Clemer, o lateral Ceará, o zagueiro Bolívar, os versáteis meias Tinga e Jorge Wagner, o habilidoso canhoto Alex e os atacantes Rafael Sóbis e Fernandão. A partida final seria contra o São Paulo, campeão no ano anterior, que contava com Rogério Ceni na melhor fase de sua carreira, com o zagueiro uruguaio Lugano, os volantes Josué e Mineiro, o meia Danilo e o atacante Ricardo Oliveira. Um time difícil de ser batido, portanto. Mas isso não se refletiu no primeiro jogo, realizado em 9 de agosto.

Com frieza e inteligência, o Inter não se importou com os 71.145 torcedores presentes no Morumbi e tomou conta do primeiro tempo, ação facilitada pela expulsão de Josué após cotovelada em Rafael Sóbis. O volante Fabinho, porém, aos 37 minutos agrediu o são-paulino Souza e também foi para o chuveiro mais cedo. No segundo tempo, o Inter finalmente conseguiu traduzir sua superioridade em gols. Rafael Sóbis marcou duas vezes. "Nosso time ainda não ganhou nada. Ainda faltam 90 minutos e não estamos com salto alto, não tem nada decidido. Foi uma vitória importante mas, da mesma maneira como vencemos aqui, eles podem nos vencer lá", disse Abelão após a vitória por 2 a 1.

Uma semana depois, 57.554 torcedores foram ao Beira Rio. A torcida do Inter estava nervosa. Abel Braga tinha o rosto num tom quase tão encarnado quanto o da camisa do Internacional. Porém, no momento em que o São Paulo era melhor no jogo, Fernandão aproveitou uma saída errada de Ceni e fez 1 a 0. No início do segundo tempo, o São Paulo empatou com Fabão. Mas a tensão só durou 15 minutos, pois com 20, Tinga recolocou o time gaúcho em vantagem. Aos 39, o São Paulo, com Lenílson, deixou tudo igual de novo. Mas era tarde.

Mesmo com a conquista da América, o Inter não deixou o Brasileirão de lado. O Colorado foi vice-campeão, com 69 pontos, nove a menos que o campeão, o São Paulo (que conquistou o caneco na 36ª rodada). Apesar do time estar em harmonia com a torcida, havia um jogador que não gozava de tanto prestígio nas arquibancadas: Adriano Gabiru. Toda vez que ele errava um passe ou um chute, recebia uma impiedosa vaia. Para evitar que o jogador se abalasse, Abel o utilizava mais em partidas fora do Beira Rio. "O Abel me passava muita confiança, me motivava, dizia para eu não me abalar", conta Gabiru.

Em 13 de dezembro, o Inter estreou no Mundial com uma vitória por 2 a 1 diante do egípcio Al-Ahly, gols das crias da base Alexandre Pato e Luiz Adriano. O adversário da final seria o Barcelona, que tinha Ronaldinho Gaúcho, Xavi, (que ainda não era o craque que é hoje) e Deco em esplendorosa fase. No vestiário, Abel reuniu os jogadores do Internacional e passou as instruções de modo enfático. "Faz o que eu mandar, faz o que eu mandar! Vocês ganham, eu perco. Quando tiverem a bola, joguem sem medo. Se fizer o que eu mandar, não vai perder".

Para Gilson Kleina, auxiliar de Abel entre o fim da década de 1990 e início dos anos de 2000 e atual treinador do Palmeiras, essa é uma das grandes habilidades de Abel. "Ele foi capaz de não aumentar uma pressão que já era enorme. Na verdade, ele a diminuiu. O Abel é capaz de aflorar a confiança de quem está inseguro e é capaz de conter a empolgação de quem está com excesso de confiança". Embora tenha abdicado do ataque, o Inter foi capaz de controlar o ímpeto do Barcelona no primeiro tempo. Ronaldinho Gaúcho e Deco não conseguiam respirar, pois sempre havia um jogador de branco (o Internacional jogara com o uniforme reserva) a poucos centímetros de distância. O segundo tempo teve a mesma toada, muita entrega física e poucas chances de gol.

Aos 31 minutos da etapa final, Abel trocou Fernandão por Adriano Gabiru. "Ele simplesmente me encheu de confiança e falou para eu jogar o que eu sabia, o que eu era capaz", relata Gabiru. Seis minutos depois, Gabiru recebeu passe de Iarley, invadiu a área e bateu na saída de Valdez. O Inter ganhou por 1 a 0. Em abril de 2007, Abel foi embora de Porto Alegre, para voltar meses depois, mas sem sucesso desta vez. Foi quando trocou o Brasil pelos Emirados Árabes, o Al Jazira.

