JF Diorio/ Estadão
JF Diorio/ Estadão

Possível armação em 'Caso Amarilla' não surpreende argentinos

Árbitro de Corinthians x Boca em 2013 se defende e é suspenso

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE EM BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2015 | 21h19

O eixo das conversas sobre futebol na Argentina deixou ontem de ser a provável contratação de Carlos Tévez pelo Boca Juniors ou o desempenho abaixo do esperado de sua seleção na Copa América. Ganhou amplo espaço no noticiário e nas ruas uma série de escutas envolvendo corrupção no futebol, entre elas uma que indica que o árbitro paraguaio Carlos Amarilla beneficiou o Boca em uma partida contra o Corinthians nas oitavas de final da Copa Libertadores de 2013. O empate em 1 a 1 eliminou os brasileiros.

Na gravação, divulgada pelo canal América na noite de domingo, o então presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA), Julio Grondona, diz que Amarilla foi o principal reforço do Boca na temporada e indica que ele teve influência na indicação de Amarilla para apitar aquele confronto. "Saiu bem no fim, ninguém queria este louco de m... e jogou o maior reforço que o Boca teve no último ano... Foi o Amarilla", diz o dirigente argentino, morto no ano passado. Ele conversa com Abel Gnecco, representante da Argentina no Comitê de Árbitros da Confederação Sul-americana de Futebol (Conmebol).

REPERCUSSÃO

A escuta envolvendo o Corinthians é uma das 11 reveladas pelo canal. Elas envolvem corrupção, doping, alteração de horário de jogos e evasão de impostos relacionados a Grondona, o que em geral não surpreende torcedores de grandes times argentinos ouvidos pelo Estado. O segurança Alejandro Sotomayor, fanático pelo Independiente, clube do qual Grondona foi presidente, trabalhou em vários jogos em La Bombonera, onde sua empresa prestava serviços. Segundo ele, comentários sobre compra de resultados eram comuns, mas não passavam de boatos nos corredores do clube. "Acho que não surpreende muita gente. Sempre se dão melhor os clubes de maior hierarquia", afirmou, reclamando que seu time não tem sido posto nesse mesmo nível. Ele ficou sabendo das acusações envolvendo Amarilla pela televisão, quando almoçava ao lado de seu pai. "O velho também não ficou surpreso", afirmou.

Torcedor do San Lorenzo, o enólogo Ezequiel Armesto, de 34 anos, relacionou a descoberta das gravações à morte de Grondona. "Enquanto ele estivesse vivo isso nunca seria conhecido. Deixei de acompanhar o futebol um pouco por coisas como essa", disse. Na mesma linha seguiu o vendedor Patricio Toledo, de 22 anos, do River Plate. "Isso mancha o futebol em geral. Não é por ter sido com o Boca, pode ter ocorrido o mesmo com o River. O problema é que agora duvidamos de qualquer resultado, não há garantia nenhuma", reclamou. O caso levou torcedores rivais do Boca a ironizar suas conquistas em conversar informais. "Quer dizer que ganharam um título graças ao Amarilla?", provocou um senhor em um edifício do centro da cidade, ao entrar no elevador e encontrar o amigo torcedor do Boca, que respondeu: "Grande Amarilla!". Outro fã da equipe azul e amarela, a mais popular da argentina, o aposentado Julio González, defendeu seu time. Não por duvidar da existência de resultados arranjados, por não ver muito sentido nesse caso específico. "Comprar um árbitro nas oitavas de final não tem lógica. Se fosse nas semi, eu até acreditaria", ponderou. A AFA e o Boca não se manifestaram sobre o caso.

Ao meio-dia, Amarilla, em entrevista à Rádio AM970, do Paraguai, pediu que sejam investigadas as declarações de Grondona. Preventivamente, a Associação Paraguaia de Futebol o afastou das competições organizadas por ela. "Quero que se abra uma investigação, isso é o que eu mais quero. Quem não deve não teme. No mundo dos árbitros não existe corrupção. Só somos os irmãos pobres do futebol. Trabalhamos com o coração e querem nos envolver. Em 27 anos de carreira, ninguém pode me apontar o dedo", disse Amarilla. O juiz paraguaio disse não querer ver Gnecco. "Melhor que não tenha que ver esse senhor, não sei do que seria capaz", afirmou. Sobre o jogo do Pacaembu, disse ter ficado surpreso ao fim da partida, em que anulou um gol legítimo dos brasileiros e deixou de assinalar um pênalti considerado claro pelo Corinthians. "Todos os árbitros cometemos erros, mas nunca com má intenção. É a lei do futebol", garantiu. 

No áudio, cuja autoria não foi divulgada, Grondona e Gnecco comentam um possível acerto da arbitragem para o duelo entre Boca e Newell's Old Boys, pela fase seguinte. Questionado sobre quem seria o juiz, Gnecco relata como teria pressionado "Alarcón", referência a Carlos Alarcón, diretor da comissão de árbitros, para que ele escalasse Amarilla no Corinthians x Boca. "Me perguntou 'gostam do Amarilla aí na Argentina?'. 'Olha, se gostam ou não eu não sei, mas eu quero, então põe ele e para de me encher o saco. Alarcón, põe o Amarilla e deixa de f...'. Então ele o colocou e deu certo...", afirma Gnecco. No fim do diálogo, Gnecco brinca que, num jogo entre Independiente e Santos em 1964, garantiu a vitória dos argentinos graças a ajuda dos bandeirinhas "contra o juiz".

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