Hamilton Silva/Grêmio FC
Hamilton Silva/Grêmio FC

Por trás da goleada: conheça o Greminho, time que perdeu de 56 a 0 para o Flamengo

Equipe feminina de Cosmos, bairro da Zona Oeste do Rio, tem entre as jogadoras auxiliar de logística e Jovem Aprendiz dos Correios

Rodrigo Azevedo Sampaio, especial para o Estado

05 de outubro de 2019 | 11h00

Um, dois, três... 56. Poucos resultados foram tão acachapantes na história do futebol como o sofrido no último sábado pelo Greminho Futebol Clube contra o Flamengo, pela terceira rodada do Campeonato Carioca Feminino. Apesar do placar esmagador, que escancarou a precariedade de investimento feito na modalidade feminina no País, o modesto time de Cosmos, bairro da Zona Oeste do Rio, chamou atenção pelo espírito esportivo, se mantendo em campo mesmo com uma jogadora de linha improvisada no lugar da goleira - que saiu machucada logo no início da partida - e sem apelar para o excesso de faltas, que ocasionalmente culminaria em um excesso de cartões vermelhos e, consequentemente, faria o árbitro encerrar a partida.

Mesmo com a marca negativa, o clube não pretende deixar de continuar lutando pelo reconhecimento da modalidade, independentemente do embate contra gigantes como a equipe rubro-negra. É o que pensa o atual presidente, Hamilton Silva, de 33 anos, que também ocupa o cargo de treinador. “Desde que começamos a competição, coloquei para as jogadores que o resultado ficaria em último plano, que a gente precisava curtir o que íamos viver. Nosso sentimento era de aproveitar uma oportunidade. Sabíamos que era surreal enfrentar o Flamengo e não tínhamos condições de bater de frente, até porque quem monta time em dez dias não pode esperar grande coisa”, disse o técnico, que apesar do resultado elogiou o adversário. “O Flamengo o tempo todo nos deu atenção, nos recebeu bem. Até trocamos números de telefone para um futuro suporte, alguma ajuda”.

Hamilton também ressaltou que em nenhum momento pensou em tirar a equipe de campo e destacou a postura das atletas. “Mesmo quando fomos para o intervalo, quando estava 29 a 0, a nossa vontade era dar sequência ao jogo o tempo todo, não queríamos que a partida se encerrasse. Levamos tudo com dignidade até o último minuto”, disse, minimizando as críticas ao modelo do Carioca Feminino, que coloca clubes profissionais para atuarem contra amadores. “Surgiram críticas em cima de críticas sobre a montagem do torneio, mas vimos como uma questão de oportunidade para as meninas. Quando teríamos outra chance de enfrentar o Flamengo?”, ponderou Hamilton.

De acordo com Hamilton, que também trabalha como motorista autônomo quando não está à frente do time, o trabalho realizado na equipe feminina é feito com poucos recursos, sem ajuda de patrocinador ou verba da federação, que cede apenas uma bola e um campo, localizado no Cosmos Atlético Clube, para o Greminho mandar seus jogos. As jogadoras, que têm média de idade entre 16 e 19 anos, se organizaram para a formação do time, que conta hoje com 25 atletas cadastradas. Elas treinam em uma praça pública do bairro de Cosmos, em uma região conhecida como Vila Olímpica, e dividem o mesmo material esportivo com o time masculino. Por sua vez, o trabalho de preparação física é realizado por um ex-jogador do São Cristóvão que ajuda as meninas aplicando o que aprendeu durante os treinamentos no antigo clube.

Atleta mais velha da equipe, a auxiliar de logística Irlana Ribeiro, de 36 anos, ficou sabendo da seleção para a formação da equipe do Greminho após um amigo convidar sua filha para integrar o time feminino do clube. Ela não esteve em campo durante o jogo contra o Flamengo devido a uma lesão, mas assumiu o papel de auxiliar durante a partida e ajudou a motivar o grupo a continuar na partida. “Conversei com elas que haviam olheiros de outros times, e que era uma oportunidade para serem vistas. Quando a gente faz o que ama, nos dedicamos”, comentou, ressaltando também a função social do Greminho. “A meta principal do projeto não é só jogar futebol, e sim preparar pessoas para a sociedade.”

Curiosamente, a filha de Irlana, a zagueira Muriel Ribeiro, de 16 anos, foi quem esteve debaixo das traves e viu os gols serem anotados por mais de 50 vezes. De acordo com a estudante, que também participa do programa Jovem Aprendiz dos Correios, ela já havia sido avisada por Hamilton da possibilidade substituir a goleira titular, que estava sofrendo com dores e acabou se contundindo contra o time rubro-negro, e não havia reserva para a posição.

“Na hora que ela se machucou, ele me gritou e eu já fui no automático”, comentou Muriel, que afirma não ter ficado chateada com o resultado final da partida. “De início deu um pouco de raiva, por não conseguir ajudar o time como gostaria, mas depois fui me conformando e sentindo orgulho porque fomos até o final. Preferi ficar no gol e ajudar o máximo que pude. Poderíamos desistir, mas ficamos em campo”, disse.

A jovem afirma também que deseja continuar a carreira no futebol e revelou que tem como principais ídolos o meia Casemiro e a atacante Cristiane. “Me inspiro no futebol do Casemiro porque ele defende, mas também ataca. A Cristiane é uma deusa! É uma exemplo para cada uma de nós que deseja jogar futebol”. 

TRAJETÓRIA

Fundado em 1996, o Greminho, como o próprio nome sugere, nasceu como uma forma de homenagear o Grêmio, do qual também pegou as cores emprestadas para ilustrar o uniforme e os adereços da equipe. A ideia de reverenciar o campeão brasileiro daquele ano foi de Luís “Miminho”, então presidente do clube, que possuía apenas a modalidade masculina na ocasião. O clube dissolveu-se dois anos depois, voltando às atividades somente em 2009. 

Em 2017, o Greminho filiou-se à Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) e passou a disputar o torneio Amador da Capital nas categorias sub-15 e sub-17. Somente este ano, a 40 dias do início do Campeonato Carioca Feminino, que o clube montou uma equipe para atuar na competição. Os resultados, contudo, não são dos melhores. Além do revés inacreditável para o Flamengo, o time também perdeu por 12 a 0 para o Campo Grande, além de um 6 a 1 para a seleção da Central Única das Favelas (Cufa). 

Recentemente, Irlana lançou uma vaquinha virtual para arrecadar fundos para o time. O próximo compromisso do Greminho será neste domingo, contra o Barramansense, às 15h. 

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