Brendan McDermid/Reuters
Brendan McDermid/Reuters

Acusado de 'violar privacidade' do emir do Catar, jornalista do 'Estado' é expulso de hotel

Jornalista registrou nas redes sociais que o chefe de governo deixou o restaurante do hotel sem pagar uma conta de cerca de R$ 269

Jamil Chade, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2018 | 09h54

A reportagem do Estado foi expulsa à força do hotel Lotte, em Moscou, sede da Fifa durante a Copa do Mundo. O motivo: violar o "direito de privacidade do Emir do Catar", que está hospedado no mesmo lugar.

Depois de cerca de 20 minutos fora do local e cercado por seguranças, fui autorizado a entrar de novo, depois que um dos hóspedes - membro da Federação Portuguesa de Futebol - conseguiu contato com a gerência do hotel.

Sem nenhum motivo e enquanto eu escrevia uma matéria sentado em um dos sofás do local, quatro seguranças se aproximaram e pediram minha credencial da Copa do Mundo. Depois de fornecer o documento, fotos foram feitas da credencial e minha. Enquanto policiais me cercavam, um deles fez um telefonema. Ao desligar, ordenou que os demais me retirassem do recinto. Um deles me agarrou para que eu me levantasse, enquanto os demais foram me empurrando para fora, sem dar qualquer tipo de explicação. Outros jornalistas presentes no lobby - alemães e ingleses - não foram alvo de qualquer controle e continuaram no recinto.

O hotel se recusou a dar explicações, mesmo depois de o local ter sido usado pela reportagem por diversas ocasiões durante a Copa do Mundo. Um dos gerentes, ao tentar se desculpar, explicou que a ação havia sido tomada pela FSB, herdeiros da KGB. "Esse é o velho estilo", se justificou. "Foi um erro. Mas peço que isso seja esquecido, por favor", disse o gerente, insistindo em oferecer um café. 

 

Foi apenas depois que o incidente estava superado que o hotel veio dar a explicação para a expulsão. Segundo a gerência, o problema foi uma postagem que fiz nas redes sociais, na sexta-feira, em conjunto com o repórter do New York Times. O emir do Catar havia deixado o restaurante do hotel sem pagar uma conta de cerca de US$ 70,00 (R$ 269). A garçonete, sem saber que eu e o outro jornalista não estávamos em sua delegação, se aproximou da reportagem pedindo que eu pagasse a conta. Segundo ela, ninguém havia pago a conta do chefe supremo do país do Golfo.

Não pagamos a conta, tiramos fotos dela e postamos nas redes sociais apenas o que ocorreu. Para a delegação do emir, porém, isso foi uma "violação da privacidade", motivo suficiente para que um repórter seja expulso. Enquanto escrevo essa matéria, já dentro do hotel, continuei a ser observado de perto pelos seguranças do emir e pelos russos. Em quatro anos, o Catar receberá 14 mil jornalistas para a Copa do Mundo. 

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