Real Madrid/Divulgação
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Preparação profissional faz europeus pagarem caro por promessas do Brasil

Com a profissionalização dos estafes dos jogadores, eles chegam cada vez mais cedo e preparados ao Velho Continente, mas custam cada vez mais caro

Renan Fernandes, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2019 | 04h30

Dois jovens chamaram a atenção na atual janela de transferências na Europa. João Félix, de 19 anos, foi comprado pelo Atlético de Madrid por 126 milhões de euros (R$ 519 milhões), enquanto o zagueiro De Ligt, de 19 anos, custou 85,5 milhões de euros (R$ 369 milhões) a Juventus. As altas cifras envolvendo jovens que trocam de clubes dentro no Velho Continente é uma tendência. Hoje, no Top 5 das contratações mais caras da história, três estavam com menos de 21 anos quando foram negociados. Mas, se antes o mercado para essas cifras milionárias era restrito de um clube europeu para outro, agora as equipes se sentem mais confortáveis para investir pesado em jovens de outros países, principalmente no Brasil, como aconteceu com Vinicius Junior e Rodrygo, comprados por 45 milhões de euros (R$ 201 milhões) antes mesmo de completarem 18 anos.

"Os clubes hoje tem pagado grandes valores nos jovens, pois sabem que este investimento pode garantir no futuro um retorno maior, uma possibilidade de maior sucesso. Quanto mais jovem chegam no exterior, existe um tempo maior para se adaptar aos hábitos, entender o clube, a cultura, as maneiras de jogar, de trabalhar, e isso faz com que eles sejam lapidados profissionalmente, com tranquilidade para dar resultado em um futuro próximo", explica o empresário Nick Arcuri, da agência Un1que Football.

O Brasil sempre foi uma reserva de talentos brutos para o mercado internacional quando se fala de futebol. No entanto, as equipes do exterior tinham receio de investir altas cifras. O principal motivo era a dificuldade dos brasileiros se adaptarem. Língua, temperatura, sistema de trabalho e, por último, a exigência tática, sempre faziam os atletas acabarem pedindo para voltar. 

Mas essa realidade vem mudando nos últimos anos. Parte desse motivo é a profissionalização dos estafes dos jogadores. Cada vez mais pessoas e empresas estão preparadas para cuidar de questões financeiras, jurídicas, de imagem e até auxiliando com acompanhamento psicológico. Este tipo de serviço também ajuda a dar suporte contratual e serve para municiar e preparar o atleta para a realidade dos clubes que desejam contar com seus serviços.

"Com a profissionalização do estafe, os jogadores são munidos de informações para cada clube e cada país aos quais são transferidos. Antes, sem essas informações, isso demorava muito mais tempo e criava dificuldades", aponta Arcuri. "Os mais jovens, que os europeus estão mais focados, têm menos dificuldades com cultura, língua, parte tática e relacionamento com os outros atletas. Isso tem sido muito positivo, pois o estafe prepara ele antes da venda, e assim este chega melhor preparado e abastecido de informações."

Claro que vários brasileiros brilharam no futebol internacional, mas eles geralmente já eram mais experientes e consolidados. É o caso de Zico, que deixou o Flamengo para defender a Udinese com 30 anos ou Falcão, que foi  para a Roma, aos 27 anos, para se tornar o Rei na capital italiana.  

Uma nova geração

No dia 18 de junho, o brasileiro Rodrygo foi apresentado no Real Madrid e fez toda a coletiva de imprensa em espanhol. Este fato foi muito elogiado pela imprensa local e mostrou um pouco dessa mudança de postura dos jogadores formados no Brasil. No caso do jovem revelado pelo Santos, outro fator que contribuiu em seu desenvolvimento foi o pai Eric Goes.

 

Lateral-direito com passagem por várias equipes do interior de São Paulo, ele conhecia e pôde mostrar de perto para o filho as vantagens e as dificuldades da vida de um jogador desde muito cedo. "Ele, desde os seis anos, me acompanha. No vestiário, vendo palestras, vídeos, participando de treinos... Ele viu muito cedo o que é a vida de um atleta, com uma proporção, claro, menor do que é a situação dele hoje. Ele se preparou muito cedo e, quando surgiu no Santos, aos 16 anos, aquilo não era novidade.", conta o ex-jogador, que abandonou a carreira aos 34 anos para cuidar da carreira do jovem astro que tinha em casa.

No Real Madrid, a ideia de comprar jovens talentos e desenvolvê-los ganhou força com o sucesso de Vinicius Junior. O jovem revelado pelo Flamengo também só foi para a Europa depois de completar a maioridade. A ideia era usá-lo no time B e acompanhar de perto seu desenvolvimento nos treinos. Mas o talento falou mais alto e, pouco mais de seis meses depois, Vinicius Junior já estava sendo presença constante no time titular do Real.

"Hoje, desde a base, já existe uma preparação muito grande e essa geração do Rodrygo tem todo esse preparo, que envolve os clubes, familiares e estafe, para que eles cheguem ao profissional bem preparados e cientes do que ajuda e do que atrapalha no desenvolvimento da carreira", reforça Eric Goes, lembrando que também é necessário dar um pouco de espaço para os jovens se divertirem. "Eles precisam passar por momentos de lazer, até pela idade, mas tudo com equilíbrio."

 

Formação dividida

Cada vez mais atraídos pelos dólares e euros das mais diversas regiões do globo, os times brasileiros também acabam mudando um pouco o processo de formações de seus atletas, como explica o técnico Vinícius Bergantin, do Ituano. "Muitos clubes pensam em formar o jogador para o mercado e não para a necessidade de sua equipe profissional. Eu acho que dá para formar um jogador pensando em fazer sucesso no profissional. Com isso ele vai despertar o interesse do exterior. É uma pena, porque assim focamos muito mais no futebol e resultado e não na formação", argumenta.

Outro ponto levantado pelo treinador, que começou nas categorias de base clube do interior paulista no sub-15 e foi até o sub-20 antes de assumir no time principal, é o método como os europeus entendem que estão pagando por atleta em desenvolvimento e vão precisar terminar o processo de 'lapidação'.

"Eles buscam sempre esse talento nato brasileiro e lá eles terminam esse processo de formação com a parte tática, da técnica individual, coisas que eles trabalham muito bem lá", explica. "É uma pena que esse valores saiam muito cedo, mas é difícil competir os valores que eles pagam. Os clubes aqui acabam sustentados com essas vendas e para o jogador também é muito vantajoso ganhar em euro, dólar."

Bergantin foi o técnico que lançou no Campeonato Paulista o jovem Gabriel Martinelli, de 17 anos na época, eleito revelação da competição, e que já foi negociado com o Arsenal da Inglaterra. "Claro que ele vai passar por essa adaptação ao país, mas ele é muito acima da média em duas coisa: tecnicamente e a cabeça dele. Ele é muito profissional, se você conversa com ele parece estar falando com um atleta de 25 anos".

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