Arte/Estadão
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Falcão: 'Precisamos adaptar o nosso estilo de jogo'

Em entrevista ao 'Estado' para a série FUTEBOL EM DEBATE, ícone da seleção diz que o futebol brasileiro perdeu várias de suas características e tem de mudar a mentalidade para voltar a ser vencedor

Entrevista com

Paulo Roberto Falcão

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2019 | 04h30

Ouça o podcast de Paulo Roberto Falcão e confira a entrevista, por escrito, logo abaixo

O futebol brasileiro passa por uma fase de pouco brilho. A ousadia, a criatividade, o poder de improviso e outras características que encantaram o mundo são cada vez mais raros. Ao mesmo tempo, títulos internacionais de clubes e seleções rarearam. Coincidência? Consequência? O Estado inicia nesta quarta-feira uma série para debater a qualidade do futebol brasileiro, e neste CAPÍTULO 1 entrevista um ex-jogador, e atualmente treinador, que é símbolo do futebol bem jogado, Paulo Roberto Falcão.

A ideia é oferecer ao leitor toda quarta-feira, uma entrevista com algumas dessas personalidades para explicar a atual situação e condição do futebol brasileiro. A reportagem também contará com um podcast de 20 minutos, em média, da conversa com o entrevistado. No CAPÍTULO 2, teremos Roberto Rivellino

O futebol brasileiro perdeu a identidade?

Quando uma pessoa perde a identidade, o que acontece? Ela muda. No futebol não tem uma coisa só. É que nós, no Brasil, sempre tivemos muita qualidade no jogador. Não nos últimos anos. Mas a gente sempre primou por isso. Antigamente, você tinha times com três, quatro craques. Hoje você não consegue ter isso, é mais difícil. A Europa tem porque tem condições de investir. Esse é um dos aspectos. Outro aspecto: não tem mais campo de várzea. Outro: porque não temos mais a qualidade que tínhamos, precisamos de uma adaptação (no estilo de jogo).

Nesse aspecto de adaptação, qual a importância do treinador?

O time hoje depende muito da qualidade do treinador, precisa muito dele. Mas o treinador precisa de apoio, de respaldo, que normalmente não é dado porque se acha que tem de ganhar. Claro que tem de ganhar, mas isso vem em consequência do trabalho.

Hoje, os jogadores estão indo cada vez mais cedo para a Europa. Acaba interrompendo o ciclo de formação dentro das características do futebol brasileiro. Isso também atrapalha?

É, mas às vezes, dependendo da função e das características dos jogadores, lá você tem muito ganho de qualidade na (parte) tática. Muita gente diz que tem de deixar o jogador mais à vontade, está se prendendo muito à parte tática. Tem que ver se isso de deixar o jogador fazer essa jogada individual... Será que nós temos jogadores para fazer isso? Ou é muito mais uma vontade nossa de querer que o jogador faça? Primeiro que não necessariamente você tem que ter um time com grandes dribladores.

Então, o drible não é necessariamente um recurso que resolve no futebol atual...

Exato. Se pegar o Barcelona do Guardiola, tinha dois dribladores, o Messi e o Ronaldinho. O resto, ninguém driblava. O Internacional de 1976 (bicampeão brasileiro) não tinha nenhum grande driblador. Lula, um pouco. Mas não tinha jogador do um contra um. E você ganhava. Aí conta conjunto, a qualidade, a maneira como você organiza o time em cima das características do jogador que você tem. É claro que se eu tenho um jogador com capacidade de dar um drible, eu tenho que estimular isso.

Se não tiver...

Eu acho que o campo de futebol é assim dividido: tem uma parte que, se não tiver zagueiro de qualidade para sair jogando, tem de tirar. Há risco de tomar um gol. Mas acho que o grande segredo é você ter zagueiro que jogue, para não dar chutão. No quadrado do meio do campo, que começa na intermediária de um campo e vai até a intermediária do campo do adversário, aí bola tem de ser um, dois. Tem de jogar, fazer a bola andar, não pode ser lento. Quando você chega perto da área, se tem esse jogador com qualidade no drible, não tem tática. É improviso. Mas eu tenho de ter jogador que faça isso, não adianta força se os caras não têm (essa característica).

O Brasil tem hoje um grande driblador, o Neymar. No passado, era mais comum. É consequência da mudança do futebol, até em nível mundial?

O Messi é um grande driblador. O Cristiano Ronaldo menos. Mas os dois são eficientes demais. O Chelsea tem o Hazard, que atropela e passa, tem a jogada individual. O De Bruyne, que para mim é o melhor jogador do City, não é de dar drible. Então, não é importante o drible na minha avaliação. Se você tiver o jogador que tem essa capacidade, perto da área, vai para cima. Se não tem, não adianta você forçar. Você não precisa de driblador para ser campeão. Tem de ter um time.

Mas tem uma maneira de jogar que você considera ideal?

