Marcos Oliveira/Agência Senado
Marcos Oliveira/Agência Senado

Presidentes da CBF movimentaram pelo menos R$ 270 milhões na preparação do Brasil para a Copa

Romário pede indiciamento de cartolas por estelionato e lavagem de dinheiro

Jamil Chade, correspondente em Genebra, e Isabela Bonfim, de Brasília, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2016 | 19h34

Os três últimos presidentes da CBF, incluindo o atual, Marco Polo del Nero, movimentaram apenas no Brasil mais de R$ 270 milhões em suas contas privadas. Informes de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) indicaram que uma parte substancial desses recursos está sob suspeita. Mas o volume sequer contabiliza o que poderia envolver contas no exterior.  

Com base nessas informações e após se dizerem frustrados com o parecer oficial do relator Romero Jucá (PMDB-RR) na CPI do Futebol, os senadores Romário (PSB-RJ) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP) apresentaram um relatório alternativo em que pedem o indiciamento de nove pessoas, entre elas Marco Polo Del Nero, José Maria Marin e Ricardo Teixeira. De acordo com o texto, há materialidade de crimes de estelionato, lavagem de dinheiro, caixa dois, entre outros. A esperança de Romário é de que as informações sejam repassadas para o Ministério Público e para o Comitê de Ética da Fifa, na esperança de que leve a uma suspensão de Del Nero.

O relatório alternativo levanta uma série de suspeitas que incluem desde um suposto superfaturamento da sede da CBF, dúvidas sobre a compra de um barco por Del Nero, favores de emissoras, contratos de patrocinadores, relações pouco transparentes com a venda de imóveis e dezenas de indícios sobre pagamentos sem justificativa comercial. “O recebimento de vantagens indevidas por parte dos dirigentes da CBF é uma realidade. São indevidas porque resultam em prejuízos à própria instituição, já que tais valores poderiam ser revertidos em prol do futebol brasileiro", indicou o informe. “Os valores superfaturados correspondem aos valores das vantagens indevidas que deverão ser pagas a dirigentes da CBF”, apontou.  

Segundo a apuração, o esquema envolvia um padrão e, em muitas ocasiões, envolvendo o Grupo Águia, parceiro da CBF. “Os dirigentes da CBF, mediante combinação de pagamento de vantagens pessoais, direcionam a contratação dos serviços de agenciamento de viagens (fornecimento da logística do Campeonato Brasileiro, compreendendo passagens aéreas, estadias em hotéis e translado em ônibus no trecho aeroporto-hotel-estádio aos times visitantes) para os agentes econômicos do Grupo Águia”, alerta. 

O maior volume de recursos sob suspeita estaria ligado a Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF. Segundo um relatório de inteligência financeira do COAF, ele teria movimentado R$ 229 milhões entre 2007 e 2012. Desse total, a instituição acredita que R$ 149 milhões estão sob suspeita por não ser compatível com o patrimônio do ex-cartola. 

Nesse período, ele recebeu R$ 13 milhões do ex-presidente do Barcelona, Sandro Rosell, mais de R$ 5 milhões da Fifa, R$ 4,4 milhões do Comitê Organizador da Copa e R$ 3,5 milhões da CBF. Sobre Del Nero, as movimentações detectadas pelo COAF chegaram a R$ 27,5 milhões. Depósitos ainda foram registrados em relação ao empresário Wagner Abrahão, um dos parceiros da CBF e dono do Grupo Aguia.

“Chamam a atenção as evidências encontradas no material apreendido na casa de Marco Polo Del Nero, no âmbito da Operação Durkheim, no sentido de que Wagner Abrahão exerce grande influência junto à Presidência da Confederação Brasileira”, indicou. Entre os e-mails, pode-se ler “a intermediação e a assessoria para a aquisição de uma aeronave de luxo e a intermediação de contrato de patrocínio à CBF pelas empresas GOL e MARFRIG”. 

Além disso, entre 2013 e 2015, o dirigente recebeu R$ 4,5 milhões da CBF, R$ 2,4 milhões da Federação Paulista e mais R$ 2,2 milhões da Fifa. Já Marin, que cumpre prisão domiciliar nos EUA, movimentou R$ 15,5 milhões entre 2013 e 2015, um valor considerado “incompatível com seu patrimônio”. Apenas no ano da Copa, ele mantinha R$ 350 mil em espécie. Oficialmente, ele recebeu ainda R$ 5,3 milhões do COL e R$ 4,8 milhões da CBF. 

“O relatório expõe movimentação financeira sobre uma série de operações de câmbio realizadas pela CBF, em 2010, de saída e de entrada de recursos, para não correntista nas modalidades de comércio exterior e operações financeiras”, alerta a CPI. “Referida movimentação foi enquadrada com indício de atipicidade por se tratar de proposta de troca de grandes quantias em moeda nacional por moeda estrangeira”, explicou.

