Enrique Garcia Medina/ Reuters
Enrique Garcia Medina/ Reuters

Por uso de drogas, Maradona quase passou por transplante cardíaco em 2004, lembra médico brasileiro

Problema detectado era indício de que o ex-jogador perdia a batalha contra o vício; cardiologista Nabil Ghorayeb foi consultado para analisar saúde do argentino

João Prata, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 17h26

Em 2004, Maradona foi internado na Argentina após sua segunda overdose por cocaína. Ele chegou a ficar em coma por alguns dias e depois de acordar fugiu para a chácara de um amigo. Passou cinco dias foragido e retornou ao hospital depois de passar mal por causa do excesso de croissants e doce de leite. Foi quando decidiu ir a Cuba, onde fez a cirurgia para reduzir o estômago. A cirurgia foi realizada às pressas para dar sobrevida ao ídolo argentino, que já tinha um problema grave no coração causado pelo uso de drogas. Nessa época, o cardiologista brasileiro Nabil Ghorayeb foi consultado pelos médicos argentinos que cuidavam do astro.

"Cheguei a fazer uma segunda opinião com os médicos dele, quando ele internou. Fui consultado pelo telefone. O Maradona tinha um problema cardíaco grave por causa da dependência química. Naquele tempo, ele tinha uma miocardiopatia dilatada. A situação dele era tão grave que cogitaram transplante cardíaco", conta Ghorayeb ao Estadão.

Além do uso de drogas, Maradona tinha obesidade mórbida e por isso teve a necessidade de fazer a cirurgia bariátrica. A redução do peso ajudou no problema de saúde, mas ele precisava seguir atento ao problema cardíaco. "A força normal do coração pelo ecocardiograma é de 56. Lembro que o do Maradona era de 20. Por isso cogitaram o transplante, mas na época não era tão fácil como é hoje", explica Ghorayeb. 

O cardiologista disse que ainda não é possível dizer o que causou a parada cardiorespiratória em Maradona nesta quarta-feira. "Ele teve problema de traumatismo craniano. A gente não sabe qual foi a relação. O problema neurológico pode ter trazido a complicação para sobrevida dele, mas isso a gente ainda não sabe. O que sabemos é que ele tinha seguramente insuficiência cardíaca".

'Fui, sou e serei um viciado'

Maradona admitiu que usava drogas desde 1982. Em uma entrevista emblemática concedida em 1996 disse: "Fui, sou e serei um viciado, a cada dia tenho de dizer que vou lutar contra o inferno das drogas". Nessa época ele já havia sido flagrado em exame antidoping por duas vezes. A primeira em 1991, quando recebeu 15 meses de suspensão. O craque chegou a ser preso em Buenos Aires com meio quilo de cocaína. Depois, na Copa do Mundo de 1994, quando foi afastado da seleção argentina.

Quando revelou o vício, participou de uma série de campanhas de combate ao tráfico promovidas pelo governo argentino. Mas teve recaídas. No ano 2000 ele teve a primeira overdose e foi internado em Punta DelEste, no Uruguai. Depois foi a Cuba para fazer tratamento. 

Quatro anos mais tarde voltou a clínica na Argentina no episódio relembrado por Ghorayeb. Foi o período em que ele deu a impressão de estar reabilitado. Pouco depois teve um programa na televisão argentina, que teve como ponto alto a participação de Pelé. A cena dos dois craques trocando passes de cabeça se tornou histórica. Foi também quando os dois reataram a amizade.

Maradona dizia que as filhas e o trabalho o haviam ajudado na superação do vício. Pouco depois, em 2007, os excessos no consumo de álcool o levaram a uma nova hospitalização, agora por hepatite. Foi internado em um hospital psiquiátrico. Saiu novamente. Recentemente, foi submetido a uma cirurgia no cérebro, que pode ter causado a parada cardiorespiratório.

 

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