Prefeitura não revela futuro do Pacaembu

Planos sobre utilização do estádio após despedida do Corinthians estão indefinidos

Gonçalo Junior e Vanderson Pimentel, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - O adeus que os jogadores do Corinthians vão dizer neste domingo ao Pacaembu coloca um ponto de interrogação no futuro do estádio mais charmoso e tradicional de São Paulo. Nem a Secretaria de Esportes e Lazer, órgão municipal responsável pela gestão do local, sabe o que vai acontecer. Por meio de sua assessoria, o secretário Celso Jatene afirmou que nada está definido sobre os jogos no estádio.

A falta de planos preocupa os 120 funcionários do estádio. Eles não temem necessariamente perder o emprego, mas não querem que o estádio fique abandonado e esquecido. As opiniões se dividem entre a esperança e o pessimismo. "Sem futebol, esse lugar vai murchar”, diz um funcionário. "Ele precisa de um novo projeto de administração, mas não vai virar um elefante branco. O Pacaembu tem vida própria", diz outro colaborador.

Desde 1982, o Corinthians adota o Pacaembu como seu lar. No dia 18 de maio, porém, fará seu primeiro jogo oficial na Arena Corinthians, sua casa própria a partir do segundo semestre. O adeus de hoje, no entanto, está com cara de até logo. Antes da Copa, é possível que o time mande mais duas partidas no Pacaembu, contra Atlético-PR, no dia 21 de maio, e Cruzeiro, no dia 29.

Fato semelhante deve acontecer com o Palmeiras, clube que mais levantou taças na arena – foram 26 ao todo. Em junho está prevista a inauguração da Allianz Parque. "O Pacaembu é como se fosse uma mãe. Os filhos saem, casam-se, mas de vez em quando voltam para a casa da mãe no fim de semana", diz outro funcionário do Pacaembu.

NA MIRA

O Santos é o principal candidato a ser o novo inquilino. "Se perguntarem: vocês querem o Pacaembu como segunda casa? A resposta será 'queremos sim', disse o presidente do Santos Odílio Rodrigues, em entrevista exclusiva à TV Estadão. O desejo da diretoria é se associar a um grupo privado para vencer a licitação da prefeitura, ainda sem data definida. A gestão ficaria por conta da parceira. Antes mesmo de sair do papel, o projeto encontra restrições. O primeiro deles é o tombamento do estádio como patrimônio histórico desde 1998. Ou seja, não dá para fazer um shopping ou um conjunto de escritórios ali. Outro limite foi colocado pela comissão técnica do próprio Santos: o técnico Oswaldo de Oliveira bate o pé e quer jogar na Vila.

O ex-jogador Wladimir, diretor do Pacaembu por quase quatro anos, sugere uma aproximação do estádio com a população e com a iniciativa privada. "Esse é o momento de a população utilizar as modalidades que ele oferece. Em relação ao futebol, o estádio pode continuar abrigando as decisões de torneio de várzea", argumenta.

Um dos torneios que costuma ser decidido no Pacaembu é a Copa Kaiser, maior campeonato de futebol de várzea de São Paulo. Em 2012, a final atraiu 20 mil pessoas, um recorde em torneios amadores. Em 2013, os jogos tiveram de ceder o espaço para o Santos, que decidiu jogar na capital.

Mesmo que os campeonatos amadores vinguem, a conta não vai fechar sem o futebol profissional. Atualmente, os custos para manter o estádio são de aproximadamente R$ 5 milhões por ano, segundo a própria secretaria. O que pesa mais é a manutenção do gramado, que gira em torno de R$ 60 a 80 mil por mês. Em contrapartida, para um jogo à noite, a Prefeitura cobra aluguel de R$ 61.800 ou 12% da receita bruta em partidas realizadas de dia.  Nessa conta, a realização de shows não é opção. "Há uma liminar de 2005 que proíbe a realização de eventos não desportivos no Estádio e na Praça Charles Muller. É uma decisão judicial e não uma vontade de um ou de outro", diz Rodrigo Mauro, da Associação Viva Pacaembu, que alega que esses eventos são prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde dos moradores.

Como o leque de opções de renda está fechado, é preciso retomar o argumento de Wladimir: o Pacaembu não é só futebol. O complexo poliesportivo possui 48 mil cadastrados e é oxigenado diariamente por 1200 pessoas que pagam apenas pelo uso dos ginásios, quadras de tênis e também pelo campo de futebol. O resto é de graça. 

O futebol é a cereja do bolo e, como disseram os funcionários, o problema é o esquecimento. Quem mata a charada dessa dor coletiva por causa de uma despedida que nem é despedida de verdade é o atacante Edu, ex-Santos. Para ele, a resposta sobre o futuro está no passado. "Todas as torcidas têm uma história boa para contar sobre o Pacaembu", afirma. "Isso não vai acabar".

CONCHA ACÚSTICA

Por dez anos (1940 a 1950), o Pacaembu foi o maior estádio da América do Sul recebendo até 70 mil pessoas. Perdeu o trono para o Maracanã, mas mesmo assim representou o estado de São Paulo na Copa de 50, sediando seis partidas.

Influenciado pelo estilo art deco, mistura elegante e funcional de várias escolas, o estádio sofreu várias intervenções. A mais importante foi a criação de uma grande arquibancada. O Tobogã substituiu a concha acústica, que havia sido concebida como palco para apresentações musicais, mas que foi pouco utilizada. A partir de 1960, o Pacaembu perdeu espaço para o Morumbi, mas continuou imponente, por causa da localização privilegiada e pelo charme.  

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