Diante dos dados, os senadores optaram por rejeitar o documento apresentado pelo relator da CPI, Romero Jucá. "Não podemos esconder um certo desapontamento por tudo que poderíamos ter feito e não foi permitido. A CPI foi limitada pelos inúmeros obstáculos articulados pelo lobby financeiro que sustenta os interesses da CBF, um dos maiores lobbys atuantes no Congresso Nacional", afirmou o senador Randolfe ao apresentar seu relatório.

Randolfe acusou o relatório de Jucá de ser "chapa branca" e tratar de temas gerais do futebol, enquanto o objetivo central da CPI era a investigação de esquemas de corrupção. Jucá se defendeu e disse que essa não era uma competência da CPI. "Eu não me sinto à vontade. A CPI não indicia ninguém. Eu não vou ensinar ao Ministério Público o serviço dele", alegou.

Romário também rebateu Jucá e afirmou que a sugestão de indiciamento é sim um papel da CPI, que pode ou não ser acolhido pela Procuradoria Geral da República. De acordo com os senadores, o parecer com mais de mil páginas será encaminhado também para o Ministério Público, a Polícia Federal, outros órgãos de investigação e para a FIFA.

O relatório alternativo sugere que Del Nero, Marin e Ricardo Teixeira sejam indiciados por estelionato, lavagem de dinheiro, crime contra a ordem tributária e financeira. Del Nero e Marin acumulam ainda a acusação de organização criminosa. Del Nero e Teixeira foram acusados de crime eleitoral considerando envolvimento em episódios da FIFA e financiamento não declarado de campanhas eleitorais pela CBF, o conhecido "caixa 2". Por último, Marin recebeu ainda a acusação de falsidade ideológica.

Também fazem parte da lista de pedidos de indiciamento os vice-presidentes da CBF, Gustavo Dantas Feijó e Marcus Antônio Vicente, que é também deputado federal pelo PP, o ex-diretor financeiro da entidade, Antônio Osório Ribeiro Lopes, o diretor jurídico Carlos Eugênio Lopes, além dos empresários Kleber Fonseca de Souza Leite e José Hawilla, este último, réu-confesso, denunciou os esquemas de corrupção ao FBI nos Estados Unidos em 2015.

Próximos passos. A CPI concedeu vista coletiva aos relatórios. Tanto o parecer oficial de Jucá, como o texto alternativo de Randolfe e Romário podem ser votados. A expectativa é que a CPI se reúna novamente na próxima semana para a análise dos pareceres, mas o próprio Romário considera que deve prevalecer o relatório oficial.

"Infelizmente, o nosso relatório agrada menos do que o relatório do Jucá em relação ao plenário da CPI, mas eu espero que esses senadores até lá tenham tempo para mudar de ideia", afirmou. 

Confira as acusações feitas no relatório alternativo da CPI do Futebol:

MARCO POLO DEL NERO - Presidente da CBF

Estelionato; crime contra a ordem tributária; crime contra o Sistema Financeiro Nacional; lavagem de dinheiro; organização criminosa; crime eleitoral, considerando o seu envolvimento nas infrações penais listadas nos capítulos referentes à compra da sede da CBF; ao caso FIFA; e ao financiamento não declarado de campanhas eleitorais pela CBF (caixa 2).

GUSTAVO DANTAS FEIJÓ - Prefeito de Boca da Mata (AL)

Crime eleitoral, considerando o seu envolvimento nos ilícitos penais listados no capítulo referente ao financiamento não declarado de campanhas eleitorais pela CBF (caixa 2).

ANTONIO OSÓRIO RIBEIRO LOPES DA COSTA - Ex-diretor financeiro

Estelionato; crime eleitoral, considerando o seu envolvimento nas infrações penais relacionadas nos capítulos referentes à compra da sede da CBF; e ao financiamento não declarado de campanhas eleitorais pela CBF (caixa 2).

MARCUS ANTONIO VICENTE - Deputado federal (PP-ES)

Falsidade ideológica, considerando o seu envolvimento no ilícito penal apontado no capítulo referente ao acordo fraudulento juntado no Superior Tribunal de Justiça – STJ, ressalvada prerrogativa constitucional prevista no art. 102, inciso I, alínea b, da Constituição Federal de 1988.

JOSÉ HAWILLA - Empresário (preso nos EUA)

Estelionato; crime contra a ordem tributária; crime contra o Sistema Financeiro Nacional; lavagem de dinheiro organização criminosa, considerando o seu envolvimento nos ilícitos penais listados no capítulo referente ao caso FIFA.

KLEBER FONSECA DE SOUZA LEITE - Empresário

Estelionato; crime contra a ordem tributária; crime contra o Sistema Financeiro Nacional; lavagem de dinheiro; organização criminosa, considerando o seu envolvimento nos ilícitos penais listados no capítulo referente ao caso FIFA.

CARLOS EUGÊNIO LOPES - Advogado da CBF

Falsidade ideológica, considerando o seu envolvimento no ilícito penal apontado no capítulo referente ao acordo fraudulento juntado no Superior Tribunal de Justiça – STJ.

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