Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Por uma seleção adulta

O mais perturbador nesta equipe é a instabilidade emocional

Milton Leite*, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2018 | 04h00

Perder, como se sabe, é do jogo. Perder para uma equipe tão boa quanto a da Bélgica, com seus principais jogadores no auge do desempenho, não pode ser encarado como tragédia. Ao contrário, uma análise cuidadosa apontará para um trabalho bem sucedido. Afinal, a perspectiva quando Tite foi convocado para assumir a seleção brasileira nas Eliminatórias Sul-americanas era de possível primeira ausência numa Copa do Mundo.

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Mesmo com um segundo tempo em que apresentou oportunidades que poderiam ter mudado o rumo da história, não parece razoável classificar como injusta ou imerecida a eliminação do Brasil. Os craques belgas De Bruyne, Hazard e Lukaku jogaram o máximo na partida que realmente contava.

Os brasileiros não, principalmente Neymar, que não se portou como o melhor do mundo que pretende ser um dia.

O mais perturbador nesta equipe – e parece ser característica das gerações recentes do futebol nacional – é a instabilidade emocional. O Brasil levou três gols em cinco jogos. Em todos, a consequência imediata foi a desorganização geral do time. Tivesse a Suíça um pouco mais de capacidade e, provavelmente, a derrota teria acontecido já no jogo de estreia, depois daquele gol de empate.

Contra a Bélgica, de novo a equipe brasileira entrou em parafuso ao tomar o primeiro gol, sofreu várias ameaças nos minutos seguintes, até De Bruyne marcar 2 a 0. Quando o problema aparece, falta maturidade e frieza para enfrentá-lo.

 

Não tenho formação em psicologia nem estou capacitado teoricamente para analisar comportamentos. No entanto, a sensação é que muito deste desarranjo emocional tem relação com a forma infantilizada com que os jogadores são tratados pela mídia, pela comissão técnica e pelos torcedores – situação que atletas aceitam e fazem questão de protagonizar. Quando o principal jogador do time é tratado como “menino” pela mídia, é blindado do contato com o mundo exterior pela comissão técnica e é encarado pelo próprio staff como se tivesse 9 anos, parece pouco provável que vá encarar os momentos mais difíceis com a serenidade de quem tem experiência, valorização e 26 anos de idade. 

Talvez por isso tenha ficado marcado pelas simulações de sofrimento muito além do normal nas faltas que, efetivamente, recebe em número acima do razoável.

Enquanto argentinos e uruguaios, por exemplo, dão declarações remetendo a ligações fortes com os respectivos países e seus povos, nossos garotos, um tanto alienados, eram solicitados a explicar que a comemoração em um dos gols contra o México não tinha a ver com o personagem de série de televisão daquele país, mas sim com um videogame qualquer – mais infantil impossível.

Como esperar que crianças protegidas de qualquer importuno, como conversar com a imprensa nos momentos difíceis, tenham capacidade de enfrentar problemas ao invés de esconder o rosto e, em muitos casos, chorar? Já não vimos este filme em 2014?

Falta um projeto de longo prazo para o futebol brasileiro e nossos dirigentes têm se mostrado incompetentes para apresentar um. Que pelo menos continue este trabalho positivo. E que, na próxima Copa do Mundo, possamos enviar uma seleção adulta para a competição.

*NARRADOR DO SPORTV

 

 

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