O fundamental é você arrumar um esquema de jogo que se adapte ao jogador que você tem. Certa vez dei uma palestra para os treinadores, a convite da CBF, eu coloquei dois assuntos em discussão: posse de bola e compactação. A posse de bola, para valer, tem de ser dentro do teu campo, do teu goleiro. Se você der o chutão, não tem posse de bola. Tem de sair desde o goleiro e para isso tem de ter um goleiro que saiba jogar com o pé. Mas você p5de eventualmente ganhar sem ter saída de bola qualificada. Dou o exemplo do Leicester (campeão inglês da temporada 2016/2016). O Cláudio Ranieri colocava o time para frente, era muito chutão e velocidade. Então dá para ganhar assim também. Mas o ideal, na minha avaliação, é você ter um time que jogue.

Temos poucos grandes cobradores de falta. E porque se treina pouco?

Acho que o cobrador de falta é uma raridade. Nos times que treino, eu não me preocupo muito com a cobrança de falta direta. A não ser que eu tenha um exímio batedor. É muito difícil de achar. Eu gosto de trabalhar as jogadas, de surpreender. Eu tenho de ter jogador no meu time com aproveitamento de 65, 70% , mas não tenho não adianta ficar chutando bola na barreira. Eu tenho de criar situações para que eu possa usar a bola parada a meu favor com uma jogada inventada, trabalhada. Mas mesmo que eu tenho um grande batedor eu gosto de surpreender com uma jogada diferente.

Não dá para formar um batedor já no futebol profissional?

É difícil. Teoricamente, quando o jogador sai da categoria de base, ele tem de estar pronto para o profissional. Mas não chegam prontos. Não deveriam chegar com defeitos, mas chegam às vezes com defeito que o treinador de cima tem de corrigir. E às vezes não tem tempo, porque tem muito jogo. E você tem de preservar o garoto. O cara que chega em cima, teoricamente, tem de bater com uma perna bem, a outra não pode ser tão ruim, tem de saber cabecear. Só que não se chega em cima assim pronto.

Na sua época o jogador saía da base mais bem formado do que atualmente?

Talvez porque na época era muito difícil subir um garoto com 18 e entrar no time principal. Só se ele fosse muito bom. Hoje, muitas vezes o garoto de 17 é titular. Por que era difícil? Porque o time titular era bom. O garoto, por melhor que fosse, não conseguia, porque em cima tinha esses três, quatro craques. Então tú não botavas o guri. Tinha de esperar 19, 20, para estourar a idade e subia. Não tinha pressa de botar, porque em cima tinha jogadores melhores do que ele. Hoje, você às vezes atropela.

O futebol brasileiro perdeu suas características?

Qual é a característica que nós temos. A qualidade, a técnica. Isso nós não temos mais como antes. Isso pesa, a nossa qualidade sempre foi alta. Quantas vezes, numa peladinha de rua, te chamava a atenção aquele que botou a bola no calcanhar, no peito. Porque a gente tinha os olhos para isso... Nós tivemos uma campanha do Sul-Americano (sub-20) muito abaixo. Aliás, a gente resume tudo aí: as seleções, sub 20, sub 18, sempre foram referências. Hoje, o Brasil está fora do Mundial.

Depois do 7 a 1, falou-se que era preciso mudar muita coisa no futebol brasileiro. Mudou?

Falou-se isso quando o Santos perdeu para o Barcelona (4 a 0, em 2011) e não se fez nada. Em 2014, e não se fez nada. Está se falando, mas não se faz nada. A gente sabe muitas coisas, mas não consegue resolver. Mas tem de ir atrás, não é que você vai ter mais qualidade e vai ganhar (automaticamente). Mas a perda de qualidade é geral no País. O futebol é reflexo disso, ele meio que imita a vida. Tem duas maneiras de montar um time: fazer um esquema com base no que você tem na mão, que é o mais comum, porque os times não têm dinheiro, ou você diz: eu vou jogar assim. Aí o presidente que tem dinheiro vai e busca jogadores para jogar como o treinador quer. Isso é mais raro, são mais os ingleses, os caras que têm dinheiro e investem horrores, mas o mais comum é você adaptar o teu time aos jogadores que tem.

O Brasil tem uma boa geração? Dá para formar uma boa seleção para 2022?

Quando a gente fala de favoritos ao título de uma Copa, vamos dizer de 2030, normalmente se aponta Brasil, Argentina, Itália e Alemanha. Excepcionalmente não vai ter uma Itália, como aconteceu agora. Mas esses quatro você banca. Por melhor que seja hoje a Espanha tu não bancas a Espanha daqui a 10 anos. Nem a Bélgica. Porque é mais sazonal. Esses quatro países estão ali quase sempre. Isso é fato. Então acho que sempre vai fazer time bom. Ganhar, aí é diferente. Você precisa mais coisa, não só ser favorito.

Os técnicos reclamam que não têm tempo de armar uma grande seleção...

Eu acho que você tem pouco tempo porque tem quatro ou cinco dias (para treinar). Eu acho que, numa convocação, um treinador de seleção brasileira, por não ter tempo, tem de ser selecionador. Treinador ele vai ser quando tiver tempo. O que é selecionar? É você casar as características dos jogadores que possam dar certo sem tantos treinos. Jogadores que se conheçam. Não adianta trazer um zagueiro que joga no Brasil e outro na Europa. Só se eles se conhecem. Isso é  para se reunir terça para jogar domingo, eliminatória. Tem de selecionar características porque vai te ajudar no pouco tempo de treinamento que você vai ter. Treinar você vai quando tiver 20 dias para a Copa América, 25 dias para a Copa do Mundo.

