Rubens Chiri/ São Paulo FC
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Mauro Cezar Pereira
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Presidente do São Paulo previu ter a maior torcida no Brasil. Hoje lida com a realidade

Em 2006, então diretor de marketing Júlio Casares apostou que tricolor superaria Corinthians e Flamengo

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00

No final de 2005, quando começava a se autointitular o “Soberano”, o São Paulo anunciava que, a partir de janeiro, seria colocado em prática um projeto ambicioso. O clube pretendia ter, em no máximo uma década, a maior torcida do Brasil, superando Corinthians e Flamengo.

“Temos a terceira maior torcida e há pesquisas que mostram a diminuição de diferença. Se trabalharmos bem, é possível ultrapassar os outros dois em oito ou dez anos, no máximo?”, disse, ao Estadão, o então diretor de marketing são-paulino, Julio Casares.

A declaração foi publicada em 27 de dezembro de 2005, nove dias depois da vitória sobre o Liverpool, no Japão, que valeu o terceiro título mundial. E aquilo não era dito em tom de galhofa ou brincadeira, mas sério, seríssimo.

A ideia era ampliar torcida são-paulina no Norte e no Nordeste. O marqueteiro falava em projeto de fidelização e pretendia utilizar o Morumbi para atrair novos torcedores. Foi criado até o “batizado tricolor”, para que pais pudessem batizar seus filhos no estádio, com certificado e tudo.

A ideia não ficou nas declarações pós-Mundial. Em 8 de dezembro de 2006, o portal UOL publicou novas frases de Casares sobre o sonho de fazer do Tricolor o time de maior torcida no País. “O São Paulo perdia do Palmeiras e atualmente já está bem à frente”, afirmou.

O tempo passava, o clube empilhava títulos e a torcida não se aproximava sequer das de Flamengo e Corinthians. Mas o diretor de marketing não desistia, chegava a desenvolver teses segundo as quais, se pesquisadores mudassem o tom das perguntas aos entrevistados, o resultado mudaria.

Em 16 de outubro de 2007, o São Paulo era campeão brasileiro e estava próximo do bi. O site Globoesporte publicou novas declarações de Casares na mesma linha, embora quase dois anos já tivessem se passado e nenhuma alteração significativa fosse registrada em tamanhos de torcidas.

“Não basta apenas ter um time competitivo, que ganhe títulos, e seja campeão todos os anos, como no nosso caso. Mas é preciso oferecer uma gama de ações de marketing e produtos que se identifiquem com as crianças. Os nossos focos são esses”, tentava ensinar, na oportunidade.

Na prática, tudo não passou de factoide, de conversa para ocupar espaço na mídia. As palavras de Casares desapareceram ao sabor do tempo e, enquanto ele corria, o São Paulo deixava de ter times tão fortes, convivia com erros seguidos e entrava em terrível jejum de conquistas.

Era absolutamente impossível que em dez anos os tricolores fossem mais numerosos do que corintianos e rubro-negros. Ainda mais com o rival paulista ganhando vários títulos estaduais, nacionais e internacionais durante a seca são-paulina, com uma taça apenas depois de 2008. Hoje, outro tradicional adversário, o Palmeiras, vive grande fase, ganhando troféus como a Libertadores. O mesmo acontece com o time mais popular do Brasil, o Flamengo, vencedor dos dois últimos Brasileiros e com a torcida cada vez maior.

Casares herdou problemas no São Paulo, dívidas com jogadores, atletas caros fora dos planos que acabam sendo emprestados com o clube pagando metade dos salários, etc. Na presidência não cabem devaneios e previsões que se transformam em promessas impossíveis.

Ele tem pela frente o desafio de fazer o time novamente campeão, para isso precisa montar bom time, mas não há dinheiro. O caminho pode passar por um marketing eficiente, desconectado de previsões furadas, apoiado na realidade e no potencial da enorme, e sofrida, torcida tricolor.

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