DE VOLTA ÀS LARANJEIRAS

Abel foi revelado pelo Fluminense, era zagueiro, embora não fosse nenhum Beckenbauer, longe de ser um carniceiro. "Ele jogava duro, era firme, mas nunca foi desleal. Além disso, o Abelão sempre foi um sujeito muito honesto e com uma boa liderança sobre o grupo", comenta Roberto Rivellino, ídolo do Fluminense, que jogou com Abel na década de 1970. Pelo Tricolor, Abel ganhou os estaduais de 1971, 1973 e 1975. Depois jogou pelo Vasco, onde também foi campeão carioca (1977), e ainda atuou por Paris Saint-Germain, Cruzeiro e Botafogo, para encerrar a carreira em 1985, no modesto Goytacaz, de Campos (RJ).

Assim como Joel Santana, Abel é benquisto em todas as equipes cariocas, mas nunca escondeu sua ligação com o Fluminense. Esse carinho fez com que o clube, que ficara sem treinador em março (quando Muricy pediu demissão), se dispusesse a esperar quase três meses até que o vínculo de Abel com o time árabe terminasse. O treinador, em sua coletiva de apresentação, retribuiu com palavras de gratidão o esforço do clube. "É uma emoção muito grande reencontrar antigos colegas. Esse clube me formou um homem na fase mais perigosa da vida. Perdi amigos para o tráfico, bandidagem. Se o Fluminense não tivesse surgido na minha vida, não estaria aqui hoje".

O início de seu retorno ao Flu foi difícil. A equipe ainda estava traumatizada pela eliminação nas oitavas de final da Libertadores diante do Libertad e não vinha apresentando o futebol que lhe valera o título brasileiro em 2010. Sua reestreia se deu com uma derrota para o Corinthians. Nos seis jogos seguintes, Abel acumulou quatro derrotas e duas vitórias. O Flu terminou o primeiro turno com 25 pontos em 19 jogos, um aproveitamento de 43%. A demissão de Abel chegou a ser especulada.

No segundo turno, o panorama se inverteu. O Flu fez a melhor campanha, conquistando 38 pontos e terminando o certame em 3º, com 63. Abel levou a equipe carioca a brigar pelo título. Impulsionado pelos gols de Fred (que marcou 22 no campeonato, terminando como vice artilheiro), o time de Abel conseguiu sete vitórias e um empate nos dez primeiros jogos do returno.

Neste ano, o Flu foi o mais regular do Brasil. Depois de vencer o Campeonato Carioca com duas vitórias sobre o Botafogo, o time nutria grandes esperanças na Libertadores, mas caiu diante do Boca. "Os jogadores foram excepcionais. Não tem um que não tenha atingido o seu limite. Eu falei que eles iriam suar sangue e foi isso que fizeram. Mas sofremos um duro golpe. Não sei explicar. Fica aquela dor. Hoje baqueou, entristeceu, mas não vamos cair. Eles foram dignos de aplausos porque honraram a camisa do clube".

O foco passou a ser então o Brasileirão, que resultou na conquista do torneio após a vitória contra o Palmeiras, em Presidente Prudente. "Sabia que o Abel atingiria um patamar de conquistas pela sua forma de trabalho. Ele não valoriza somente a defesa, mas o futebol como um todo e respeita bastante as características dos jogadores", comentou Gilson Kleina, que sofre com seu Palmeiras.

ZAGUEIRO QUE VIROU PIANISTA

Não é raro ver Abel com o rosto vermelho, a jugular saltada, gesticulando como um italiano e falando palavrões como um espanhol à beira do gramado. Desde o início da carreira ele é agitado. "É o jeito dele, um cara extremamente competitivo. Abel vive o jogo intensamente, mas duas ou três horas depois da partida a adrenalina abaixa e ele volta ao normal", comenta Kleina.

Fora de campo, Abel costuma ser simples e tratar a todos da mesma maneira, amável. Além disso, procura ser gentil e cordial com seus jogadores. "Até os reservas ele trata bem, sabe trazer os caras para ele", comenta Winck. Dentre suas preferências culinárias, destaca-se o churrasco, prato que ele aprendeu a apreciar no Rio Grande do Sul. Em suas visitas à capital gaúcha, sempre ligava para Záchia e marcava de ir a um rodízio de carnes. No que diz respeito às bebidas, o treinador do Flu é um apreciador de uísque. "Ele era um baita bebedor de uísque, não desses caras que ficam ébrios, mas de tomar umas doses e ficar contando boas histórias até tarde da noite."

Outra característica menos óbvia é o gosto por tocar piano. Záchia conta que, em 1989, quando o Inter ia jogar uma partida pela fase de grupos da Libertadores contra o Deportivo Táchira havia uma onda de violência na Venezuela. Consequentemente, os jogadores não podiam sair do hotel. Foi então que Abel se sentou perto do piano do saguão e começou a tocar músicas de compositores franceses. Os jogadores, apreciadores de pagode e seus derivados, ficaram olhando fascinados e emocionados. "Foi fantástico aquilo. Imagine ver um cara grande como o Abelão tocando piano com aquela sensibilidade num momento de tensão do time. Parecem coisas incompatíveis", diz Záchia. Com esse carisma, Abelão conseguiu ter o grupo do Flu nas mãos a ponto de Fred, a estrela da companhia, defender a permanência do treinador no clube das Laranjeiras. "Fica, Abelão!"

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