Paulo Liebert/Estadão
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Prisioneiros

Mesmo proibidos de ter qualquer recreação, detentos utilizavam bolas de meia para jogar futebol na Casa de Detenção de São Paulo

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2020 | 04h00

Até ao menos a metade da década de 1950, a Casa de Detenção de São Paulo ficava na Avenida Tiradentes, bem perto da atual Pinacoteca. Era uma cadeia horrível. Muitas vezes, ao passar por ela, no meu caminho para o centro, ficava imaginando o que faziam os presos o dia inteiro atrás daquelas pequenas janelas gradeadas cuja vista, num lance de ironia demoníaca, era exatamente a rua.

O pé-direito devia ser alto, pois nunca vi sequer um rosto de preso assomar atrás das grades. Sei que o espaço era ínfimo e os presos se amontoavam nos cubículos. Na Detenção era proibido aos presos qualquer recreação, talvez apenas uma meia hora por dia ao sol. O resto era ficar imóvel e estático sentindo o tempo passar.

Naturalmente isso era absolutamente impossível e se criaram entre os presos muitas formas de enganar a autoridade com jogos silenciosos, e truques, que envolviam entre outras coisas a bola de meia. Bola de meia era algo popular naquele tempo numa cidade muito menos sofisticada, onde nem sempre havia uma bola de verdade para jogar.

Era improvisada então uma bola de meia, que consistia numa meia velha, de preferência de mulher, mas que podia ser de homem, recheada com trapos, papéis, papelão macio, etc., tudo amarrado ou costurado formando uma bola.

A arte de fazer boas bolas de meia era conhecida. Na Detenção era superpopular. Com a bola de meia os presos se divertiam no seu diminuto espaço e praticavam a arte popular brasileira mais autentica, o futebol. Era uma versão de futebol sem equipes, apenas alguns lances individuais, malabarismos, controle de bola, passes curtos, tudo o que os presos costumavam fazer lá fora nos bate-bolas.

Ocorre que havia uma grande repressão, com constantes revistas nas celas e apreensão e destruição sumária das bolas. Mas elas reapareciam. Os carcereiros não tinham como identificar quem eram os autores das bolas, elas se pareciam umas com as outras.

Essa constante só se modificava quando Lupércio Ferreira entrava em cana. Dai ficava fácil identificar pelo menos um autor das bolas. As bolas de meia dele eram inconfundíveis. Era um “artista” de quem, aliás, já me ocupei aqui talvez em mais de uma coluna.

Lupércio, a Raposa da Várzea, como gostava de ser chamado, era uma figura ligada ao futebol, ao basquete e à delinquência, não exatamente nessa ordem. Vivia preso e era ídolo na prisão. Tinha sido massagista do São Paulo campeão de 1957 e da seleção brasileira de basquete, campeã no Chile. Espirituoso, imprevisível e criativo, tinha casos incríveis para contar. O tipo de pessoa ideal como companheiro de quem estava preso e confinado.

A sua entrada na prisão mudava o ritual das bolas de meia. Desde a sua chegada, ficava fácil identificar quem fazia as bolas. É que as bolas feitas pelo Lupércio eram as únicas que, de tão perfeitas, pulavam quando batiam no chão, quicavam, ao contrário das outras, que caiam pesadamente e não se moviam. O exame prático era feito sob gargalhadas até do diretor do presídio. Nunca era acusado porque ele negava a autoria, e a cadeia é um lugar onde a delação premiada não funcionava muito bem.

Só se sabia que, enquanto ele estava cumprindo pena, o futebol das celas era mais alegre. Nesses dias tremendos que estamos passando, me vejo na situação dos prisioneiros da Av. Tiradentes. Uma das poucas diferenças é que a altura da minha janela é mais baixa e consigo ver a rua. Não sei se isso, de fato, é uma vantagem. Volto para o meio da sala, perdido, meio sem rumo, olho a pilha de livros que não lerei jamais, e a única coisa que não me sai da cabeça é uma bola de meia imaginária, artística, uma obra-prima, como as que fazia o Lupércio.

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