Rubens Chiri/saopaulofc.net
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Primeiro em vestibular, Araruna busca espaço com Rogério Ceni

Volante é observado com carinho pelo técnico do São Paulo

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

20 Fevereiro 2017 | 06h00

O volante Felipe Araruna, do São Paulo, tinha tudo para não ser jogador de futebol. Nascido em uma família com boas condições sociais, ele estudou nas melhores escolas, aprendeu inglês, mas desde cedo manteve acesa a chama de ser um atleta. Elogiado por Rogério Ceni, ele já treina com o time principal e vem agradando.

Aos 20 anos, sabe que um de seus trunfos é a facilidade em aplicar em campo o que é ensinado. "Todo mundo fala que o que você treina é o que você joga. Eu procuro assimilar o máximo do treino para usufruir no jogo. O Rogério tem me dado liberdade dentro de campo para fazer o que mais gosto e isso dá confiança e me deixa à vontade para jogar", diz.

Ao mesmo tempo que inicia sua trajetória entre os profissionais do clube, o rapaz se dedica aos estudos no curso de administração na Faap, onde passou em primeiro lugar no vestibular. "Não esperava porque meus dois últimos anos de escola não foram tão bons quanto minha formação inicial. Quando vi o resultado, me surpreendi", conta.

Ele está no último ano, mas tem tido dificuldades neste momento de acompanhar as aulas. Na última semana, faltou na terça por causa da concentração e no dia seguinte porque enfrentou o Santos na Vila Belmiro. "Estou tentando lidar com isso. Vou tocar da melhor maneira possível, mas se não der, se começar a me atrapalhar, aí vou trancar e deixar o futebol. Essa é minha prioridade agora", argumenta.

Nascido em Porto Alegre, Araruna se mudou para Brasília e passou a jogar bola no colégio e em escolinhas. Quando se mudou para São Paulo, passou a jogar em um clube até que perguntaram se ele queria fazer teste no São Paulo. "Fiz uma ficha com meus dados, me ligaram e pediram para eu fazer teste numa peneira na Guarapiranga. Tinha 11 anos na época."

O volante se recorda que todo dia chegava gente nova e outros iam embora. "Eu fui ficando, até que um dia o treinador, o Menta, falou que não precisava mais treinar lá, que eu faria parte do elenco em Cotia. Ficou de me ligar, passou alguns meses e nada. Um dia me ligaram, nem lembrava mais. Me chamaram para fazer outra peneira, no Pequeninos do Jockey."

Aos 13 anos, em amistosos contra os garotos da base de Cotia, ele se destacou e foi convidado para treinar no CT do São Paulo. "Eu era diferenciado, mas tinha muita gente do mesmo nível. Acho que dei sorte que no dia fui um dos melhores no coletivo e o pessoal gostou de mim. Fui ficando, me adaptando e ganhando confiança."

O que era uma brincadeira de criança foi se tornando algo bem sério. Os pais de Araruna, que sempre trabalharam em multinacionais no Brasil, só exigiam que os estudos também fossem prioridade. "Eu tinha todas as opções de faculdade, pois minha família pode me proporcionar isso. Só que chegou um momento que disseram no São Paulo que queriam conversar com meus pais. Era o primeiro contrato de formação. Sentei com meu pai, minha mãe e meu irmão e eles viram que era um negócio mais sério. Optei por isso e me apoiaram, da mesma maneira que fariam isso se eu tivesse escolhido outra coisa", diz.

Na base em Cotia, ele acabou mudando de colégio porque tinha treino de manhã e à tarde e precisava estudar em algum lugar mais flexível e com período noturno. "No clube, as pessoas cobravam nota e quem ficava de recuperação não jogava. Minha família também sempre quis que eu fosse bem na escola", explica.

Foi na base que ele teve contato com garotos vindo de realidades bem distintas da sua. "Eu acabei conhecendo o outro lado da vida. Minha família tem boas condições, com eles acabei conhecendo um lado que talvez não conhecesse se não tivesse entrado no mundo do futebol. E foi muito bom porque são pessoas do mesmo nível, eu não tenho nenhum preconceito, lido muito bem com pessoas que têm um poder aquisitivo maior ou menor, não tenho problema nenhum, e até me agregam coisas, pois a gente vê que passam por obstáculos que é de supreender. Tem gente que não tem noção disso."

Araruna não esconde seu passado de torcedor do São Paulo e se orgulha em dizer que na Copa Libertadores de 2005, quando o time foi campeão, ele foi a todos os jogos da campanha no Morumbi. Ele acha que esse lado de amar o clube o ajuda. "Isso dentro de campo é um combustível a mais, pois eu não me conformo em ver o time perdendo."

Agora entre os profissionais, Araruna vê com bons olhos a chegada de jogadores experientes e renomados no clube, mesmo que seja para brigar por posições com eles. Ele só pensa em ajudar da melhor forma possível e garante que nunca vai faltar dedicação. A seriedade começa em sua casa. "Meu pai cobra bastante. Mesmo que eu ache que jogue bem, ele fala, mas é para meu bem. Ele sabe dosar entre a cobrança e falar bem de mim", afirma.

Ele sabe que sua família é quem mais vibra com sua carreira. "Eles estão muito orgulhosos. Sempre me apoiaram desde quando falei que minha prioridade seria o futebol. Sempre fui torcedor do São Paulo, meu pai tentou jogar futebol te fica muito orgulhoso disso. Ele é fã do esporte. Me ver brigando por posição, para ele e para mim, é conquistador. A gente conversa muito. E também tenho muito orgulhoso deles."

Quando olha para trás, Araruna vê que todo sonho de criança está se tornando realidade e valeu muito à pena. Além de ir bem nos estudos, ele fala inglês e consegue entender até o que Michael Beale, auxiliar de Ceni, diz nos treinamentos. Mas mesmo tendo uma enorme bagagem cultural, prefere vencer no Brasil para depois tentar seguir para o futebol europeu.

"Eu tenho esse sonho, mas meu foco é só no São Paulo. Quero crescer aqui, pretendo ganhar muitos títulos ainda e claro que tenho um sonho de ir para a Europa, mas está um pouco distante. Prefiro fazer uma carreira grande aqui no Brasil, ganhar títulos no São Paulo, para depois sair mais maduro para poder ficar e jogar lá", conclui.

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