Nacho Doce/Reuters
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Procurado pelo FBI, Teixeira pediu ajuda de Rosell para ir a praias paradisíacas

MP da Espanha pede 11 anos de prisão ao ex-presidente do Barcelona por desvios de dinheiro da CBF

Jamil Chade, correspondente / Barcelona, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2018 | 00h00

O ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, pediu a ajuda do ex-presidente do Barcelona, Sandro Rosell, para poder visitar ilhas paradisíacas na Ásia, mesmo depois de ter sido indiciado pelo FBI por corrupção e incluído em listas da Interpol. Isso é o que revela um grampo realizado em 16 de abril de 2017, pela Justiça espanhola. 

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Na conversa, o brasileiro deixou claro que buscava sair do Brasil. Mas precisava de ajuda do catalão e de seus contatos no Catar para permitir que a viagem pudesse ocorrer sem que ele fosse preso. 

No ano passado, o Estado já havia publicado um trecho da conversa entre os dois dirigentes. Agora, na íntegra da conversa, o que se revela também é uma relação de negócios, assim como troca de favores. 

Nesta quarta-feira, porém, o Ministério Público da Espanha pediu 11 anos de prisão e uma multa de 59 milhões de euros (R$ 257 milhões) para Rosell, sob a acusação de lavagem de dinheiro e organização criminosa. A denúncia foi revelada com exclusividade pelo Estado em 2013 e resultou na abertura de um inquérito internacional.

Rosell está, atualmente, preso aguardando o julgamento. O ex-dirigente é acusado de lavar 19,9 milhões de euros (R$ 72,8 milhões) da CBF, com parte dele indo para contas secretas de Teixeira. O esquema teria desviado comissões ilegais  de direitos de transmissão de 24 amistosos da seleção brasileira. Há, ainda, 5 milhões de euros (R$ 18,3 milhões) do contrato de patrocínio da entidade com a Nike.

Teixeira ainda foi apontado pelos espanhóis como um dos chefes da organização criminosa e um pedido de prisão internacional foi emitido ainda em 2017. Sob a justificativa de investigar o caso no Brasil, o MP em Brasília solicitou a transferência do caso ao País. Mas o ex-cartola jamais foi preso.

A conversa grampeada ainda cita um certo Tamine, sem detalhar quem seria o alvo da influência. O emir do Catar, porém, é Tamim bin Hamad Al Thani. Nos EUA e na Suíça, o Catar é investigado por ter comprado votos para a Copa do Mundo de 2022. Um dos suspeitos de ter sido comprado era justamente Teixeira. 

CONFIRA A CONVERSA COMPLETA

Teixeira - Como está, amigo?

Rosell - Diga, Ricardo. Tudo bem, querido?

Teixeira - Tudo bem. Graças a Deus. E você?

Rosell - Tudo bem. O cara está encantado, não? Eu imaginava que ele gostaria.

Teixeira - O que ocorre é que existem duas casas para vender ao lado da minha em Angra.

Rosell - Ele comprou?

Teixeira - Não. Ele disse que quer comprar de todo jeito.

Rosell - Está louco. Mas é muito divertido.

Teixeira - Sim, muito. E você? Tudo bem?

Rosell - Tudo bem. Você teve tempo de falar com ele sobre o que eu disse que você falasse com ele?

Teixeira - Sim, já falei. Está tudo dito. Ele vai enviar o homem da empresa que manda no negócio na quarta-feira. Tudo está falado e solucionado. 

Rosell - Ele te pode ajudar muito nisso. Nos pode ajudar. Porque se ele ajuda a você, ajuda a mim. 

Teixeira – Outra coisa importante que queria te dizer é o seguinte: ele vai conseguir para mim, porque conhece pessoas na Tailândia e Dubai, você sabe, não?

Rosell - Sim, sim.

Teixeira – Ok. Pois me consegue uma licença para que eu va la sem que nada me ocorra. Que ruim está o telefone. 

Rosell – Não é meu. Mas ir onde?

Teixeira – Ao local.

Rosell – Mas onde? Na Tailândia? 

Teixeira – Sim

Rosell - Para que você possa ir a Tailândia?

Teixeira - Sim

Rosell – Maravilha

Teixeira – Mas o que eu queria não era isso. O que eu queria era que você olhasse a possibilidade de que eu conseguisse o mesmo com Tamine. 

Rosell – Ah, sem problemas. Para ir para o Catar?

Teixeira – Sim sim. Mas quero que me garanta que não me pegam. E também que não querem entregar as pessoas.  

Rosell – Não, não, não. Nada. O único lugar que penso que é perigoso para você, logicamente, é na casa dos gringos e, logicamente, na Europa. 

Teixeira – Não. Não. Europa, nem falar. 

Rosell – E os gringos tampouco, no resto do mundo, em minha opinião, não tem nenhum problema. Mas vamos estar seguros, porque em duas semanas eu estarei la. 

Estarei com Tamine e pergunto a ele. Vou pedir. Não perguntar. 

Teixeira – Você diz que Ricardo quer ir la, mas necessito uma garantia dele. Você o convida para ele entre e saia de la. 

Rosell - Si, porque há voos direto de São Paulo a Doha?

Teixeira - Sim, existe direto e via Dubai.

Rosell - Claro, então você vai para Dubai, não direto a Doha. Fica uma semana e depois vai para a Tailândia, Phuket, essas ilhas maravilhosas que existem no sul, sim, sim. Pensa que em exatamente duas semanas, não, três semanas, vou para Doha. 

Teixeira - OK

Rosell - Ok. Te digo algo. Mas que bom que Eulali trabalha la. Vamos ver se consegue um apoio ali. 

Teixeira - Claro que sim.

Rosell - Ok. Querido. Que magro que você está nas fotos.

Teixeira - Você acha que estou magro?

Rosell - Minha mãe. Magro demais. Tenho inveja por que ainda estou comendo e bebendo demais.

 

 

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