Nessa mesmice do futebol brasileiro, ter um Sampaoli ajuda?

Eu sou contra reserva de mercado. Tem de valer a competência. Ele chegou, está trabalhando, tendo bons resultados. Tem de dar tempo. Acho bom esse tipo de trabalho. Uma pena que os brasileiros não possam fazer isso em outros lugares. Não temos nenhum brasileiro trabalhando fora. Eu não sei responder por quê. Falam que é a língua. Não é a língua. O Ancelotti trabalhou na Inglaterra em falar inglês, foi falar depois. Acho que tudo que pode contribuir é importante. Esse diálogo com treinadores de fora, tu sempre consegue passar e aprender alguma coisa. É bom você saber até para não se fechar... Eu falo de tática, de treinamento, de intensidade de treino, de metodologia, de um modo geral de como eles trabalham. E tem de tirar o chapéu para eles, porque são sábios.

Em que a gestão do futebol brasileiro pode ser melhorada?

Não tem uma coisa só. Os próprios clubes muitas vezes aceitam esse calendário. Os times que estão na Libertadores, eles começam a pré-temporada em janeiro, hoje em dia muitos vão para os Estados Unidos, não fazem pré-temporada adequada porque é jogo em cima de jogo. Aí começa o Campeonato Estadual, em seguida tem a Libertadores, começa a ter tanta competição que é difícil não ter desgaste do jogador. Nós temos muitos jogos. E muitas vezes os clubes são coniventes com isso.

A base é bem tratada no Brasil?

Não tenho conhecimento de todas as bases, mas vejo muita gente dizer que os times tinham de ter uma base melhor. Outro problema que para mim é importante: a base não te elege presidente para os próximos dois anos, quem tem elege é o time de cima. A base tinha de ser muito melhor tratada. Com bons profissionais, que não tenham objetivo, ambição de chegar ao profissional. O objetivo é formar jogadores, e formar homens. . Ai tu tem de ter o cuidado de ter gente na base que possa administrar para ensinar até mesmo o jogador para dar entrevista, criar escola para o jogador estudar, dar condições para que ele possa administrar o que ele vai ganhar no futebol, que ele tenha capacidade de saber que a vida é um pouquinho diferente do sonho de só jogar futebol. A base é fundamental para você ter um crescimento profissional.

Treinador é uma função solitária?

Embora todo mundo goste de opinar, cai tudo na mão do treinador, acho uma grande injustiça. Acho que sempre quem ganha são os jogadores, tu tem de orientar. Eu sempre digo a eles: se vocês fizeram nos jogos o que eu estou pedindo, e perder a culpa é minha. Mas se vocês inventaram coisas, não é. E todo mundo entende. Mas é legal, eu gosto, é adrenalina, mas tem de conviver com aquilo que eu chamo de periférico. O arbitro, o torcedor, a imprensa, isso você não tem controle. Nosso controle é em cima do nosso time, do treinamento, alimentação, do descanso, do trabalho físico.

O que falta para que o Neymar seja o que todos esperam dele, e que talvez ele mesmo espere?

Eu acho o Neymar fantástico, um talento raro. O Neymar tem a coisa principal, que é o talento. Eu acho que perdeu uma grande chance na Copa do Mundo. Volta no Neymar do Santos. As entrevistas dele eram sempre felizes, sorridentes. Ele sempre foi um guri alegre, simpático. Deixou de ser isso. Está sempre muito sério, às vezes bravo com alguém. Algumas vezes com razão, outras não. Mas ele não é aquele Neymar do sorriso, da simpatia. Se ele mantivesse isso, com o futebol que ele joga, ele seria o jogador mais simpático do mundo. Hoje ele é um dos mais antipáticos, por causa disso. 

Ele é muito criticado por suas atitudes...

Ele tem aqui um cara que gosta dele, mas alguém que está do lado dele tem de dizer: Neymar, aquela bola que você machucou tu demorou a soltar. O cara deu uma chegada, toca e sai, ele tomou a primeira, a segunda e a terceira. Lá no meio do campo não foi nem perto da área para cavar uma falta. Essas coisas, ele vai ter de amadurecer. O dia em que ele se der conta, até porque ele não é uma fortaleza física, que pode receber, partir, tocar um, dois e receber na frente, o futebol dele vai crescer muito.

A Copa de 2022 pode ser a Copa do Neymar?

Ele tem tudo para ser um jogador extraordinário na próxima Copa, desde que entenda isso. E deve ter gente que diz isso para ele. Agora se dizer que o que ele fizer está tudo certo.;.. Torço para ele porque é uma esperança, dá gosto de vê-lo jogar, mas ele se perde um pouquinho nessas horas. Você tem de ter a seu lado pessoas que te digam a real.

 

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