Epitácio Pessoa / AE
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Prestes a completar 110 anos, dérbi campineiro tem mais um capítulo neste sábado pelo Paulistão

Guarani e Ponte Preta se enfrentam no duelo que antecede o aniversário do clássico, muito rico em histórias

Josué Seixas, especial para o Estadão

18 de fevereiro de 2022 | 20h00

Veja só você que, um mês e cinco dias depois do clássico entre Guarani e Ponte Preta deste sábado, no Brinco de Ouro, pelo Paulistão, o dérbi campineiro completará 110 anos de história. Aquele primeiro jogo, disputado no dia 24 de março de 1912, porém, não tem resultado. É daqueles mistérios do futebol, meio como lenda, já que nem a oralidade conseguiu trazer luz ao que aconteceu.

De lá pra cá, foram disputados 201 jogos, distribuídos com equilíbrio entre os times. O Guarani é o maior vencedor, com 68, enquanto a Ponte Preta venceu 66 -  esse também é o número de empates. Cada time fez 267 gols. Nesse tempo, muitas brigas ganharam os holofotes. Agora, porém, o clássico é disputado com torcida única.

De acordo com o engenheiro mecânico, José Ricardo Mariolani, 62, "há quem diga que era uma rivalidade entre bairros, já que a Vila Industrial, local do primeiro campo do Guarani, é vizinha ao bairro da Ponte Preta, e esse campo não distava mais do que 600 metros da ponte pintada de preto que deu origem ao nome do bairro e do clube."

Mariolani se afeiçoou ao Guarani aos quatro anos, acompanhando seu pai e seu avô em um jogo. Aos 16, começou a anotar as fichas técnicas dos jogos do time e a coletar histórias interessantes, que publica no site jogosdoguarani.com. Segundo ele, prefere se ver como "uma testemunha ocular da história do Guarani do que um historiador."

Esse sentimento de pertencimento a um dos times está presente também no radialista Israel Moreira, de 41 anos. Ele criou a página "Histórias da Ponte" no fim de 2019 e aproveitou a pandemia para fornecê-la de conteúdo novo. Seu avô, Arlindo, fora voluntário na construção do Moisés Lucarelli em 1948 e repassou ao neto a paixão.

Ele passou a frequentar os jogos em 1992, num Ponte Preta x Grêmio, e, desde então, tenta se fazer presente na maioria dos jogos. Na tentativa de preservar a memória e de trazer à tona materiais inéditos, ele passou a pesquisar cada vez mais a história da Ponte Preta e, dentre as descobertas, o apelido 'Macaca' lhe saltou à mente.

"A verdade é que 'Macaca' surge como uma ofensa na década de 1940. A torcida do Guarani deu esse apelido por causa do Bosque dos Jetiquibás, que há no caminho. Então, quando os torcedores da Ponte estavam chegando, eles diziam que 'A macacada havia chegado'. A Ponte Preta sempre foi um time muito forte na comunidade negra de Campinas e até hoje é. Eles resolveram abraçar a alcunha, deixando de lado o nome 'A Veterana', como era chamada a Ponte", conta.

Para os historiadores Frederico Maróstica, 28, criador do Museu da Macaca nas redes sociais, e Fernando Silva, dedicado à memória da Guarani, a rivalidade já se deu com muita intensidade desde a década de 1910. Já na primeira partida, a Ponte Preta afirmava ter vencido por 1 a 0, enquanto os do Guarani, apontavam 1 a 1. Não há registros nos jornais da época.

O dérbi ganhou contornos de clássico já na sua primeira confusão generalizada, no dia 21 de maio de 1916. A Ponte Preta acusava o árbitro de favorecer o Guarani em campo. Quando o Bugre marcou o segundo gol, a Macaca decidiu se retirar de campo e começou a primeira briga generalizada entre as partes. Esse seria somente o primeiro de três jogos interrompidos.

O mais inusitado, segundo os historiadores, fica para o dia 18 de agosto de 1946, também pelo Campeonato Campineiro. O Guarani vencia a partida por 3 a 0, os jogadores da Ponte Preta deixaram o gramado novamente. No dia seguinte, os dirigentes da equipe “sequestraram” o árbitro Aldo Bernardi na capital e o levaram para Campinas, afirmando que havia sido “comprado” pelo Guarani. Após a libertação, o árbitro negou o arranjo e o resultado foi mantido.

“Os dirigentes da Ponte Preta foram na casa do árbitro e inventaram que queriam contar com o serviço dele para favorecer um time e ele aceitou. Daí, esses dirigentes viram que ele era corrupto e o sequestraram para fazer a denúncia. Ele conseguiu ligar para a família, que falou com a polícia e conseguiu resgatá-lo”, conta Maróstica.

A última partida inacabada foi em 1º de dezembro de 1950, aos 40 minutos do segundo tempo, mais uma vez por conta de uma briga generalizada entre os jogadores. Coincidentemente, a competição se chamava Taça Amizade.

IGUAL AO GRE-NAL?

Por serem os únicos times de Campinas, Ponte Preta e Guarani chamam para si toda a atenção futebolística. Os torcedores de ambas as equipes concordam que a partida se diferencia bastante dos clássicos do Rio de Janeiro e de São Paulo, por exemplo, já que há uma tônica diferente dentro da rivalidade.

“Acho que é um dos maiores do Brasil. São só os dois em Campinas. É um ódio bastante direcionado ao time que é o contrário daquele que você torce, como acontece no Gre-Nal”, diz Maróstica. “Eu, por exemplo, não consigo usar nada verde. Me faz mal. Sinto como se eu estivesse traindo alguma coisa e esse sentimento é comum. Sei que tem gente do outro lado que, quando está dirigindo, não usa camisa branca com cinto de segurança para não parecer a camisa da Ponte Preta.”

A cor verde também já foi problematizada em outro momento da história da Ponte Preta. Na semifinal da Copa Sul-Americana de 2013, a equipe teve de jogar em Mogi Morim contra o São Paulo, por causa de uma norma do regulamento não atendida pelo Estádio Moisés Lucarelli.

“A prefeitura de Campinas disponibilizou ônibus municipais para que os torcedores fizessem a viagem. Ônibus de linha mesmo, cada um com sua cor. Houve a oferta para que fossem na linha verde, mas esses ficaram desocupados, justamente por conta da rivalidade”, lembra Maróstica.

A rivalidade, no entanto, sempre extrapolou o limite das quatro linhas do futebol, tanto em provocações quanto em agressões às duas partes. Em maio de 2018, dias antes de um dérbi, Leonardo Bernardes, de 18 anos, foi morto após um confronto entre as torcidas.

Em 2016, o estado de São Paulo já havia implantado a torcida única nos clássicos paulistas, mas a medida é impopular entre os torcedores. José Ricardo Mariolani, porém, reconhece que o atual momento traz mais tranquilidade aos torcedores que desejam assistir a uma partida no estádio.

“Eu não gostaria que fosse assim, mas deixaram chegar numa situação que eu acho até mais tranquilo ir a um clássico hoje do que há alguns anos, quando tinha-se que tomar cuidado até com que rua escolher para ir ao estádio”, comentou.

Ele acrescenta, porém, que a medida pode influenciar na construção de novos torcedores. “No caso específico de Campinas, eu acho que a formação de novos torcedores para os times da cidade tem ocorrido quase que exclusivamente por influência de familiares e amigos, já que nossos clubes têm pouca penetração na TV e na internet em comparação aos principais clubes do país."

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