Preso em regime semiaberto, Breno já faz planos para o futuro

Condenado por incendir a própria casa, o zagueiro quer voltar a jogar e já tem contrato com o São Paulo

GONÇALO JUNIOR, O ESTADO DE S. PAULO

08 de setembro de 2013 | 08h30

SÃO PAULO - Apesar da inocência dos seus três aninhos, Pietro ficava encafifado porque o pai não voltava do trabalho. A angústia durou os 13 meses em que Breno esteve preso em regime fechado em Stadelheim, em Munique. Ele via o pai nas visitas, mas não era a mesma coisa. Para proteger o menino da espinhenta palavra “prisão”, a família usava uma menos dolorida, “trabalho”. No fundo, foi uma meia verdade, pois Breno era voluntário na lavanderia do presídio e, por causa dessa atividade, está voltando a ser um homem livre.

Agora ele tem um trabalho de verdade, sem aspas. A prisão em regime semiaberto foi concedida em 19 de agosto como medida de reabilitação pelo bom comportamento do jogador. Ele sai do cárcere às 8h30 e vai ao centro de treinamento do Bayern para exercer a função de assistente técnico da equipe juvenil. Fica lá por cinco horas e pode treinar com os reservas do sub-23. Breno estará em liberdade em abril de 2016. De acordo com a lei alemã, ele será deportado. Estará com 25 anos. No sistema alemão, é possível acreditar em reabilitação. Breno dividia sua cela com apenas outro prisioneiro. No regime fechado, praticava esporte uma vez por semana e o prato mais comum era um razoável peixe com purê de batatas.

Breno já faz planos. Na única aparição pública até agora, o zagueiro disse que seu sonho é voltar a jogar. “Virei uma pessoa diferente. O período na prisão tem sido duro para mim e estou feliz de que o Bayern me deu esta oportunidade”. Os advogados de defesa negaram o pedido de entrevista do Estado e a mulher Renata Borges não quis se manifestar.

No final do ano passado, o Bayern não renovou seu contrato e o São Paulo, time no qual ele começou a carreira, deu o bote. Kalil Rocha Abdalla, diretor jurídico na época e atual candidato à presidência, afirma que o clube oferece uma ajuda financeira para a família e tem interesse em contratá-lo. “O São Paulo quer ficar com o atleta”, diz Abdalla, citando uma remota possibilidade de liberdade condicional em janeiro de 2014.

O zagueiro foi condenado a três anos e nove meses de prisão por ter causado incêndio em sua própria casa no bairro de Grunwald, em Munique. A mansão de R$ 2,5 milhões foi destruída pelo fogo. Os filhos Isabela, Flávio e Pietro e a mulher não estavam em casa. Na época, Breno falou em curto-circuito e diz que não se lembra do que aconteceu.

Nos dias anteriores, ele havia recebido a notícia de que seria operado do joelho mais uma vez. O problema era recorrente e o impediu de se firmar no time alemão. A questão financeira também estava pegando. Pela lei alemã, quando um atleta fica mais de 45 dias sem atuar, ele passa a receber um seguro entre 5 mil e 10 mil euros (R$ 12,3 mil a R$ 25 mil). Na noite do incêndio, a cerveja, o vinho do Porto e o uísque que consumiu deixaram vestígios de 1,6 g de álcool nos exames feitos pela polícia alemã. No Brasil, isso é o triplo do limite estabelecido para a prisão por embriaguez ao volante por exemplo.

A terra natal Cruzeiro não virou as costas para o filho famoso. “Sempre vamos falar bem dele. O Breno nunca esqueceu suas raízes e terá o nosso apoio”, diz Rodrigo da Silva Ferreira, diretor de Esportes da prefeitura.

O bar do Zezé, ponto de encontro dos moradores, tinha uma parede forrada com pôsteres, coletados por Aílton Ferraz, amigo de infância. “Ele é meu irmão”, orgulha-se. Uma reforma recente, no entanto, varreu as fotos para a memória dos cruzeirenses. Nas paredes, não haviam fotos dos churrascos que Breno fazia para os amigos nas férias, nem as chuteiras e bolas que doava para a escolinha da prefeitura.

O poder público fez bom uso dessas doações. Cruzeiro é próspera para revelar talentos. Além de Breno, saíram de lá Rosinei (Atlético Mineiro), Bruno Mendes (Botafogo), a maratonista Adriana da Silva, entre outros. Hoje, o programa de iniciação esportiva conta com mais de três mil adolescentes e levou a cidade ao 6.º lugar nos Jogos Regionais, a melhor campanha da história.

A cidade de 77 mil habitantes não segurou o zagueiro por muito tempo. A partir de 2007, seu primeiro ano no São Paulo, teve uma carreira meteórica. Melhor zagueiro da campanha do título brasileiro, foi contratado pelo Bayern por 12 milhões de euros. É por causa desse passado glorioso que o São Paulo quer Breno de volta.

BOM E MAU

Zé Sérgio, auxiliar da Ponte Preta e que escalou o zagueiro no São Paulo na Copa São Paulo de Juniores em 2007, conta que o pai de Breno, Claudio, pedia ajuda para controlar o comportamento do menino na escola. Breno também tinha problema com os horários dos treinos. “Ele era fechadão, mas obediente. Parece que tinha um pavio curto meio enrustido”.

Braz Rocha, o primeiro treinador de Breno, tem um olhar mais açucarado. “Ele deu R$ 5 mil para minha cirurgia na vesícula”, diz seu primeiro treinador, que sabe de cor o aniversário do eterno pupilo. “Ele faz 24 anos no dia 13 de outubro”.

A história de Breno vai um pouco além das coisas boas e ruins que todo mundo faz. No momento do incêndio, ele vivia uma crise brava de depressão. O professor e psiquiatra Florian Holsboer, diretor do Instituto Max Plack e que acompanhou o caso do brasileiro, criticou a prisão na época. “É difícil quando um jovem chega com grandes expectativas a um país estrangeiro. As pessoas esperam que ele corresponda rapidamente. Aí, ele sofre uma lesão, não se recupera e isso pode afetar a sua cabeça”, argumentou ao jornal alemão Bild.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a depressão atinge 15% da população mundial. No Brasil, afeta 36 milhões de pessoas. “Esse distúrbio não é frescura ou crise existencial, como diz o senso comum. É um problema que tem de ser tratado com seriedade”, explica o psicólogo do Esporte Rodrigo Scialfa Falcão, afirmando que os clubes não perceberam a necessidade de psicólogos e psiquiatras nas categorias de base.

A família de Breno não aguentou o tranco. Assim que ele foi preso, os pais sumiram do mapa. “Não sei se eles ficaram com vergonha, mas sumiram. Dizem que estão em Jacareí, mas não dá para ter certeza”, diz Braz Rocha.

É um drama que passa de geração para geração. Não para a frente, porque Pietro é louco pelo pai. Mas para trás. “O pai do Breno disse que nós não podemos falar nada. E estou muito ocupada, com a panela no fogo”, corta a avó paterna, dona Maria Aparecida, batendo o telefone no gancho. Tum.

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