Kimimasa Mayama/Reuters
Kimimasa Mayama/Reuters

Presidente do Sport diz ter pago pela convocação de Leomar à seleção

Luciano Bivar diz que contratou lobista para pôr volante na equipe em 2001, técnico na época, nega

Almir Leite, O Estado de S. Paulo

08 Março 2013 | 15h02

SÃO PAULO - O presidente do Sport, Luciano Bivar, remexeu no passado e levantou nesta sexta-feira uma polêmica que pode se transformar no novo escândalo no futebol brasileiro. Ele disse ter pago um lobista para interferir na CBF e conseguir a convocação de Leomar para a seleção brasileira que disputou a Copa das Confederações em 2001. O volante foi chamado para a competição, que teve jogos no Japão e na Coreia do Sul. Emerson Leão, técnico da seleção brasileira à época, disse não ter cabimento as declarações do cartola, e defende que a denúncia deve ser investigada a fundo.

Bivar fez a "revelação'' em entrevista à Rádio Transamérica do Recife. "Eu empurrei um jogador para a seleção pagando comissão. Foi na época de Leomar", disse durante a entrevista. "Não vou falar o nome (de quem recebeu a comissão), não vou levantar defunto.''

Mais tarde, o atual presidente do Sport, que também estava no comando do clube em 2001, alterou sua versão. “Todo mundo faz lobby no futebol brasileiro. Pergunte a Felipão, por exemplo, quantos procuradores ligaram a ele pedindo para que alguém fosse convocado. Essa é a realidade do futebol brasileiro.Com o Leomar, houve o pagamento para um lobista.”   Ao Estadão, Bivar deu mais explicações. “O que falei foi que, no passado, eu tinha um atleta que era propriedade do clube, o Leomar, e que nós contratamos um lobista para levar o scout (estatísticas) dele para a comissão técnica da seleção brasileira, para que fosse convocado’’, disse. “Se o lobista ganhou um dinheiro mole sem fazer nenhum trabalho ou se o Leomar foi convocado pelo seu talento eu não sei. Espero que tenha sido pelo segundo (motivo).’

Leão, que está atualmente sem clube, ficou revoltado com a insinuação. "Ele falou besteira e agora deve ser apertado para dizer quem foi (que recebeu o dinheiro). Vai ter de provar, embora já tenha corrido daquilo que disse inicialmente. É preciso investigar a fundo e quem fez isso tem de ser preso'', afirmou.

O treinador explicou que, no período em que esteve à frente da seleção, entregava a lista de convocado duas horas antes da divulgação para o então diretor de futebol, Antonio Lopes. "E ele é uma pessoa de altíssima honestidade, inclusive é delegado. Ninguém tinha acesso. Nem o presidente da CBF.''

O treinador não fala o nome de Ricardo Teixeira, presidente da entidade em 2001. Teixeira mandou Lopes demiti-lo quando a delegação estava no aeroporto de Narita, em Tóquio, para retornar ao Brasil depois do fracasso naquela Copa das Confederações. Leão se diz à disposição para qualquer esclarecimento e acrescentou. "Vocês podem ligar para os Estados Unidos e perguntar ao presidente da CBF sobre isso. Na minha época, não tinha lobby.''

Teixeira é defendido também por seu sobrinho, Marco Antonio Teixeira, apesar de ambos estarem rompidos. Em 2001, Marco Antonio era secretário-geral da CBF. “Ricardo não tinha interferência no processo de convocação. Ele nem queria saber. Eu era diretor da seleção e posso garantir que não existia lobby.’’

Questionado sobre os motivos da convocação de Leomar, que no total atuou seis vezes pela seleção e em 2002 foi negociado com o futebol sul-coreano, Leão justificou. “Por que eu chamei o Leomar? Porque o presidente da CBF à época (Ricardo Teixeira) não permitiu que eu convocasse jogadores do exterior nem dos clubes grandes brasileiros.’’

Bivar diz não se lembrar do nome do lobista nem quanto pagou a ele. “Mas, mesmo que lembrasse, não revelaria. É um questão de ética'', justificou. "Só queria que ele colocasse o Leomar na seleção ou num grande clube para que eu pudesse vendê-lo depois.’’ Também garantiu não temer possível ação judicial.

A CBF, por meio de sua assessoria, informou que a entidade não foi citada, “e portanto não vai se pronunciar sobre o assunto’’

DÍVIDA

Em 2001, o Sport devia certa de R$ 1 milhão a Leão, que havia trabalhado no clube no ano anterior. Era sua segunda passagem pelo clube. A primeira foi em 1987/1988. Na ocasião, levou o clube pernambucano ao título brasileiro de 1987. O Sport havia ganho o Módulo Amarelo da competição e ficou com a taça, pois o Flamengo, campeão do Módulo Verde, se negou a disputar uma decisão.

Leão renegociou há alguns anos a dívida e ainda hoje a estaria recebendo, em parcelas mensais. Sua última passagem pelo clube foi na temporada de 2009. 

Hoje empresário de jogadores, Leomar garate não saber se nenhum lobby para sua convocação em 2001 e acredita que foi chamado por seus méritos, pois atravessava boa fase. E Leão já o conhecia, pois o havia comandado no Sport no ano 2000.

Atualmente deputado federal, Romário, um dos maiores críticos da CBF, aproveitou a "corajosa'' denúncia de Bivar para pedir, por meio de sua conta no Twitter, a instalação de uma CPI que investigue todos os possíveis casos de corrupção na entidade que dirige o futebol nacional.

 

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