Preço do ingresso aumenta para favorecer TV

Quando cartolas e executivos de televisão dizem que os ingressos para partidas de futebol devem ter preços maiores, ou seja, proporcionais ao custo de montagem do espetáculo, encobrem uma das principais intenções da dita ?elitização? do esporte mais popular do País. Por trás de todos os discursos e argumentos, está um plano para chacoalhar o mercado de TV por assinatura, estagnado há pelo menos quatro anos, assim como aumentar a venda de jogos pelo sistema pay-per-view (PPV), quando o assinante paga separadamente pelo acesso à transmissão. A idéia é relativamente simples. Ao limitarem a presença nos estádios aos torcedores com maior poder aquisitivo, executivos e cartolas esperam que a parte menos privilegiada da população, que hoje consome os ingressos ?baratos?, migre para a televisão. O fenômeno, espera-se, incentivaria a venda de pacotes do Campeonato Brasileiro, assim como de partidas avulsas. Então fica no ar a inevitável pergunta: como o torcedor comum, com tantas dificuldades financeiras, poderia ser alvo da TV fechada? Na realidade, a intenção não é tornar assinantes todos os excluídos dos estádios. Sabe-se que a minoria migraria para o PPV. O que se vislumbra, de fato, são os locais de grande concentração pública. O diretor da Globo Esportes, Marcelo Campos Pinto, dá a receita ao ser estimulado a comentar o assunto. Para ele, defensor da elitização dos estádios, a parcela de torcedores mais humilde poderia dividir o custo do pay-per-view, por exemplo, com os amigos, o que representaria valor baixo para cada um. ?Isso poderia ser feito em bares ou restaurantes, desde que se regulamente a utilização do pay-per-view em locais públicos?, explicou o executivo, em recente passagem por São Paulo. Campos Pinto conta com apoio dos cartolas. O discurso é de que o gasto dos clubes, tanto com salários como com infra-estrutura (CTs, salas de fisiologia, viagens, prêmios, etc), cresceu muito nos últimos anos, o que não foi acompanhado pelo preço dos ingressos. Daí a necessidade de ?adequar? os valores e não aumentá-los, como costumam dizer os dirigentes. MERCADO ? Espera-se, portanto, que uma das conseqüências da elitização do futebol, senão a maior, seja o aumento do número de assinantes de TV paga e da venda de pacotes do Brasileiro. Só para se ter uma idéia, neste ano, segundo dados da Premiere Sport, canal da Globosat que comercializa PPVs, foram vendidos cerca de 250 mil pacotes do Campeonato Brasileiro. Estima-se que na edição 2004, esse número chegue a 280 mil, o que representaria aumento de 11%. Embora não briguem diretamente pela causa, os dirigentes de clubes têm motivos para ficar animados. Até 2003, o Clube dos 13 recebeu cota fixa (R$ 40 milhões) referente aos direitos de comercialização do PPV mais 50% do montante que transpusesse esse valor. Como o total vendido chegou a R$ 43 milhões, houve ainda um extra de R$ 1,5 milhão. Em 2004 a regra vai mudar. Segundo a assessoria da Premiere, não existirá mais a cota fixa. Empresa e clubes passarão a dividir os lucros. A projeção de vendas para a próxima edição do Brasileiro é de R$ 95 milhões. O otimismo se deve aos indícios de melhor organização. Com calendário e fórmula de disputa definidos, o trabalho de comercialização fica facilitado. Pela primeira vez desde o início do Nacional, em 1971, a fórmula de disputa será repetida.

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