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Pressão precoce

A seleção não costuma ter vida mansa em Eliminatórias. Mesmo nos períodos em que esteve recheada de craques, enfrentou cobrança - maior ou menor, de acordo com o comportamento dela na trajetória para as Copas. Mas historicamente foi pressionada pelo torcedor. Mais por aqueles de Sul e Sudeste, menos pelos de Norte e Nordeste. 

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

12 de outubro de 2015 | 03h00

Os tempos mudaram, estão bicudos e a carga é generalizada sobre a turma da amarelinha, sem distinção de regiões. A paciência do público esvaziou, pelo acúmulo de trapalhadas, e não se esparramam rapapés para os rapazes com a mesma generosidade de outras épocas. Inclua-se no bloco a comissão técnica, no momento sintetizada na figura de Dunga.

Vem exigência por aí. A programação prevê para amanhã a segunda das 18 partidas na rota para a Rússia. Ou seja, há gramado a pisar e bola a rolar sem dó até a definição dos 4 representantes da América do Sul, em novembro de 2017 - fora a chance na repescagem para o quinto colocado. Colher de chá demais para só dez concorrentes.

Mesmo assim, o jogo com a Venezuela desponta com o carimbo de “perigo”. Certo, toda rodada tem peso, num cenário em que equipes antes insignificantes e candidatas a saco de pancadas evoluíram e passaram a incomodar os bichos-papões tradicionais. Estão aí os 2 a 0 do Equador sobre a Argentina, em Buenos Aires, para comprovar a reviravolta, ou, se preferir, para mostrar que “não há mais bobo no futebol”.

Porém, no caso desta terça-feira, em Fortaleza, a pressão precoce se justifica por diversos motivos. O Brasil deixou impressão ruim na estreia, na quinta-feira passada, em Santiago. Nem tanto pelo placar - 2 a 0 para o Chile atualmente não pesam como desonra. 

Desconfortável foi o desempenho insosso, sem graça, desprovido de emoção. A equipe que foi a campo parecia com tantas outras que existem no mundo da bola e que ficam na base do chove e não molha. Tão pasteurizadas e semelhantes que nem se distingue a nacionalidade, a não ser pelos escudos das federações que levam no peito. 

Eis a carência da seleção de hoje: mal se reconhece nela o jeito brasileiro de jogar, se é que ainda exista uma característica que o destaque. Jogadores comuns e globalizados, esquema manjado, com as variações e a combinação de números que inundam as telas de tevê. Criatividade pouca, ousadia no volume morto, desconforto nas derrotas parecido com o de político pego com a boca na botija, ou seja, quase nulo, como se não fosse com ele. 

Repare que, mesmo em derrotas, recorrem a palavreado padrão de que estão bem, no caminho certo, etc. Declarações feitas nas entrevistas coletivas obrigatórias ou nas zonas mistas. Idênticas, desprovidas de conteúdo, apressadas. Note como jogador está sempre com pressa, para recolocar o fone de ouvido ou para embarcar de volta para o país onde atua. Jogo de seleção é um entre tantos compromissos - e não necessariamente o mais importante. Nacionalismo de fachada.

Dunga acena com alterações na escalação. Por mais que defenda os moços que convocou, sabe que a seleção não nasce pronta nas Eliminatórias. O normal é o contrário, ela se molda à medida que a competição avance, para ter corpo, mentalidade, esquema, nomes delineados perto da disputa do Mundial. 

Com o que dispõe para o desafio com os venezuelanos, Lucas Lima desponta como opção no meio-campo, de preferência no lugar de Oscar. O santista tem jogado muito, como o companheiro dele Ricardo Oliveira. O artilheiro do Brasileiro, em 15 minutos em campo no Estádio Nacional, fez mais do que Hulk. Na defesa, Marquinhos tem nova oportunidade, com David Luiz machucado.

O Brasil entra pressionado e tem de aprender a conviver com o desconforto. Sem fazer cara feia nem considerar que críticos e públicos são antipatriotas. Papo furado. Aplausos e elogios virão como resposta ao que for mostrado pelo time. A bola, portanto, está com os jogadores e com o professor Dunga.

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